A gestora de venture capital Monashees está perto de fazer o first closing de seu décimo primeiro fundo, que tem a meta de captar US$ 200 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão), metade do fundo anterior, apurou o NeoFeed.
O Monashees XI deve levantar, neste momento, entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões e já conta com alguns investidores âncoras que participaram do fundo anterior. Entre eles, o IFC (International Finance Corporation), braço do setor privado do Banco Mundial, e o BID Lab, braço de inovação e capital de risco do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Segundo documentos publicados por essas instituições, o IFC vai investir US$ 11,2 milhões no novo fundo da Monashees – o aporte já foi aprovado pelo comitê de investimento e agora falta o OK final, o que deve acontecer em maio. O BID Lab, por sua vez, aportará US$ 6,5 milhões.
“Nenhum gestor gosta de captar um veículo novo menor do que o anterior”, diz um investidor do mercado de venture capital. “Mas há muita instabilidade global, guerras e os investidores estão seletivos com taxas de juros altas.”
Uma fonte próxima à Monashees, no entanto, diz que a decisão de reduzir o tamanho do fundo foi intencional e estratégica para conseguir maximizar o retorno dos LPs (limited partners, como são chamados os cotistas). “Mesmo menor, é um tamanho que permite liderar rodadas e ideal para as oportunidades dos próximos três anos”, afirma.
A última captação da Monashees aconteceu no fim de 2021, quando levantou US$ 700 milhões em dois fundos: o Monashees X, voltado para early stage, e o Expansion II, para growth, mas que investe apenas nas startups do portfólio.
Os valores de cada veículo não foram, na época, revelados. Mas o NeoFeed apurou que o Monashees X captou aproximadamente US$ 400 milhões e o Expansion II, US$ 300 milhões. A gestora ainda tem capital para investir em, ao menos, três startups desse vintage antes de começar a fazer o deploy do capital do novo fundo.
Agora, a Monashees vai se concentrar em early stage. A tese não mudará em comparação a outros fundos. Mas a intenção é reforçar a aposta em IA, um tema que está na pauta de todos os investidores de venture capital.
De acordo com um documento do BID Lab, que aprovou o investimento, o Monashees XI “investirá em até 30 startups de base tecnológica que abordam ineficiências de mercado por meio de soluções tecnológicas com potencial de escalabilidade e impacto regional”.
E prossegue acrescentando que o “fundo seguirá uma abordagem agnóstica em relação ao setor, com ênfase em fintech, edtech, healthtech, retailtech, Software as a Service (SaaS) e tecnologias emergentes, incluindo Inteligência Artificial (IA) e tecnologia climática.”
Apesar de menor, o fundo não deve reduzir o tamanho de seu cheque. O alvo é liderar ou coliderar investimentos em rodadas que vão de seed até a série B. “Hoje, por conta da IA, as startups tem uma necessidade menor de capital para escalar”, diz uma fonte próxima à Monashees.
Com escritórios em São Paulo e na Cidade do México, a Monashees acaba de abrir uma filial em São Francisco, nos Estados Unidos, para estar mais próxima do berço da inovação americana e acompanhar de perto as transformações da inteligência artificial.
Segundo uma fonte próxima à Monashees, o novo fundo deve reforçar uma tese que já vinha ganhando espaço na estratégia da gestora: latinos que estão empreendendo nos Estados Unidos. Atualmente, a Monashees já conta com startups com esse perfil, como Moises, Tractian, Slope, Simetrik e Vortexa.
“Eles perceberam uma ida maior de latinos para o Vale do Silício por conta da tendência de IA. E com isso montaram um time para dar suporte e investir nesses cases”, afirma essa fonte.
O estudo “Brazil Tech Diaspora in The USA”, da Endeavor, publicado com exclusividade pelo NeoFeed, mapeou 200 brasileiros no ecossistema tech americano, dos quais mais de 140 eram empreendedores, e mostrou como IA, capital abundante e ambição global estavam impulsionando essa nova diáspora.
Pioneira do venture capital
Fundada em 2005 por Eric Acher e Fabio Igel, a Monashees é uma das pioneiras do mercado de venture capital brasileiro. Ao longo de sua trajetória, investiu em 150 empresas (incluindo 12 unicórnios), na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México, por meio de 12 fundos (10 deles de early stage e dois de growth). Aproximadamente 90 delas ainda estão ativas.
O portfólio inclui empresas como Rappi, Wellhub (antiga Gympass), Creditas, Loggi, Ualá e ID Wall. O aplicativo 99, primeiro unicórnio brasileiro, fazia parte do portfólio da Monashees, assim como o Nubank. Méliuz e Enjoei, as duas primeiras startups a abrirem o capital no Brasil na onda de 2020 e 2021, também eram investimentos da gestora de venture capital.
Mas, como é inerente à classe de ativos de venture capital, cujo risco é bastante alto, em especial no early stage, a gestora também conta com investimentos que não deram certo.
O mais ruidoso desses investimentos foi na startup de social commerce Facily, que levantou mais de US$ 500 milhões e chegou a ser avaliada em US$ 1,1 bilhão. Em 2023, a Monashees deu baixa contábil nessa aposta, segundo revelou o NeoFeed.
A última safra de aportes foi também na alta do mercado de venture capital, no qual os valuations estavam inflacionados, o que tem levado a uma correção na marcação de valor em muitas startups.
“Os últimos vintages da maioria dos gestores de venture capital sofreram muito. Há uma correção de valor e há uma seca de saída”, afirma um investidor. “Eles estão passando pelo ‘J curve’. Vamos saber se foi bom ou não mais para frente.”
O “J Curve” é um conceito teórico em que um investimento de venture capital tem um ciclo semelhante ao da letra J. Ele tem um evento inicial de queda para depois se recuperar e acelerar, superando o ponto de partida inicial.
Captação volta ao mercado
A Monashees é a mais recente gestora a avançar em sua captação, um sinal positivo para o mercado de venture capital, que viveu, depois de 2022, o que ficou chamado de “o inverno das startups”.
De um lado, com a correção de mercado, ficou bom para investir. E quem tinha dinheiro, o chamado dry powder, teve oportunidade de fazer bons negócios.
De outro, com taxas de juros altas e a frustração com a safra de 2020 e 2021, muitos investidores passaram a olhar com desconfiança para o venture capital. Em resumo, ficou muito mais difícil captar para novos fundos.
Há mais de 40 gestoras de venture capital no mercado brasileiro captando recursos, segundo apurou o NeoFeed. Mas a maioria delas não tem conseguido levantar recursos ou tem fechado seus fundos abaixo da meta de captação.
Mesmo assim, gestoras com track record e tradição no mercado têm conseguido atrair investidores para seus novos fundos. São exemplos a Astella Investimentos, Canary, Valor Capital, OneVC, Big Bets, Volpe Capital e Spectra.