A crescente desvalorização do dólar, que esta semana atingiu a mínima em quatro anos, está levando investidores a buscarem refúgio em países com moeda estável. Com isso, a Suíça se tornou o destino preferido do mercado cambial global.

O franco suíço, moeda oficial do país alpino, registrou na quarta-feira, 28 de janeiro, a sua maior valorização em relação ao dólar da última década, acumulando alta superior a 3% apenas neste ano.

Declarações polêmicas do presidente americano Donald Trump - que na véspera, ao ser questionado se achava que a moeda americana havia caído demais, afirmou que o valor do dólar era "ótimo" - estimularam a corrida para o franco suíço, que se transformou no “último porto seguro” para os investidores depois que o iene, outro ativo utilizado como refúgio em momentos complexos do mercado, tem apresentado forte volatilidade diante da contínua liquidação de títulos públicos japoneses.

O momento positivo – mas nem tanto – segue um avanço de cerca de 13% da moeda suíça ao longo de 2025, o que preocupa o Banco Nacional da Suíça (SNB), o banco central do país alpino, cuja inflação anual é de apenas 0,1%.

“O franco suíço parece um pouco com uma pepita de ouro”, disse Daniel Kalt, diretor de investimentos para a Suíça no UBS Global Wealth Management, ao jornal britânico Financial Times. “Ele não rende nada. Mas há uma economia extremamente sólida por trás.”

Segundo Kalt, o mercado precisa observar a relação entre o franco e o euro, já que grande parcela do comércio suíço ocorre com os países do bloco. Caso o euro fique abaixo de 0,9 franco suíço– ante os atuais 0,918 –, os exportadores podem ser colocados sob forte pressão, o que dificultaria ainda mais a vida do BC suíço.

Nessa situação, uma das opções da autoridade monetária seria cortar os juros, atualmente em zero, para reduzir a atratividade da moeda. Com o avanço dos últimos dias, o mercado começou a precificar cerca de 10% de chance de um corte de 0,25 ponto percentual em sua reunião de junho.

Na visão dos economistas, porém, um pequeno corte teria pouco efeito na missão de reduzir a diferença da moeda suíça para a zona do euro, além de oferecer um estímulo indesejado à economia.

O banco central suíço já havia afirmado anteriormente que não deseja retomar sua política de juros negativos, mantida por oito anos no país alpino.

Outra alternativa, que envolveria uma intervenção direta no mercado de câmbio, também pode ser problemática. Praticada durante o primeiro mandato de Trump, a movimentação fez a Suíça ser acusada de “manipulação cambial” por uma lista americana.

Essa opção também iria contra um acordo feito pelos dois países no ano passado, após o SNB realizar uma intervenção mínima no segundo trimestre, em meio à volatilidade provocada pela guerra comercial. Na época, Estados Unidos e Suíça emitiram uma declaração conjunta afirmando que não interviriam em moedas para obter vantagem competitiva.

Criar uma desavença com os Estados Unidos também não é uma boa opção, já que, após meses batalhando, a Suíça conseguiu reduzir as taxas de importação impostas por Trump de 39% para 15%.

Na semana passada, Trump deixou claro que pode ser bastante “mimado” com suas taxas ao dizer, em seu discurso em Davos, que as tarifas contra a Suíça foram aumentadas para 39% porque a então presidente suíça, Karin Keller-Sutter, apenas não o agradou.

Euro na mira

Na União Europeia, a situação não se mostra muito diferente. Na terça-feira, 27, a moeda da zona do euro atingiu o maior nível em quatro anos em relação ao dólar, cotado acima de US$ 1,19, despertando alertas semelhantes sobre o potencial de pressionar a inflação.

“Esses movimentos representam um aperto significativo das condições financeiras na zona do euro, e o BCE vai querer se posicionar contra isso”, afirmou Tomasz Wieladek, estrategista-chefe de macroeconomia europeia da gestora T Rowe Price.

A recente desvalorização do dólar decorre de múltiplos fatores: expectativas de cortes contínuos nas taxas de juros pelo Federal Reserve, incerteza quanto às tarifas alfandegárias , volatilidade das políticas, incluindo ameaças à independência do Fed, e déficits fiscais crescentes, fatores que corroeram a confiança dos investidores na estabilidade econômica dos EUA.

Um dólar mais fraco até pode beneficiar os exportadores americanos, embora Trump tenha dito que não buscava uma queda ainda maior em seu valor.

"Eu gostaria que... simplesmente encontrasse seu próprio equilíbrio", disse ele na terça, 27, após afirmar que o dólar “está indo muito bem". As perdas no índice do dólar, que mede sua força em relação a uma cesta de seis moedas principais, se aceleraram após os comentários de Trump, atingindo uma mínima de 95,566 e o menor nível desde fevereiro de 2022.