Uma série de levantamentos feitos pelo setor financeiro dos Estados Unidos nos últimos dias confirmou uma tendência que já havia sido detectada nos primeiros meses após a decretação do tarifaço de importação baixado em abril pelo presidente Donald Trump: a maior parte do custo das tarifas cobradas no ano passado recaiu sobre empresas e consumidores americanos, e não para os exportadores estrangeiros, como desejava a Casa Branca.
Um novo relatório do JP Morgan Chase Institute divulgado nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, mostrou que os pagamentos de tarifas por empresas americanas de médio porte triplicaram no último ano. Um estudo divulgado na semana passada pelo Federal Reserve de Nova York já havia chegado a uma conclusão parecida, ao constatar que 90% do custo das tarifas em 2025 recaiu sobre empresas e consumidores americanos.
Outros levantamentos, feitos no início do segundo semestre de 2025, concluíram que os importadores americanos estavam arcando com a maior parte dos custos do tarifaço, mas a expectativa na época era de que, à medida que novas encomendas fossem feitas, os exportadores estrangeiros passariam a dividir a conta.
O estudo do J.P. Morgan foi divulgado no mesmo dia que o Departamento do Comércio anunciou que as importações para os EUA atingiram um recorde em 2025, deixando o déficit comercial praticamente inalterado, apesar das elevadas tarifas impostas pelo governo Trump com o objetivo de reduzir as disparidades comerciais.
De modo geral, no ano passado, as tarifas pouco fizeram para dissuadir os americanos de importar — os bens e serviços comprados do exterior permaneceram praticamente inalterados em relação aos níveis observados durante o governo Biden.
A divulgação de levantamentos sobre a fatura das tarifas e do balanço do Departamento do Comércio ocorre às vésperas da Suprema Corte se pronunciar oficialmente sobre a legalidade do tarifaço de Trump, o que pode gerar uma repercussão política negativa para o governo, num momento em que a Casa Branca entra em campanha eleitoral, visando as eleições de meio de mandato deste ano.
O estudo do J.P. Morgan mostrou que as empresas de médio porte — que não têm o mesmo poder de influência que as grandes para ditar as regras e alterar as cadeias de suprimentos — continuaram comprando produtos estrangeiros em 2025, mesmo com o aumento dos pagamentos de tarifas para até 316% do nível pré-eleitoral.
“Essa é uma grande mudança no custo de fazer negócios internacionalmente”, disse Chi Mac, diretor executivo do J.P. Morgan Chase Institute e um dos autores do relatório.
A Casa Branca sempre insistiu que as empresas estrangeiras "absorverão" o custo das tarifas. E vem apontando como prova de que as preocupações com as repercussões internas são exageradas a divulgação de dados macroeconômicos recentes, indicando que, apesar das tarifas, a inflação não subiu nos últimos meses e o crescimento dos EUA acelerou.
Mas um número crescente de evidências — incluindo estudos do Instituto de Kiel, na Alemanha, e do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER) — sugere que elas estão causando um impacto significativo nos americanos, afetando empresas de todos os portes.
Pesquisas da Associação Nacional de Pequenas Empresas (NSBA) sugerem que até mesmo as pequenas empresas, que não estão tão diretamente expostas às importações, estão sentindo o impacto das tarifas. “Há uma falta de estabilidade, nenhuma previsibilidade, quando se trata de política econômica”, disse Molly Brogan, vice-presidente de assuntos públicos da NSBA. “Esses altos e baixos, essas oscilações, são comuns.”
Mais tarifas, menos votos
Ao anunciar o tarifaço, no ano passado, Trump disse que o objetivo era forçar a repatriação da produção industrial e reequilibrar um déficit comercial que ele considera injusto para os EUA.
Na prática, as medidas engordaram os cofres do governo federal, arrecadando US$ 30 bilhões em janeiro e US$ 124 bilhões no ano fiscal até o momento — mais de 300% a mais do que no mesmo período de 2025.
Para o governo Trump, o fato de os EUA terem importado uma quantidade recorde de itens em 2025 comprova que as tarifas não impactaram o mercado interno tanto quanto os relatórios sugerem.
Segundo o Departamento de Comércio, o déficit comercial do país — a diferença entre importações e exportações de bens e serviços — foi de US$ 901,5 bilhões no ano passado, ligeiramente menor que o déficit de US$ 903,5 bilhões registrado em 2024.
No geral, as importações no ano passado foram de US$ 4,334 trilhões, um aumento de cerca de 5% em relação ao recorde anterior de US$ 4,136 trilhões em 2024. As exportações foram de US$ 3,432 trilhões, um aumento de cerca de 6% em relação ao ano anterior.
Uma pesquisa separada, publicada esta semana pelo Conselho de Relações Exteriores e pela Morning Consult, porém, constatou que cerca de dois terços dos entrevistados acreditam que as taxas tornaram os itens do dia a dia menos acessíveis, agravando a crise do custo de vida que se tornou o maior problema eleitoral do presidente.
Os democratas têm buscado explorar as consequências das tarifas e capitalizar sobre o descontentamento entre os parlamentares republicanos. Na semana passada, a Câmara dos Representantes votou pela revogação das tarifas impostas por Trump ao Canadá e rejeitou uma moção que bloquearia medidas semelhantes no futuro, com vários republicanos rompendo com a disciplina partidária.
O temor de um impacto negativo caso a Suprema Corte decrete a ilegalidade das tarifas levou integrantes do governo a criticar os levantamentos recentes sobre o impacto do tarifaço na economia interna.
Kevin Hassett, conselheiro econômico de Trump, classificou o estudo de pesquisadores do Fed de Nova York – segundo o qual consumidores e empresas americanas arcaram com cerca de 90% do custo das tarifas no ano passado - como "uma vergonha" e disse que seus autores deveriam ser "disciplinados".
Analistas consideram o ataque de Hassett ao relatório do Fed de Nova York como uma forma de desviar a atenção para o que interessa. "Acho que as conclusões do estudo são consistentes com o que a análise econômica padrão sugere", disse Michael Strain, economista do conservador American Enterprise Institute. "Confio na pesquisa do Fed, na verdade, cheguei ao mesmo resultado."
Na verdade, o sinal de alerta soou na Casa Branca. De acordo com uma média de pesquisas do Real Clear Politics, a taxa de aprovação geral de Trump caiu de 50,5% quando ele assumiu o cargo para um mínimo de 42,1% esta semana.