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Sergio Rial, do Santander, analisa como será o mundo pós-pandemia

O presidente do Santander no Brasil traça possíveis cenários para depois que a pandemia passar. E fala sobre as lições que podem ser tiradas deste crise sanitária e econômica

 

Sergio Rial, presidente do Santander

Enquanto governos, empresas e indivíduos buscam respostas imediatas aos estragos do Covid-19, há quem consiga fazer projeções sobre como será o mundo depois da pandemia. Esse é o caso de Sergio Rial, presidente do Santander no Brasil.

Em live transmitida pelo banco, o executivo traçou possíveis cenários do pós-crise e falou sobre algumas lições que podem ser tiradas da pandemia. E não apenas sob o ponto de vista da economia e do setor financeiro, mas também de questões mais amplas, como as mudanças no mercado de trabalho e o renascimento da ciência.

“Estamos navegando em um momento histórico, que ainda será escrito, realmente nunca vivido”, afirmou Rial. “E eu não tenho a pretensão de trazer verdades absolutas, mas muito mais reflexões que precisam ser feitas.”

Além de projeções, Rial usou parte do tempo para falar sobre as medidas que vêm sendo adotadas no combate ao surto do coronavírus, especialmente no plano da economia. Para ele, a injeção de recursos capitaneada pelo Banco Central garantiu a liquidez para enfrentar a crise.

O executivo observou, no entanto, que o setor financeiro precisa comunicar melhor o que está sendo feito. “Anunciar as medidas não significa que estamos tocando, necessariamente, quem precisa receber essa liquidez”, disse Rial.

Ele citou, como exemplo, estatísticas da Febraban, a federação que reúne os bancos, que apontam a liberação de recursos da ordem de R$ 390 bilhões pelos bancos no primeiro trimestre de 2020, ante menos de R$ 300 bilhões no ano passado. “Agora, temos que transformar essa estatística em empregos e empresas salvas.”

O executivo fez, porém, algumas ressalvas e alertas sobre esse momento. “Há um perigo do uso da palavra guerra. Por trás dela, tudo se justifica, especialmente nas questões que vão além da saúde”, afirmou.

Rial falou ainda sobre os impactos da polarização nesse contexto. “Ela faz com que não se perceba o custo humano e social e torna a crise infinitamente mais cara”, disse. “E faz com que nós, como sociedade, não sejamos capazes de reagir com a velocidade necessária.”

O NeoFeed fez uma seleção das principais reflexões de Rial. Acompanhe:

Crises
Enquanto no século 20 nós vimos hiatos de 20, 30 anos entre as grandes crises, como nas guerras mundiais e na Grande Depressão, nesse século, as crises serão muito mais frequentes, rápidas e profundas. E quando pensamos no setor financeiro, não acredito que os modelos de previsão consigam captar tudo o que vai vir. Os Estados e países precisarão ter capacidade fiscal para responder a variáveis e riscos não necessariamente previsíveis.

Recessão
Apesar da indefinição, algumas coisas são certas. Primeiro, a recessão em todo o mundo. Não me lembro da última vez que Estados Unidos e Europa entraram no nível de recessão que vamos ver nos próximos meses. E boa parte das economias no planeta vai embarcar no pós-crise com um desequilíbrio fiscal profundo.

Brasil real
O Brasil tem 200 milhões de celulares, mas um volume enorme de pessoas desbancarizadas. Isso fala muito sobre nós, bancos. Temos que democratizar, deixar de falar apenas de fundos e investimentos e começar a falar do Brasil real, que está nas ruas, que não tem agenda de investimentos, mas de sobrevivência.

Interdependência
Acho que a interdependência do planeta está dada. A tecnologia veio e já sedimentou a conexão do planeta. Mas acho que construímos muitas organizações internacionais e muitas delas foram incapazes de dar a resposta necessária em função da velocidade das crises que vamos conviver nesse século. Vamos conviver com novos vírus e novas crises. E eu acho que não há nada mais importante que o multilateralismo para responder a essas diferenças. O multilateralismo é tornar a humanidade mais inteligente, na troca de experiências.

“Nós, bancos, temos que deixar de falar apenas de fundos e investimentos e começar a falar do Brasil real, que está nas ruas, que não tem agenda de investimentos, mas de sobrevivência”

Ciência e humanização
A crise trouxe os cientistas de volta e em um nível de cooperação espetacular. Não podemos esquecer que somos uma espécie. E que juntos, de maneira inteligente, conseguimos dar respostas. A crise trouxe a humanização, do quão pequenos nós somos. E também vai trazer mudanças comportamentais. Desde a higiene pessoal até a intolerância quanto a viver num país que hoje aceita a falta de saneamento. Moradia, água potável, saneamento minimamente decente. Não é muleta. É possível que a próxima crise não nos permita nem sair de casa. Ela virá pelo ar. Temos que trabalhar em prol desse tema. Saneamento não é voto. É proteger vidas.

Digitalização
Lembro que há alguns anos, havia discussões éticas e morais sobre a telemedicina. Isso acabou. Outra desconstrução do preconceito envolve a educação digital. A crise também mostrou a capacidade dos poderes estabelecidos em se organizarem virtualmente. A possibilidade de ter um Congresso que se reúna nesse modelo é muito mais eficaz. Isso também passa pelo Judiciário. Tudo começa a ser desconstruído. Há também uma oportunidade de salto de digitalização no sentido do início da sociedade cashless, sem dinheiro. Tudo isso virá e de forma muito mais acelerada a partir dessa crise.

Mercado de trabalho
Daqui para frente, a discussão é como se gera e se preserva produtividade com emprego. No que diz respeito ao Santander, o que ficou claro é que remoto é produtivo. É eficaz. Outra conclusão é a desconstrução do espaço físico. Usamos mais metros quadrados que precisamos. São dilemas que vamos ter que convergir. Por exemplo, no modelo remoto, como fica o vale transporte? Estaríamos dispostos a abrir mão? Qual é o impacto do remoto no planejamento urbano? São impactos que a sociedade civil, as indústrias precisarão ter um diálogo mais presente com o poder público. Para nós, o remoto vem para valer.

Setores
Há setores que sairão bastante fortalecidos da crise. Estamos atrelados à China, que parece ter uma recuperação mais forte. O agronegócio como um todo vai ser uma grande salvaguarda para a nossa economia. Assim como o setor de papel e celulose. Apesar do preço ter caído, a combinação com o dólar alto permitiu que essas empresas mantivessem suas margens. E a própria indústria financeira. Existe uma grande incerteza sobre como a inadimplência vai impactar. Mas o sistema está muito sólido e sairemos dessa crise com qualidade.

Estado
A ausência de um Estado, não necessariamente tão grande como talvez nós tenhamos, teria sido catastrófica. E dentro dele, há figuras que não recebem palmas. A crise trouxe, de imediato, a importância da saúde, do profissional de saúde. Muitos ganham menos de R$ 1 mil. O mesmo vale para bombeiros e policiais honestos. A sociedade rica olha para o Sistema Único de Saúde (SUS) até de maneira preconceituosa. E o SUS hoje é o grande exemplo da capacidade do tripé formado pelos governos federal, estadual e municipal de entregar algo concreto, juntos.

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