Miami - Se houvesse uma bússola para guiar o capital global em 2026, ela estaria apontando para direções conflitantes: há um novo mapa-múndi em formação.

Com a instabilidade geopolítica presente nas decisões de investimentos desde o ano passado com o tarifaço de Donald Trump, a nova moeda global se chama segurança.

A parte da manhã da primeira edição da XP Global Conference fora do Brasil trouxe a visão macroeconômica, em que o risco imediato é a reprecificação de ativos diante de um choque energético e o desafio é aceitar que a era da eficiência máxima deu lugar à resiliência soberana.

Para os alocadores de capital, o desafio é construir uma boa - e diversificada - carteira de ativos para sair vivo do outro lado, sem inventar no meio do estresse.

Os economistas Paulo Leme, chairman do comitê global de alocação da XP Private Banking; Thomas Mucha, estrategista geopolítico da Wellington Asset Management; e Thiago Ferreira, da Vanguard, dividiram algumas ideias sobre os tempos nebulosos.

Os juros e a guerra

Em semana de reunião do Federal Reserve (Fed), ainda sob o comando de Jerome Powell, a decisão do comitê de política monetária americano está em um campo minado pela volatilidade geopolítica.

Para Paulo Leme, economista e chairman do comitê global de alocação da XP Private Banking, são dois pontos a serem observados:

Estagflação no radar: Se a crise no Estreito de Ormuz durar mais de 30 dias, a inflação de custos pode forçar o Fed a interromper o ciclo de queda de juros.

Dilema do repasse: Com o choque na energia (petróleo e gás), os bancos centrais de todo o mundo precisam escolher entre combater a inflação persistente ou evitar uma recessão profunda.

O "Indicador McDonald's"

Em meio à volatilidade dos ativos, Leme destacou a instabilidade e a rapidez com que a "estrela" da carteira muda no cenário atual. E com um sinal de alerta: "Quando o McDonald's é a estrela, o cenário fica realmente muito preocupante", brincou ele.

O economista observou que o mercado tem mudado de direção em questões de dias: uma semana é software, na seguinte são chips, depois cíclicos ou consumo estável.

Isso significa que quem tenta perseguir a performance do dia, vendendo tecnologia para comprar bancos ou McDonald's apenas porque eles subiram no mês, faz o perigoso movimento de "entra e sai" de posições.

O nó estratégico do Ocidente

Thomas Mucha, estrategista geopolítico da Wellington Asset Management, que detém mais de US$ 1,3 trilhão sob gestão, afirmou que a América Latina está saindo da periferia para o centro do tabuleiro devido à necessidade dos EUA de reduzirem a dependência da China.

O Brasil e outros países da região são vistos como "nós centrais" para o fornecimento de minerais essenciais. E, para Mucha, o apoio americano virá com um pedido claro: "Por favor, reduzam suas dependências em relação à China".

Fim da "eficiência econômica"

Para Mucha, o mundo encerrou um ciclo de estabilidade de 80 anos e entrou em uma transição perigosa. A grande mudança de paradigma é que os governos não buscam mais o menor custo, mas a maior proteção.

"O que detecto nos formuladores de políticas hoje é um afastamento da integração. Há um foco muito maior na segurança nacional em detrimento da eficiência econômica", disse ele.

O número de conflitos ativos no mundo dobrou nos últimos cinco anos, saltando para 65, segundo cálculo da Wellington.

"Fratura" global

O estrategista geopolítico da Wellington rejeita o termo "Guerra Fria" para a disputa entre EUA e China porque, ao contrário da União Soviética, as economias hoje são integradas.

O que vemos é uma "fratura" cirúrgica em setores estratégicos. A disputa agora se concentra em oito a dez setores vitais, incluindo semicondutores, minerais críticos, robótica e aeroespacial.

De acordo com Mucha, embora o dólar não vá perder o posto de reserva imediata, a China já prepara o terreno com swaps cambiais para diversificar o cenário global.

Raio-X de 800 profissões

Para entender o impacto da inteligência artificial no emprego, a Vanguard analisou 800 profissões e cada tarefa individual dentro delas.

Embora o CEO da Anthropic, Dario Amodei, tenha traçado um cenário pessimista para os empregos, o cenário base da segunda maior provedora de ETFs do mundo, com mais de US$ 9,3 trilhões sob administração, é diferente.

O economista sênior Thiago Ferreira diz que esse cenário “não é de demissões em massa imediatas, mas de um ganho de produtividade saudável de 2%”.

A gestora acredita que "leva tempo" para a tecnologia eliminar completamente um emprego, pois a realocação de tarefas humanas ainda é necessária para "contar a história" por trás dos dados.

Não é bolha, é história

A Vanguard também não vê a IA como um evento isolado, mas como o quarto grande ciclo de infraestrutura dos últimos 200 anos.

Nos cálculos da gestora, o investimento atual em IA segue o mesmo padrão da expansão ferroviária (1840), da manufatura pós-Segunda Guerra e da era das Telecom.

"Uma economia baseada em IA não se transforma necessariamente em um mercado financeiro de sucesso imediato. O excepcionalismo americano pode diminuir mesmo com os EUA liderando a revolução tecnológica", afirma Ferreira.

Para este ano, a gestora projeta um crescimento de 17% no capex tecnológico. Se o ciclo se comportar como o das Telecom, o PIB dos EUA pode surpreender com um crescimento de 3%.