Miami - Com o início da terceira semana do conflito entre Estados Unidos e Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz e os cálculos sobre a pressão sobre os preços do petróleo e do gás natural, o relógio parece jogar a favor de apenas um lado.

“O mundo está contra o relógio. Se [o conflito] entrar em abril, é outro jogo”, diz o economista Paulo Leme, chairman do comitê global de alocação da XP Private Banking.

Para Leme, o mercado não pode subestimar a variável "tempo". O que hoje é visto como um pico passageiro pode se tornar uma dor de cabeça estrutural.

“O que seria um spike transitório no petróleo, passa a ser algo que vai incomodar e pode afetar, globalmente, inflação, PIB. E todas as asset classes terão de ser reprecificadas”, complementou ele, durante a primeira edição do XP Global Conference.

O centro da preocupação de Leme é, justamente, o aspecto geográfico do Estreito de Ormuz, por onde passam 20 milhões de barris de petróleo por dia. Na visão do economista, não há infraestrutura no mundo capaz de repor esse volume se o bloqueio persistir.

“Você não consegue repor os 20 milhões”, disse, explicando que o prolongamento da crise força o fechamento de poços antigos que podem nunca mais ser reativados.

O tabuleiro político também é assimétrico, principalmente pelo lado americano. Enquanto Donald Trump corre contra o relógio das eleições e da sua popularidade - que Leme descreve como "marcada a mercado" pelos preços da gasolina -, a liderança iraniana joga um jogo de exaustão, ganhando tempo nas "cavernas" enquanto a economia ocidental sangra.

Gestão em conflito

Paulo Leme XP
Paulo Leme, da XP Private Banking

Leme desenhou o que chama de "cenário vermelho". Para ele, a massa de probabilidades de uma crise prolongada está se deslocando perigosamente para a direita da curva.

Nesse contexto, a gestão ativa deixa de ser uma busca por ganhos extras e passa a ser uma ferramenta de sobrevivência. Ou seja, para cada alfa positivo, haverá um tracking error em momentos de alta volatilidade.

Se o cenário de estagflação ou recessão se confirmar, as diretrizes de Leme para os alocadores são de redução de beta, com um menor risco sistêmico da carteira.

O aumento das probabilidades de default deve abrir os spreads, exigindo cautela também em renda fixa privada. “Não se afogue no micromanagement", disse ele, para uma audiência de gestores e assessores de investimentos.

Para os gestores, Leme falou de sua própria experiência e sugeriu que não se pode cair na tendência de "inventar" estratégias mirabolantes sob estresse.

O segredo é manter a cabeça fria e evitar o erro comportamental de girar o patrimônio freneticamente em busca de um market timing quase impossível de acertar seis vezes por ano - ainda mais em um cenário incerto de conflito, onde a cada semana um tipo de classe se destaca como a bola da vez.

“O cliente brasileiro é muito sensível à cota do dia, à marcação a mercado do mês”, disse Leme. Para atravessar o vendaval que pode vir de Ormuz, ele acredita que a única “passagem estreita” seja a diversificação do portfólio.