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Os prós e contras de um fundo de venture capital, segundo o fundador da Easy Taxi

O fundador da Easy Taxi e do Singu, Tallis Gomes, avalia de forma crítica o capital de risco e faz um alerta aos empreendedores: construa uma empresa para lucrar, não apenas para crescer

 

Tallis Gomes, fundador do Easy Taxi e do Singu

Em novembro de 2014, o empreendedor Tallis Gomes anunciava que deixava a Easy Taxi, o aplicativo de táxi que ele havia criado em 2011 e que estava espalhado por 172 cidades ao redor do mundo e transportava 15 milhões de pessoas.

Na época, ele tinha apenas 4% do capital da empresa que havia fundado, devido as diluições que foi sofrendo ao longo de sucessivas captações. No total, ele levantou R$ 500 milhões, em especial do fundo europeu Rocket Internet.

Com o dinheiro de sua saída, ele investiu em fundos imobiliários e dobrou o seu capital, o que o ajudou a se capitalizar para criar o Singu, um marketplace de beleza e bem-estar, que atua em São Paulo e Rio de Janeiro.

Sobre o seu negócio, Gomes diz pouco. Ele afirma que o Singu conta com dezenas de milhares de prestadores de serviços, que atendem centenas de milhares de clientes, faturamento dezenas de milhões de reais. Nem o nome dos investidores ele revela. Apenas assegura que não são fundos de venture capital.

Nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed, Gomes aborda os prós e contras dos fundos de venture capital. De um lado, ele critica. “Os fundos de venture capital só ganham dinheiro se o empreendedor não ganhar. É um jogo de soma zero”, afirma.

De outro, elogia. “Há pessoas extremamente qualificadas, que já passaram muitas vezes pelo caminho que você está passando e te orientam. Você tem ainda acesso a um networking que provavelmente não conseguiria.”

Confira os principais trechos da entrevista:

Você procurou investidor quando criou o Singu?
Sim, temos grandes nomes do mercado financeiro e os donos das maiores marcas de beleza da América Latina conosco.

Quem são?
Não posso falar, pois tenho cláusulas que impedem revelar os nomes. Levantei algo próximo de R$ 16 milhões entre o que eu e os investidores aportaram. A gente optou por ficar fora de venture capital. Até agora, não precisamos do capital dos fundos de venture capital.

Por quê?
O deal nunca é bom para o empreendedor. Os fundos de venture capital só ganham dinheiro se o empreendedor não ganhar. É um jogo de soma zero. Há excelentes fundos de venture capital no Brasil, mas eu ainda não encontrei um deal que eu falaria: ‘esse eu gostaria de pegar’.

É raro um empreendedor falar contra os fundos de venture capital.
Não estou falando contra os fundos de venture capital. Estou sendo realista. Existem excelentes profissionais e excelentes fundos de venture capital. Só que eu ainda não tive a chance de receber uma proposta que ache que faça sentido.

“Os fundos de venture capital só ganham dinheiro se o empreendedor não ganhar. É um jogo de soma zero”

Quais as desvantagens de um fundo de venture capital?
Tem algumas coisas, como cláusulas de antidiluição, que pedem um retorno médio de duas vezes e meia até três vezes o capital investido. Com isso, fica quase impossível um empreendedor ganhar dinheiro de verdade no negócio. A grande maioria dos empreendedores que são investidos por fundos de venture capital, principalmente em lugares fora dos Estados Unidos e de alguns lugares da Europa, tem dificuldade em ganhar dinheiro de verdade. Eu, no lugar do venture capital, faria a mesma coisa. O empreendedor fica também muito dependente daquele investidor, o que muitas vezes o força a tomar decisões que não são corretas em relação ao negócio. Tem fundo de venture capital, por exemplo, que fala assim: ‘estou aportando R$ 100 milhões no seu negócio, mas você tem 12 meses para queimar esse dinheiro.’ O que você faz quando ele está te forçando a queimar esse dinheiro? Você gasta com qualquer coisa. Por isso que você vê startups gastando muito dinheiro. Hoje, não tem nenhum marketplace no Brasil que tenha uma margem de contribuição que represente nem a metade da minha. A minha margem de contribuição é de 36%.

O que é a margem de contribuição?
A margem de contribuição é basicamente o quanto que sobra de dinheiro para a empresa. Mas por que eu tenho essa margem de contribuição? A minha empresa é gerida para dar dinheiro. Não estou gerenciando a empresa para crescer. Quando você entra em um fundo de venture capital – e aí a escolha é do empreendedor, eu já fiz isso também – você entra num jogo de números. Literalmente, dane-se o resultado financeiro e vamos focar em crescimento.

O que você diz, então, para empreendedores que estão começando seu negócio e precisam crescer? Onde buscar dinheiro?
Quem está começando agora não deveria nem buscar um fundo de venture capital. Deveria buscar um angel investor ou o ex-chefe, pessoas que conhecem sua qualidade como empreendedor. Se tiver dinheiro, melhor ainda: aporte o seu próprio capital. O dinheiro mais caro que existe no mercado é o de venture capital. Você está dando o maior valor que você tem que é o seu equity. O que você puder fazer para evitar rodadas de investimentos, melhor. Aí tem um ponto que é o seguinte: a taxa Selic hoje está em 6,5%. A tendência é de 4,5% no fim do ano que vem. O Brasil nunca viu um juro desse na história. Nunca vimos um país tão arrumado economicamente.

