O cenário externo, a perspectiva de juros baixos e a credibilidade que Gabriel Galípolo conquistou à frente do Banco Central (BC) permitem vislumbrar cortes da Selic até um pouco maiores do que o esperado pelo mercado, com boa margem de segurança. Mas isso só até o primeiro semestre.

Depois disso, as eleições entram no radar, com a política fiscal do País sendo o principal tema. Se nada for feito, todo o trabalho realizado até agora pela autoridade monetária pode ir por água abaixo, e nem mesmo uma situação global favorável será suficiente para apaziguar os ânimos, segundo avaliação de Bruno Serra, gestor de fundos da Itaú Asset, e Rodrigo Azevedo, cofundador e sócio da Ibiuna Investimentos.

Ambos, que já foram diretores do BC, avaliam que o momento é bastante favorável para afrouxar a política monetária. Um dos motivos vem do cenário externo confortável, com a apreciação do dólar e a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) continuará cortando juros.

O segundo fator decorre das expectativas de inflação bem controladas e em patamares baixos, com a projeção de que a Selic feche o ano em 3,5%, abaixo dos 4% estimados pelo mercado, segundo o mais recente Boletim Focus – o valor representa o terceiro corte consecutivo das expectativas.

Diante desse cenário, Serra vê espaço para ir além do esperado, considerando que a expectativa do mercado financeiro é de que a Selic feche o ano em 12,25%.

“Acho que os cortes começam em março, com redução de 0,50 ponto percentual, e podemos ter um ciclo bem mais intenso do que espera o consenso, indo até 11%”, disse ele na terça-feira, 27 de janeiro, na Latin America Investment Conference (LAIC) 2026, evento promovido pelo UBS e o UBS BB.

Para ele, a Selic em 15% foi resultado da necessidade do BC de aplicar um “choque de credibilidade”. Lembra que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou com uma enorme expansão fiscal, fruto da PEC da Transição e do pagamento de precatórios.

Além disso, a primeira transição de comando do BC independente gerou dúvidas quanto à ancoragem das expectativas de inflação, diante da resistência de muitos políticos em relação a esse regime. “Acho que vai ser mais tranquilo daqui para frente, mas a primeira transição foi dolorosa e o BC precisou se provar. O que aconteceu foi que ele se provou”, disse Serra.

Azevedo - que concorda que o início do afrouxamento será em março e espera que a Selic caia 3 pontos percentuais neste ano, para 12% ao ano - afirmou que o BC optou por uma gestão de risco em meio às incertezas, acompanhando a percepção de Serra de que a autoridade buscou se impor perante o mercado.

Para ele, o BC conquistou o direito de “devolver os 3 pontos percentuais” adicionados à Selic desde que Galípolo assumiu o comando. Depois disso, será preciso observar os próximos desdobramentos. Azevedo destacou ainda que o presidente da instituição tem feito um bom trabalho. “É importante ter sorte na vida, mas conduzir corretamente a política monetária faz toda a diferença”, disse.

A grande questão é o que virá das eleições. Mais especificamente, qual será a sinalização em relação à política fiscal, considerando que a dívida beira os 80% do PIB e os juros permanecem elevados.

Para Serra, um ajuste fiscal crível, da ordem de 1,5 ponto percentual pelo lado da receita, pode ajudar a reduzir a Selic para a casa dos 8%, perto do neutro. Mas isso depende do resultado das eleições e do pano de fundo externo.

“Se o governo continua, é preciso saber se o mercado terá um pano de fundo externo que permita sustentar ou não esse governo, e se acontecerá o mesmo que ocorreu na eleição da Dilma”, disse. “Difícil prever como será esse pano de fundo, e ele é chave.”

Já Azevedo entende que um ajuste da ordem de 1,5 ponto percentual é insuficiente para conter os ânimos do mercado, destacando que o Brasil perdeu a oportunidade de realizar ajustes graduais diante da situação.

“Não dá para achar que será possível pôr um band-aid e tudo bem. Ou se faz um ajuste de verdade ou se continua contando mentiras para o mercado”, afirmou. “O cenário global é muito importante, mas quando o fundamento local piora, o que predomina é o fundamento local.”