O nome Axia ainda soa estranho para a maioria dos brasileiros. Ocorre que ele se refere à maior empresa de energia renovável do Hemisfério Sul, com 44,4 GW de capacidade instalada - o equivalente a mais de 20% da capacidade de geração total do Brasil.

Com um portfólio de 81 usinas 100% renováveis, sendo 47 hidrelétricas, 33 eólicas e uma solar, espalhadas por 20 estados e o Distrito Federal, a Axia também administra mais de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão. Toda vez que um brasileiro acende um interruptor de luz, a energia provavelmente foi gerada ou passou pelos linhões da companhia.

Essa contradição entre o nome desconhecido e seu peso no setor elétrico brasileiro reflete o maior desafio de Ivan Monteiro, CEO da Axia Energia - empresa que nasceu há mais de 60 anos como Eletrobras, foi privatizada em 2022 e no final do ano passado mudou de nome, num movimento de reposicionamento de marca que coincidiu com o fim do longo processo de transição de empresa estatal para privada.

Monteiro, com histórico profissional no setor público – passou 32 anos no Banco do Brasil e outros 4 na Petrobras, onde chegou a ocupar a presidência por um breve período –, está engajado em colocar em prática a grande prioridade da Axia Energia.

“A estratégia nova aqui é que a gente ama o cliente”, diz Monteiro, com bom humor, nesta entrevista ao NeoFeed, ao resumir as mudanças de processos e de cultura interna que vem conduzindo à frente da empresa.

“A Eletrobras, como gestora estatal de infraestrutura de energia, não tinha essa característica de ser uma empresa voltada para o cliente”, complementa.

Monteiro afirma que o novo foco está alinhado com a abertura do mercado de energia, que segundo ele vai empoderar o consumidor. Os investimentos previstos para 2026, de R$ 14 bilhões – 2,5 vezes maiores do que em 2022, último ano da empresa como estatal –, refletem essa tendência.

A Axia vai usá-lo na modernização de equipamentos e aposta nos leilões de capacidade, de armazenamento de baterias e de linhas de transmissão para ampliar sua participação no mercado. Outro nicho, como o boom de data centers de IA, é visto com cautela.

“Estamos analisando novas demandas, o que não pode é ‘desligar’ uma cidade no interior do Ceará para instalar um data center no Sudeste”, diz ele.

Monteiro aproveitou sua experiência no setor público – saiu da Petrobras em 2019, ainda sob efeito da Lava Jato, o que lhe rendeu 44 processos e um burnout – para conduzir a transição da Eletrobras para Axia. Antes de assumir, passou por empresas privadas, a última delas o Credit Suisse, onde atuou como head of Investment Banking and Capital Markets e chairman.

Nesses três anos e meio, a Axia enxugou em 27% o número de funcionários, com queda de 18% de custos operacionais e redução de R$ 14 bilhões do passivo de compulsórios, que fechou em R$ 11,72 bilhões no terceiro trimestre de 2025 (último balanço disponível).

Outra perna importante se deu na revisão de portfólio, para deixá-lo com ativos 100% renováveis. O processo incluiu a venda das termelétricas a gás da Eletrobras para a Âmbar, o braço de energia do Grupo J&F, por R$ 3,6 bilhões.

A antiga estatal ainda vendeu para a J&F a sua participação na Eletronuclear, a empresa do governo voltada para a energia nuclear, por cerca de R$ 535 milhões, gerando uma perda contábil de R$ 7 bilhões – o que foi considerado um grande negócio para a empresa.

Isso porque se livrou do compromisso de investimento para a conclusão da Usina Angra 3, avaliado em R$ 20 bilhões, sem contar o fato de que a Axia teria participação minoritária na Eletronuclear, sem poder interferir na gestão. Como parte do acordo, o número de cadeiras do governo federal no Conselho de Administração da Axia aumentou de um para três. O governo ainda detém 41,4% das ações da empresa de energia.

