O AkademikerPension, fundo de pensão da Dinamarca, anunciou na terça-feira, 20 de janeiro, que vai vender toda a sua posição em títulos do Tesouro dos EUA, cerca de US$ 100 milhões, até o fim do mês.

O movimento acontece em meio a escalada de tensões entre os EUA e a Dinamarca e põe luz sobre se o mercado financeiro pode ser um instrumento de pressão política.

A decisão veio com uma justificativa financeira: o fundo diz estar preocupado com a trajetória das contas públicas americanas. Anders Schelde, diretor de investimentos, afirmou que o motivo principal é a avaliação sobre a sustentabilidade fiscal dos EUA, e não um gesto político.

Ainda assim, ele reconheceu que o ambiente geopolítico entre EUA e Europa, em especial o atrito em torno da Groenlândia, “tornou a decisão mais fácil”.

Schelde citou principalmente o aumento da conta da dívida enfrentada pelos Estados Unidos, após décadas de gastos excessivos do governo. Os EUA registraram um déficit orçamentário de US$ 1,78 trilhão no ano passado, queda de pouco mais de 2% em relação ao ano fiscal de 2024, à medida que as tarifas amplas e elevadas de Trump entraram em vigor.

O AkademikerPension administra 164 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 25,7 bilhões) e diz que usava Treasuries como parte da estratégia de liquidez e gestão de risco. Agora, busca alternativas para cumprir esse papel sem carregar o risco que passou a enxergar no Tesouro americano.

O temor fiscal é compartilhado pela Moody’s Ratings, que rebaixou a classificação de crédito soberano dos Estados Unidos de Aaa para Aa1 em maio, citando o déficit orçamentário e os altos custos de endividamento associados à rolagem da dívida em níveis elevados de juros.

Mas também é verdade que líderes europeus teriam considerado nas últimas semanas, como resposta, o uso de tarifas retaliatórias e outras medidas econômicas punitivas. Alguns investidores passaram a temer que países europeus pudessem se desfazer de suas posições em ativos dos Estados Unidos em reação às novas tarifas de Trump.

De forma que o estoque de capital europeu aplicado nos EUA poderia virar um ponto de pressão em uma escalada entre os aliados históricos. E o mercado financeiro passou a ponderar como um risco adicional o quanto a política pode entrar no preço dos ativos.

O que a Europa tem nos EUA

Dados citados pela Bloomberg mostram que os ativos dos EUA mantidos na União Europeia superam US$ 10 trilhões, com posições relevantes também no Reino Unido e na Noruega.

Em caso de deterioração mais forte da relação transatlântica, haveria espaço para uma reação que extrapole tarifas e atinja diretamente o mercado de capitais americano, com venda de Treasuries e/ou ações para pressionar juros, dólar e condições financeiras nos EUA.

No entanto, esse montante poderoso não está nas mãos de agentes públicos. A maior parte desses ativos está em mãos privadas, fora do controle direto de governos.

E mesmo quando há braços públicos (fundos soberanos e entidades estatais), qualquer deslocamento em bloco esbarra em mandato, governança e, principalmente, no custo para o próprio investidor europeu, já que uma venda em escala provavelmente reduziria preços e pioraria a marcação a mercado de quem ainda detém esses papéis.

Mas o caso do fundo de pensão da Dinamarca mostra que alguma pressão pode acontecer. Apesar de US$ 100 milhões serem muito pouco para ter impacto sozinho, alimenta uma discussão sobre apetite estrangeiro para financiar o déficit americano.

Na visão de alguns agentes do mercado financeiro, a posição internacional líquida dos EUA é um fator de risco para o dólar “somente se” estrangeiros aceitarem sofrer financeiramente ao reduzir posições.

E mesmo que investidores do setor público europeu deixem de acumular ativos dos EUA ou comecem a vender, “a situação provavelmente precisa se agravar” antes que eles aceitem piorar o desempenho de portfólio por objetivos políticos.

Mas outros ponderam que a dependência dos EUA de financiamento externo seria uma vulnerabilidade em um cenário de ruptura da estabilidade geoeconômica da aliança ocidental.

“Histeria” e aposta na descompressão

Do lado americano, a reação é tentar desarmar o tema. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, o secretário do Tesouro Scott Bessent afirmou que a conversa sobre uma guerra comercial prolongada com a Europa é precipitada e classificou parte da reação pública como “histeria”.

Bessent também minimizou a chance de a Europa usar instrumentos mais duros — incluindo a venda de Treasuries — e tratou o assunto como algo que tende a se resolver com negociação e “grupos de trabalho”, na lógica de funcionamento do bloco europeu.

Ainda assim, o noticiário aponta que a União Europeia discute retaliações tarifárias: a Reuters reportou que líderes europeus consideram tarifas sobre € 93 bilhões (US$ 108 bilhões) em produtos americanos, que podem entrar em vigor em 6 de fevereiro, após um período de suspensão.