A crise do mercado internacional de petróleo em razão do conflito no Oriente Médio seguiu intensa na quarta-feira, 4 de março: os preços do barril ainda operavam em alta, o que colocou produtores americanos do petróleo de xisto em uma controvérsia envolvendo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) - uma organização intergovernamental que atua como uma das principais referências globais em segurança energética.
Após uma reunião de emergência, realizada na véspera, a IEA divulgou um documento afirmando que o xisto americano seria a fonte "mais significativa" de produção no curto prazo para compensar qualquer déficit, principalmente de poços perfurados recentemente que ainda não haviam começado a produzir.
Esses poços poderiam adicionar “mais 400 mil barris por dia” no segundo semestre do ano, segundo IEA, com 240 mil barris por dia já em maio.
A perfuração e produção de petróleo de xisto (shale oil, em inglês) nos EUA passaram a ser competitivas a partir do final dos anos 2000, quando a combinação de fraturamento hidráulico e perfuração horizontal reduziu drasticamente os custos de extração. Esse período marca o início do chamado shale boom nos Estados Unidos, que transformou o país no maior produtor mundial de petróleo.
A sugestão da IEA, porém, caiu como uma bomba no setor de xisto. Produtores alegam que um grande aumento na perfuração e extração levaria meses para se concretizar e, além dos custos elevados, a venda do petróleo ocorreria quando o preço do barril provavelmente já estará de volta aos padrões anteriores à crise atual no Oriente Médio.
“É muito cedo para as pessoas tomarem a iniciativa de investir”, disse Kirk Edwards, presidente da Latigo Petroleum, uma produtora independente com sede na Bacia Permiana do Texas. “O que os produtores da Bacia Permiana precisam, na minha opinião, é de um preço estável de US$ 75 nos próximos 12 meses.”
Edwards repetiu o argumento de boa parte dos produtores de xisto: o aumento de preços atual só se explica por causa de um fator atípico, como a guerra no Oriente Médio. “Se tivermos preços do petróleo um pouco altos por um tempo, assim que isso terminar, esses preços vão cair, acredito que para valores ainda menores do que antes”.
Scott Sheffield, um veterano do setor de xisto, também criticou a proposta da IEA. Segundo ele, a falta de boas perspectivas de perfuração também prejudicaria as empresas, que cortaram gastos, paralisaram plataformas e demitiram trabalhadores nos últimos 12 meses durante um período de preços baixos do petróleo.
Por isso, neste momento, Sheffield indicou que o setor de xisto prefere aproveitar a alta do barril para criar um colchão para as empresas de petróleo. “Isso simplesmente lhes dará fluxo de caixa extra, elas podem reduzir dívidas, recomprar ações e pagar dividendos”, disse, sobre a alta dos preços desta semana.
Outros fatores também reforçam os argumentos dos produtores americanos. Volumes a serem agregados no curto prazo pelo petróleo de xisto, conforme sugestão da IEA, são pequenos em comparação com os 20 milhões de barris por dia exportados do Golfo.
A previsão mais recente da própria Administração de Informação de Energia do governo dos EUA é que a produção americana, atualmente em um recorde de cerca de 13,6 milhões de barris por dia, cairá este ano.
Além disso, a diferença de custo de exploração entre os países do Golfo – como Arábia Saudita, Kuwait, Emirados, Qatar – e do petróleo de xisto dos EUA é relevante. Enquanto no Oriente Médio o custo médio para novos projetos oscila entre US$ 20 e US$ 30 por barril, o shale oil americano tem breakeven médio de US$ 45 a US$ 48 por barril para novos projetos onshore.
Ou seja, muitas empresas de perfuração americanas precisam de preços muito mais altos para obter lucro. Por isso, o petróleo de xisto americano funciona como “amortecedor de mercado”: cresce quando o preço sobe e desacelera quando cai.
Gargalo
O mercado internacional de petróleo continua sob tensão por causa do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam entre 20% e 30% da produção mundial, em especial dos países do Golfo. A promessa do presidente Donald Trump de usar navios militares para escoltar os petroleiros que cruzam o Estreito animou os governos do Golfo, mas foi recebida com desconfiança pelos operadores.
Os preços do petróleo estão em torno de US$ 82 por barril, 13% acima do valor de referência registrado na véspera da guerra. O custo do afretamento de navios-tanque para transportar petróleo do Golfo Pérsico disparou e agora equivale a 20% do preço de uma carga de petróleo bruto, em comparação com 3% em tempos normais, segundo analistas da Argus Media.
O mercado agora já se preocupa com a demora para reabrir a passagem pelo Estreito de Ormuz. Isso porque o fechamento já começa a afetar os embarques de petróleo. O pior cenário é que os tanques de armazenamento comecem a encher até a capacidade máxima, já que os países não conseguem transportar combustível, o que poderia levar a uma paralisação na produção de petróleo.
Por enquanto, o maior gargalo é no Iraque, o quinto maior produtor mundial - a produção caiu para menos da metade por causa da impossibilidade de escoar o petróleo.
A certeza de que o preço do barril deve voltar a um patamar mais baixo assim que a crise no Oriente Médio arrefecer reforça a certeza de que a economia mundial precisa de menos petróleo agora do que em 1979, quando o preço do barril subiu 165% após a Revolução Islâmica do Irã.
Em artigo, Paul Krugman – prêmio Nobel de Economia de 2008 – observa que os EUA de hoje, os maiores produtores mundiais de petróleo, já não dependem tanto da commodity. E a participação do Irã na produção mundial também diminuiu.
“A economia dos EUA triplicou de tamanho no último meio século, porém, o consumo de petróleo praticamente não cresceu”, escreveu Krugman, apontando que a "intensidade petrolífera" da economia - que analisa a relação entre o consumo de petróleo e o crescimento do PIB americano - diminuiu mais de 70% desde 1979.
“O consumo de combustível dos carros é muito mais eficiente hoje em dia, o gás natural barato substituiu o petróleo em áreas como o aquecimento residencial e a energia renovável está começando a fazer diferença”, afirmou Krugman.