“A Axia é uma empresa que só agora está se dedicando ao negócio em si, ao investimento e aos clientes, colocando foco naquilo que podemos controlar”, afirma Monteiro, ressaltando que seu trabalho na Axia é de longuíssimo prazo. “Foi essa premissa que me fez aceitar o convite para vir para cá.”

Por enquanto, sua gestão está dando resultados. O valor de mercado da empresa saltou de R$ 87,5 bilhões na época da privatização para R$ 147,5 bilhões em janeiro.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista do CEO da Axia:

A empresa entra no quarto ano pós-privatização da Eletrobras. O processo de transição de estatal para empresa privada pode ser considerado encerrado?
É difícil afirmar isso, nunca estamos satisfeitos. No início fizemos um processo clássico de turnaround. A Eletrobras era uma holding com quatro empresas subsidiárias que eram completamente autônomas, com padrões e processos completamente diferentes, em todas as vertentes. A empresa não fazia uma gestão adequada na relação com os fornecedores, não era voltada para o cliente, não tinha relação comercial sadia com o mercado nem em relação à virada da sua energia para renováveis. Todos os processos tinham deficiências relevantes. Aquelas medidas iniciais, criar plano de demissão voluntária, revisão de portfólio e de custos, etc., já foram feitas. Mas no fundo se trata de um processo que não acaba nunca.

O que impede a completa virada de chave?
No dia da privatização, por exemplo, todo mundo fica feliz, comemora, vai na Bolsa e aperta o sino. Mas no dia seguinte preciso administrar algo que as pessoas esquecem: a herança de contratos legados da antiga estatal, entre eles o acordo coletivo de trabalho. Temos de respeitar os contratos. Isso também se aplica, por exemplo, a várias outras áreas.

Quais?
Ainda temos um passivo relevante, que é o empréstimo compulsório, mas que está caindo. O que fizemos: elegemos um conjunto de prioridades e fomos entregando cada uma delas. No meio do caminho, porém, surgiu uma megaprioridade, que foi a ação do governo federal junto ao Supremo Tribunal Federal, questionando a cláusula de divisão societária. Felizmente foi homologado um acordo, no final do ano passado. Ou seja, a Axia é uma empresa que só agora está se dedicando ao negócio em si, colocando foco naquilo que podemos controlar.

“Só agora a Axia está se dedicando ao negócio em si, colocando foco naquilo que podemos controlar”

A Axia acaba de anunciar que vai investir R$ 14 bilhões em 2026 — valor quase três vezes maior do que em 2022, seu último ano como estatal. Quais são as prioridades para este ano?
O orçamento de 2026 foi construído com uma lógica empresarial, de crescimento absurdo do investimento, que foi dividido em duas vertentes: uma orgânica, que é investir na modernização dos nossos ativos, e uma vertente inorgânica, que é participar dos leilões. Em relação aos ativos, a Axia tem hoje 90 mil equipamentos funcionando no País inteiro, na chuva, no sol, no vento, no calor ou frio intenso.

Os equipamentos estão defasados?
Quando assumimos, os riscos desses equipamentos não tinham sido mapeados pela ausência de capacidade da empresa de investir, porque o orçamento da estatal era submetido ao orçamento geral da União, que sofre várias restrições. A modernização de equipamentos é fundamental, porque não queremos jamais nos colocar na condição de causadores de falta de energia.

Usina Hidrelétrica de Tucuruí (PA), sob gestão da Axia

Usina de Belo Monte (PA) faz parte do portfolio

Usina de Jirau (RO), outra hidrelétrica da Axia

 

Como está esse processo?
Temos uma matriz de criticidade de riscos para decidir como agir. A segurança é prioridade na Axia. E quando você define a segurança como prioridade, tudo embaixo fica mais fácil, pois segurança conversa com disponibilidade e confiabilidade. Este é um negócio em que não podemos errar, se isso ocorrer imediatamente vai faltar luz em algum lugar. Há também por trás um conceito mais amplo, o da mudança de estratégia da empresa.

