A economia global está em um ponto de inflexão crítico, dependente mais da reabertura total do Estreito de Ormuz para a retomada do fluxo de petróleo do que da resolução do conflito no Irã. Um desfecho positivo do impasse no estreito pode eliminar o prêmio de risco energético e impulsionar os mercados.
Um bloqueio prolongado, porém, pode desencadear uma crise energética severa, estagflação e uma correção profunda nos mercados financeiros, com impacto até na política monetária do Banco Central do Brasil.
Daí a importância de que o cessar-fogo de 15 dias entre Estados Unidos e Irã, em vigor a partir de quarta-feira, 8 de abril, resulte na abertura total do Estreito de Ormuz e a normalização do fluxo de global do transporte de petróleo.
O alerta é do espanhol Alex Fusté, economista-chefe do Andbank, grupo financeiro especializado em private banking, nesta entrevista ao NeoFeed. Com sede em Andorra e presente em 11 países, o Andbank – fundado há 95 anos - detém o equivalente a R$ 360 bilhões sob gestão no mundo.
“O cenário atual só pode ser sustentado por mais um ou dois meses usando reservas móveis e estratégicas de petróleo, que já estão quase esgotadas”, diz Fusté. “Passado esse limite, o mundo entraria em recessão com inflação alta, caracterizando uma estagflação global.”
Segundo ele, a duração do choque é o fator central, pois cada dia adicional aumenta exponencialmente o risco de uma crise sistêmica de liquidez. Fusté afirma que o choque de petróleo é o mais danoso para a economia global e nenhum país – nem Estados Unidos, nem China nem Rússia – está imune aos seus efeitos.
“Existem vários tipos de choques, mas o mais perigoso de todos é o choque energético, porque o petróleo é o gatilho que mexe com tudo — inflação, juros, liquidez e crescimento”, diz, prevendo no pior cenário o preço do barril a US$ 200 e índices do mercado financeiro, como o S&P, caindo em até 30%.
Outras duas advertências do economista chamam a atenção. Primeiro, a de que os mercados ainda não precificaram adequadamente o risco político associado ao novo estilo de governança nos EUA, o que adiciona uma camada estrutural de incerteza.
“A nova geração republicana - como o presidente Donald Trump, o vice JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio - difere da tradicional e tende a gerar mais volatilidade e incerteza, aumentando o prêmio de risco”, afirma o economista.
"O mercado não entendeu que essa nova forma republicana de fazer política, em um mundo onde parece que já não existem regras — e quem segue as regras, perde”, complementa.
Ele também não descarta a possibilidade de o Banco Central do Brasil reverter a atual política monetária, voltando a subir a Taxa Selic, caso a instabilidade global se prolongue nos próximos meses.
“Diante de um choque energético, a política monetária correta sempre é subir juros, mesmo que já estejam perto de 15%, como é o caso brasileiro. A política monetária precisa se adaptar à realidade: não posso manter os mesmos juros de um mês atrás quando agora enfrento um choque energético que não existia antes", afirma Fusté.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
O cessar-fogo na guerra com o Irã trouxe alívio aos mercados, mas ainda não sabemos o que virá depois. Na sua avaliação, qual será o maior impacto do conflito na economia global no médio prazo?
O ponto central para mim é muito simples: tudo depende do Estreito de Ormuz. Não é o conflito em si que me preocupa, mas quanto tempo o estreito ficará fechado. Se o cessar fogo realmente levar à reabertura definitiva do estreito e aliviar o choque energético, o mercado respira. Se não, entramos em território perigoso. A situação, portanto, é binária: pode resultar em um cenário muito bom ou muito ruim para a economia global.
Como seria o cenário positivo?
Se o cessar fogo resultar em um Irã mais pragmático, sem sanções e sem incentivo para provocar choques no petróleo, nós — gestores de portfólio — finalmente poderíamos eliminar o prêmio de risco energético que carregamos há anos, o que impulsionaria fortemente os ativos de risco.
Em que consiste esse prêmio de risco energético?
É o custo de me proteger contra choques de mercado. Existem vários tipos de choques, mas o mais perigoso de todos é o choque energético, porque o petróleo é o gatilho que mexe com tudo — inflação, juros, liquidez e crescimento. E a cada dois anos, em média, temos algum choque energético, quase sempre com os mesmos protagonistas: Rússia ou Irã. Por isso, desde 2010, eu precisaria manter posições longas em futuros de energia para garantir que, se o petróleo explodisse, minha carteira estivesse protegida. Só que esse “seguro” é caríssimo. Se tivesse mantido essa proteção continuamente desde 2010, por exemplo, teria perdido 70% do retorno acumulado da carteira.