Mas até por conta dos juros baixos, alguns especialistas estão dizendo que uma maneira de conseguir rendimentos maiores é investir em fundos de venture capital.
Historicamente, não existe nenhuma economia saudável sem um mercado de capitais bem desenvolvido. E um mercado de capitais bem desenvolvido demanda o fim do rentismo, o fim do retorno fácil para o investidor. Na época em que a Dilma (a ex-presidente Dilma Rousseff) estava saudando a mandioca, o ganho real em renda fixa era de 8%. Eu vendi a Easy Taxi nessa época. Investi em fundo imobiliário e quase dobrei o valor da minha saída. Fui muito fácil para eu fazer dinheiro. Admito, faço a minha mea culpa: eu, um cara que entende de tecnologia, comecei a fazer investimento de venture capital há apenas dois anos. Antes não fazia sentido nenhum eu tomar esse risco. Agora, sim. Eu preciso tomar esse risco. Se investir hoje em renda fixa tenho um ganho real de 2% ao ano. Ano que vem será de 1% ao ano.

“Os bons fundos de venture capital conseguem trazer bons investidores para aportar no seu negócio”

Você não observa nada de positivo no venture capital?
Vejo. Há pessoas extremamente qualificadas, que já passaram muitas vezes pelo caminho que você está passando e te orientam. Você tem ainda acesso a um networking que provavelmente não conseguiria. Os bons fundos de venture capital conseguem trazer bons investidores para aportar no seu negócio. E, por fim, você tem acesso a conhecimento. Vou citar como exemplo dois fundos de venture capital que eu admiro muito: a Monashees e a Kaszek. Eu faria negócio com esses dois. Eles são muito bons. Eles ajudam muito com conhecimento. A Kaszek, por exemplo, por ser um fundo com muito conhecimento de produto. A Monashees tem um grande networking de bons empreendedores. Eles te colocam num clubinho de muita qualidade. Isso tudo é uma vantagem.

Diversos fundos de venture capital estão captando milhões de dólares. A Kaszek, por exemplo, está levantando US$ 500 milhões. A Monashees, US$ 250 milhões. O Redpoint eventures, US$ 250 milhões. O Atlantico, do Julio Vasconcellos, US$ 150 milhões. E o Canary, US$ 50 milhões. Vai chover dinheiro na América Latina?
Esse cenário vai melhorar bastante os deals porque aumenta a competição. Vou dar um exemplo. Imagine um mercado não regulado, como o da gasolina. Se existe apenas um posto de gasolina na cidade, o preço vai ser o máximo que o dono conseguir cobrar. Agora, em uma cidade pequena com 50 postos de gasolina, o que vai acontecer? O preço vai cair. É isso que vai acontecer com os deals. Eles vão melhorar porque vai aumentar a oferta de capital. O empreendedor vai fazer como nos Estados Unidos. Ele tem uma proposta de um fundo A, ele vai no B, no C e no D para ver se consegue uma oferta melhor.

Mas as avaliações não vão subir muito?
Sim, com certeza.

Mas isso será bom?
Uma dica para os empreendedores é de que nada adianta inflar o seu valuation. Essa é uma armadilha. Eu posso pegar uma rodada numa determinada valuation. E na próxima possa estar down round (termo que significa vender suas ações por um preço inferior a rodada de captação anterior). Pela cláusula de antidiluição, que todo investidor tem, ele não pode ser diluído por uma valuation menor do que aquela que entrou. Consequentemente, toda a sociedade é diluída por esse investidor. É preciso fazer uma avaliação justa. A conta que eu sempre faço é a seguinte: para cada dólar que eu captar, eu consigo transformar em três dólares em 18 meses? Se sim, eu pego dinheiro.

Não há o risco de uma bolha com a quantidade de dinheiro que vai começar a ser aportado nas startups da América Latina?
Falaram sobre isso nos Estados Unidos, mas não foi o que aconteceu. Nos EUA, existe sim uma bolha de valuation. Mas quanto mais dinheiro está entrando, mais sustentação essa bolha tem. As empresas valem aquilo mesmo? Não. Uma Uber vale mais do que uma GM? Não tem a menor chance de valer. O negócio perde US$ 3 bilhões por ano. Como vai valer mais que a GM, que dá lucro? Mas, se tem muito capital entrando, o pessoal sustenta essa bolha. Eu acho que está longe de ter que se preocupar com isso no Brasil.

O Singu já é lucrativa?
Ainda não, porque estamos investindo. Mas daria para ser. Se eu corto o time de tecnologia, seria lucrativo. Mas se fizer isso, deixo de evoluir o produto.

Mas você disse que os fundos de venture capital estão muito preocupados em crescer e não em fazer um negócio rentável. Não é uma incoerência não ser lucrativo?
Estou preocupado em crescer, mas não a qualquer custo. Estou preocupado em crescer de forma que eu vá construir um negócio lucrativo. Eu quero que esse negócio distribua dividendos em três anos. Para isso, preciso começar a construir um negócio lucrativo. Tanto que provavelmente vou estar equilibrado financeiramente no primeiro trimestre do ano que vem.

Qual foi o seu maior erro?
São tantos erros. E continuo errando até hoje. A verdade é que o brasileiro se preocupa muito com o fim e não com o meio. Eu aprendi a me preocupar mais com a jornada do que com a chegada. Isso parece clichê. O que você tem de fazer é se preocupar com o que está ao seu alcance. Eu me preocupava muito, na época da Easy Taxi, com o fim e não aproveitava a jornada. Sabe aquele filme Se beber, não case? A minha jornada da Easy Taxi se parece com ele. Eu tenho uns apagões no meio. Era tudo tão automático, a cada duas semanas em um fuso horário diferente. Hoje, eu aproveito mais a jornada. Eu tento pensar no que eu posso fazer e que está ao meu alcance.

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