E qual é a essa estratégia?
A estratégia nova aqui é que a gente ama o cliente. Nosso foco maior é atendê-lo. A Eletrobras não tinha essa característica de ser uma empresa voltada para o cliente.

Como se faz para uma empresa de 60 anos, como a Eletrobras, que fazia gestão de infraestrutura, se tornar uma empresa voltada para o cliente, como a Axia?
Isso implica criar uma área comercial, com um escritório grande em São Paulo, que mapeia as oportunidades. O mercado de energia vai mudar radicalmente. Se houver, do ponto de vista macroeconômico, uma tendência de redução da taxa de juros, a resposta do mercado será de um crescimento saudável do investimento, o que implica crescimento de demanda.

O que vem pela frente?
Precisamos preparar a empresa para responder ao comportamento dos consumidores, que serão empoderados. Temos um desafio de correr com a modernização e preparar a companhia nos seus mais diferentes aspectos para poder atender à demanda de clientes - que tipo de informação ou que tipo de comportamento posso ter para atendê-los cada vez melhor. Isso é muito relevante, porque aí é uma demanda que vem de fora para dentro.

“Precisamos preparar a empresa para responder ao comportamento dos consumidores, que serão empoderados”

O Mercado Livre de Energia vai abrir totalmente em dois anos, atingindo o consumidor comum. A Axia planeja entrar no mercado de varejo de energia?
Há duas formas de atuar no mercado de energia. Até bem pouco tempo atrás, vendíamos só a nossa energia, aquela produzida por nós. Agora, estamos começando também a comprar energia de terceiros e a vender energia de terceiros. Isso é muito interessante, porque passamos a ter uma capacidade de atuação no mercado muito maior. Somos uma empresa voltada para conversar com clientes grandes, ela foi desenhada para isso. Mas já estamos conversando com clientes médios. Estamos prontos para atender o varejo? Claro que não, nunca fizemos isso e só vamos fazê-lo quando estivermos prontos. Sou cliente há décadas da Light e nunca recebi um telefonema agradecendo pela minha fidelidade. É disso que se trata, mas estamos nos preparando.

Falta muito?
Isso é possível. Vou dar o exemplo do Nubank, que não tem agência e atende 110 milhões de clientes. Então, a pergunta é: preciso eu ser a pessoa que vai bater na sua porta? Não, se tiver um app, alguma coisa que você se sinta confortável por conta do meu nome e da minha história, normalmente vai confiar e comprar energia de mim.

Que tipo de leilão a Axia vai participar?
Pretendemos ser a empresa mais ativa em todos os tipos de leilões – de capacidade, de baterias de armazenamento e de linhas de transmissão. Há muito tempo não ocorre um leilão de capacidade e o de armazenamento de baterias é inédito. Estamos mobilizando uma multidão aqui, até contratando pessoas, para estudar esses certames.

O que justifica esse apetite da Axia por leilões?
O leilão atende aos retornos que consideramos adequados para justificar para o nosso acionista que, ao invés de pagar mais dividendo ou recomprar as nossas ações, que faça o investimento naquele projeto. E esses são projetos que consideramos muito rentáveis.

A Axia preparou estudos para atuar como fornecedor de infraestrutura e de energia para um grande projeto de data center de IA, o Rio AI City. Esse segmento representa uma janela de oportunidade para a Axia?
Nossa maior contribuição para o cliente, no caso de projetos de data center, é de inteligência, e não apenas provedor de energia. Podemos ajudá-lo onde instalar o data center, que tipo de acesso é necessário, se existe infraestrutura para isso. É preciso saber quem faz o investimento na infraestrutura, algo que exige consulta ao regulador, que é o provedor das licenças. Quando essa equação fecha, discutimos internamente a rentabilidade desse projeto específico. O que não pode é ‘desligar’ uma cidade no interior do Ceará para instalar um data center no Sudeste.