"O choque energético é o mais perigoso porque o petróleo é o gatilho que mexe com tudo: inflação, juros e liquidez”
E o cenário negativo?
Se o regime iraniano continuar como está, repressivo e capaz de manter o Estreito de Ormuz fechado, o mercado financeiro global entra em estresse. Com quatro semanas de bloqueio, já vimos o preço do barril de petróleo atingir US$ 145 no mercado à vista. Com mais oito semanas, o preço iria para US$ 200. Isso poderia gerar quedas adicionais nos mercados, devido à redução de 50% no crescimento dos lucros por ação e à compressão dos múltiplos de valuation.
Dois meses, então, seria o prazo limite para a reabertura total do Estreito de Ormuz para evitar um colapso econômico mundial?
O cenário atual só pode ser sustentado por mais um ou dois meses usando reservas móveis e estratégicas, que já estão quase esgotadas. Passado esse limite, o mundo entraria em recessão com inflação alta, caracterizando uma estagflação global. Nos mercados financeiros, o front running acelera o colapso: investidores antecipam o pior e vendem antes, o que pode derrubar índices como o S&P em até 30% sem precisar esperar dois meses.
Quais outros efeitos para a economia global?
Todas as estimativas de lucros feitas no início do ano deixariam de valer, exigindo revisões para crescimento zero ou negativo em 2026, tanto na Europa quanto possivelmente nos EUA. Com lucros menores e múltiplos em contração, o impacto sobre os mercados seria severo. Assim, dois meses desse quadro já seriam suficientes para gerar pânico global e desencadear um colapso econômico.
O governo Trump tem sido polêmico, com tarifas, a invasão da Venezuela, ameaças a aliados europeus e, agora, uma guerra no Oriente Médio. Os países e os mercados aprenderam a lidar com esse risco que Trump representa?
O mercado não assimilou o risco associado ao novo perfil do Partido Republicano. A nova geração republicana - como Trump, o vice JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio - difere da tradicional e tende a gerar mais volatilidade e incerteza, aumentando o prêmio de risco. Plataformas de apostas já apontam um republicano como favorito para 2028, mas o mercado ainda não precificou esse risco.
Como avaliar esse risco político?
Um prêmio de risco maior significa mais pressão sobre o mercado. Embora não exista uma relação mecânica entre política e volatilidade, há episódios claros que mostram esse efeito. Em 2025, no anúncio da política tarifária de Trump, a política externa do governo americano gerou forte incerteza e fez o índice VIX [“índice do medo”, indicador que mede a volatilidade esperada do mercado de ações dos EUA para os 30 dias seguintes] saltar de 13 pontos para 30. O ponto que mais o preocupa não é o salto isolado, mas a frequência crescente com que o mercado precisa precificar cenários extremos.
Quais critérios devemos levar em conta para precificar esse “risco republicano”?
O mercado não entendeu que essa nova forma republicana de fazer política, em um mundo onde parece que já não existem regras — e quem segue as regras perde — cria um ambiente em que a Europa, por exemplo, perde competitividade por tentar ser politicamente correta e seguir normas. Estamos em um mundo sem normas, e num mundo sem normas é mais fácil ver eventos extremos com maior frequência.
Por enquanto, o mercado de ações e de títulos do Tesouro dos EUA não foi afetado de forma relevante pela guerra. Por quê?
Porque justamente não existe uma âncora de mercado. A alternância entre notícias negativas e mudanças abruptas de opinião gera ciclos de queda seguidos de fortes recuperações, caracterizando uma “era do contrapé” — um período em que o mercado frequentemente se move na direção oposta ao que os investidores esperam.
"Estamos na 'era do contrapé', período em que o mercado se move na direção oposta ao que os investidores esperam"
Como essa ‘era do contrapé’ se traduz em tempos de incerteza, como o atual?
O que estamos vivendo é um mercado de contrapé permanente. Eu tomo uma decisão hoje e, na manhã seguinte, ela já parece errada; faço o oposto e também dá errado. Ontem mesmo eu queria vender ativos de risco, porque imaginei que, nesta quarta [8 de abril, dia da entrevista], fim do prazo de Trump para o Irã recuar, todas as refinarias do Oriente Médio poderiam estar destruídas — e sabendo que uma refinaria leva de cinco a dez anos para ser reconstruída, isso seria devastador. Muita gente vendeu. Mas, à noite, tudo mudou e o mercado abriu subindo 4%. Quem vendeu foi pego no contrapé.
