Com uma derrota acachapante nas urnas nas eleições do final de semana, chegou ao fim o regime populista ultradireitista de viés nacionalista-cristão que vigorou por 16 anos na Hungria do primeiro-ministro Viktor Orbán.
O resultado da eleição, que deu ao candidato oposicionista Péter Magyar cerca de 54% dos votos, contra 37,8% do partido de Orbán – a maior diferença nos 37 anos da era pós-comunista da Hungria – terá um duplo efeito na geopolítica global.
O primeiro deles, mais imediato, é o de romper um impasse na União Europeia (UE), que vinha sendo impedida de liberar um empréstimo de € 90 bilhões à Ucrânia e aprovar uma próxima rodada de sanções contra a Rússia por causa do poder de veto exercido por Orbán – restrição que deve ser derrubada por Magyar.
O segundo efeito é o impacto negativo que a derrota humilhante de Orbán deverá causar ao seu modelo populista, que vinha sendo elogiado como símbolo da “democracia iliberal” dos novos tempos por líderes ultradireitistas de vários países – do presidente americano Donald Trump à primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, passando pelo presidente argentino Javier Milei e até pelo líder russo Vladimir Putin, entre outros.
Trump não só apoiou Orbán como enviou o vice-presidente JD Vance a Budapeste para fazer campanha ao seu lado na semana passada. O resultado representa uma derrota não só para Trump como para Putin, que perde o único apoio que tinha de um país do bloco europeu na guerra contra a Ucrânia.
A reação da União Europeia com o resultado da eleição na Hungria foi do alívio inicial a uma espécie de ultimato ao novo governo de Magyar, que deve tomar posse em 30 dias.
Um dia depois da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, publicar no X que “o coração da Europa bate mais forte na Hungria esta noite”, um porta-voz da Comissão Europeia revelou ao jornal britânico Financial Times, na segunda-feira, 13 de abril, uma lista com 27 exigências do bloco europeu ao novo governo de Magyar para liberar cerca de € 35 bilhõesem fundos da UE destinados à Hungria.
O repasse dos fundos estava congelado devido a uma série de disputas com a UE e à recusa de Orbán em implementar as reformas exigidas.
Isso inclui quase € 18 bilhões do orçamento da UE imobilizados devido a violações do estado de Direito na Hungria sob Orbán, aumento dos riscos de corrupção e enfraquecimento da independência judicial. Mais de € 17 bilhões em empréstimos a juros baixos para a defesa também foram adiados.
O recado foi passado porque Magyar, que se comprometeu a reaproximar o país do bloco europeu, é considerado um político conservador e de direita – ele apoiava o governo Orbán até 2024, e só rompeu com o líder populista por uma disputa política.
Aos 45 anos, Magyar transformou o Tisza em uma força política em poucos meses, explorando o desgaste de Orbán com a deterioração da economia húngara e os escândalos de corrupção envolvendo parentes e aliados.
No domingo, 12 de abril, Magyar prometeu restaurar os mecanismos democráticos de controle e equilíbrio, afirmando que a mídia pública - cujo serviço de notícias foi transformado em uma máquina de propaganda de Orbán - será suspensa até que sua neutralidade possa ser garantida novamente.
Magyar, porém, afirmou que sua primeira viagem ao exterior será a Varsóvia e Viena — ambas governadas por governos conservadores pró-UE — antes de seguir para Bruxelas, onde pretende reparar as relações profundamente prejudicadas com o bloco ainda antes de assumir o governo.
Ruína do regime
Tal como aconteceu com outros governos populistas recentes, Orbán usou as três vitórias anteriores nas eleições para enfraquecer as instituições independentes - os meios de comunicação, o banco central e o Poder Judiciário - cooptando-as para beneficiar a elite econômica e política que gravita em seu entorno.
O modelo autodenominado "iliberal" implementado pelo primeiro-ministro até deu certo no começo, até 2014, período de crescimento econômico estável. A energia russa barata, os fluxos de capital estrangeiro e os fundos de desembolso da UE logo secaram e "expuseram drasticamente as fragilidades estruturais preexistentes", segundo o Centro de Estudos Orientais .
O principal efeito de seu estilo de governar tem sido a centralização do poder econômico e da tomada de decisões. A corrupção desenfreada, as políticas de confronto de Orbán contra a União Europeia, em especial na questão da imigração, além de sua aproximação com Putin – posicionando o país ao lado da Rússia na guerra contra a Ucrânia – foram minando sua popularidade.
O principal fator que explica uma derrota tão expressiva de Orbán nas urnas, porém, é o fracasso de sua política econômica – o que deve chamar a atenção de eleitores de outros países que viviam festejando Orbán como modelo a ser seguido.
Ao longo de 16 anos, Orbán conseguiu a proeza de transformar uma economia considerada entre as mais avançadas entre os ex-países comunistas do Leste europeu no mais pobre da UE. A Hungria vem registrando a maior inflação acumulada entre os países do bloco desde o fim da pandemia. No geral, os preços subiram 57% no período, quase o dobro da taxa para a UE como um todo (28%).
A experiência da Hungria como um caso atípico em termos de inflação deve-se à política interna. Antes das eleições de abril de 2022, o governo introduziu estímulos adicionais, numa medida que alguns analistas interpretaram como uma tentativa de "comprar" votos. Repetiu a mesma tática antes destas eleições, oferecendo subsídios equivalentes a 2,2% do PIB. Entretanto, os tetos de preços temporários impostos pelo governo mostraram-se, em grande parte, ineficazes.
Em consonância com a cartilha populista, o governo reduziu progressivamente a independência do banco central do país, o que levou a uma inflação persistentemente mais alta no período que antecedeu a pandemia de Covid-19 e a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. As taxas de inflação anual atingiram picos acima de 25%.
Além disso, as políticas destinadas a aumentar a fertilidade — um ponto central da agenda nacionalista de Orbán, que inclui isenções fiscais e empréstimos sem juros e que se estima custarem cerca de 5% do PIB — falharam até agora.
A baixa taxa de natalidade, combinada com uma postura anti-imigração rigorosa, resulta em uma população em declínio. A Hungria tem 500 mil habitantes a menos desde 2011, o que equivale a uma queda de 4,5%.
O país também enfrenta escassez de mão de obra em setores-chave, como a saúde, com milhares de médicos emigrando em busca de melhores salários. O setor da educação também sofre com a falta de pessoal.
Com baixo crescimento e um déficit orçamentário relativamente alto, as perspectivas para remediar alguns desses problemas são sombrias. Suas obrigações com o serviço da dívida são as mais altas da Europa , já que os credores exigem um "prêmio Orbán".
A liberação de fundos congelados da EU deve aliviar a crise econômica. Para a Hungria, porém, a saída do poder do líder populista que azucrinou o bloco europeu deve devolver o país a uma insignificância política e econômica – com apenas 10 milhões de habitantes, a Hungria responde por apenas 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) europeu.
Em contrapartida, a forma humilhante como Orbán foi derrotado permite prever um impacto negativo muito maior fora do país, o que deve deixar líderes populistas que sempre o elogiaram, como Trump e Milei, sem muitos argumentos para defender a 'democracia iliberal' húngara.