“Nossa maior contribuição para projetos de data center é de inteligência, onde instalar, e não apenas como provedor de energia”

Mas os data centers não são um mercado promissor para a Axia?
Estamos atuando ativamente, conversando e olhando essas demandas novas. Mas não existe essa história de que serão construídos dezenas de data centers de IA. Para acessar o grid hoje na Alemanha são oito anos, na Inglaterra são sete anos. Por isso vemos todo dia no exterior um acordo para ressuscitar usinas nucleares, fazer isso, fazer aquilo. Porque não tem essa energia, não está disponível.

Há ampla oferta de energia no Brasil, mas não temos uma infraestrutura que consegue acompanhar o crescimento dessa demanda de datacenters de IA. Como resolver isso?
Vou responder sua pergunta fazendo um paralelo entre Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades do País. Qual a forma de ligação entre elas? Uma rodovia com duas pistas indo e duas voltando. Só após a privatização da Via Dutra estão duplicando. A mesma lógica deve ser aplicada ao setor elétrico. Só agora a principal provedora de infraestrutura é privada - antes, era estatal. Como estatal, ela investia R$ 2,5 bilhões por ano no conceito de desembolso. Mas vamos fazer R$ 14 bilhões neste ano e provavelmente nos próximos. Ou seja, seria ótimo instalar milhares de data centers, mas não vamos fazer isso se no dia seguinte o morador da Baixa Fluminense não tiver luz.

Dá para fazer os dois, investir na infraestrutura e construir data centers?
Dá, com muito estudo e com muito investimento. Mas uma linha de transmissão leva três anos para ficar pronta e uma hidrelétrica nova, oito. De novo: não quero atender nenhum data center se isso for em detrimento da qualidade do serviço que presto para a distribuidora de energia. Porque milhões de clientes dependem do serviço da Enel ou da Light. Então, tenho que ter absoluta certeza de que estou fazendo o melhor trabalho possível em relação a essa distribuidora. Precisamos ter os pés no chão.

Esse gargalo do sistema elétrico lembra a situação do curtailment. Como atenuar esse problema?
Somos totalmente contrários aos subsídios que não têm prazo para acabar. Lá no início era válido para estimular as fontes renováveis, mas atualmente não tem a menor justificativa. O curtailment, a rigor, é uma gestão realizada com muita responsabilidade pelo órgão regulador em defesa do sistema elétrico. A oferta de energia que existia no Brasil era baseada na hidrelétricas, mas mudou para as renováveis. A partir do momento em que você aumenta a solar e a eólica, isso traz desafios operacionais relevantes que fazem com que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), que é único no Brasil e muito competente, reaja com a figura do curtailment. Participamos de todas as audiências públicas da Aneel para ajudar numa solução para os problemas do sistema elétrico.

A Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro determinou que a Axia provisione R$ 750 milhões para garantir o eventual pagamento no futuro de PLR (Participação nos Lucros ou Resultados) a trabalhadores e ex-funcionários da Eletrobras sobre uma reserva de R$ 30 bilhões acumulados ao longo de oito anos. Cerca de 30 sindicatos protocolarem duas ações coletivas para cobrar a participação dos trabalhadores sobre esse montante. A Axia contesta essa reivindicação?
Não há correlação entre o não enquadramento de decisão judicial como matéria de fato relevante, nos termos do que dispõe a Resolução CVM nº 44, que disciplina o dever de informação ao mercado, e a alegação constante em impugnação judicial que visa à reversão de provimento cautelar que aponte os danos causados à empresa em razão de sua manutenção, pois nem toda decisão judicial que lhe possa causar danos tem o condão de afetar a apreciação do mercado acionário sobre a companhia. Na verdade, os peticionantes estão, de maneira deliberada, tentando induzir a erro autoridades judiciárias e administrativas, o que será demonstrado nos foros adequados pela Axia.