Essa volatilidade tende a mudar o comportamento do mercado?
Sim, na verdade o mercado aprendeu a não tomar decisões drásticas, nada de “vendo tudo e capitulo”. O que fazemos agora é reduzir risco aos poucos, acompanhando os vaivéns. Por isso as quedas têm sido graduais: o MSCI World caiu 9%, mas de forma linear, não em colapso. Ninguém quer correr o risco de errar em grande volume, porque um contrapé desses dói muito.
Em que sentido?
Imagine eu reduzir pela metade a exposição em ações dos meus clientes e, no dia seguinte, o mercado subir 5%. Eu estaria morto. Por isso seguimos com ajustes lentos e prudentes — e é isso que impede uma queda brusca, porque ninguém quer tomar decisões salomônicas num ambiente tão imprevisível.
O fato de o Brasil ter uma grande produção de petróleo ameniza os prejuízos causados pelo choque ou o impacto na inflação será o mesmo?
Sim, será o mesmo. Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil não consegue se isolar do preço internacional — nem os Estados Unidos conseguem. Para blindar o mercado interno, seria preciso proibir exportações, mas isso destruiria investimentos, reduziria oferta e prejudicaria empresas do setor, algo politicamente inviável. Por isso, o preço global sempre acaba chegando ao mercado doméstico.
Qual é a melhor política monetária para lidar com um choque do petróleo?
A política monetária diante de um choque do petróleo é ambígua porque, para ancorar as taxas longas — essenciais para o financiamento das empresas — o banco central precisa subir juros. Mas, ao fazer isso, eu destruo demanda, que já está sendo enfraquecida pelo próprio aumento do custo da energia. Ficar parado não resolve, porque as expectativas de inflação de longo prazo podem continuar subindo e, quando isso acontece, sou obrigado a agir. Por isso, mesmo com juros altos, muitas vezes é necessário elevá-los ainda mais para evitar que as taxas longas se descontrolem.
"A política monetária correta sempre é subir juros, mesmo que já estejam perto de 15%, como é o caso brasileiro"
Isso vale para o Brasil, com taxa de juros de 14,75% ao mês?
Diante de um choque energético, a política monetária correta sempre é subir juros, mesmo que já estejam perto de 15%, como é o caso brasileiro. Esse pode ser o nível necessário para ancorar as expectativas de inflação de longo prazo. Se eu não fizer isso, essas expectativas se desancoram e as taxas longas sobem ainda mais. A política monetária precisa se adaptar à realidade: não posso manter os mesmos juros de um mês atrás quando agora enfrento um choque energético que não existia antes.
Por que isso acontece?
Porque existe uma correlação entre choque energético e aumento das expectativas de inflação de longo prazo. Como investidor, quando percebo que o banco central pode não controlar esse processo, eu exijo juros maiores para me proteger. Se o banco central fica parado, eu interpreto isso como um sinal de fraqueza. Mas, quando ele age rápido e sobe juros, ele sinaliza ao mercado que não permitirá que a inflação se descontrole — e isso ajuda a manter as taxas longas sob controle. Se a situação continuar assim por mais dois meses, começaremos a ver aumentos de taxas em vários bancos centrais.
Qual o impacto do choque do petróleo para a China?
Muita gente acredita que a China está bem posicionada porque pode comprar petróleo da Rússia e não depende tanto do Oriente Médio. Mas isso não a isola do choque energético. Mesmo o petróleo russo ficará mais caro se o preço internacional subir, então a China continuará pagando caro pela energia. Além disso, seu modelo econômico é altamente baseado em competitividade de custos e muito intensivo em energia; quando a energia encarece, sua principal vantagem desaparece.
A China, nesse aspecto, será mais atingida que os EUA?
O preço final do que a China produz depende muito mais dos custos energéticos do que no caso da economia dos Estados Unidos, tornando o país mais sensível ao choque. Há ainda um terceiro ponto: a China é fortemente exportadora. Se o mundo entrar em crise, inclusive seus parceiros asiáticos, ela venderá menos e crescerá menos. Portanto, mesmo com acesso ao petróleo russo, a China não está protegida: pagará energia cara, verá seus custos subirem e enfrentará demanda global mais fraca. Ninguém está isolado dessa crise.