A virada para o segundo trimestre, seguida da Sexta-feira Santa, 3 de abril que antecede o domingo de Páscoa, marca o avanço célere do calendário de 2026 lotado por nove feriados nacionais comemorados em dias úteis neste ano com impacto positivo no turismo, comércio e serviços e negativo na produção.

A expectativa de analistas é de que haverá compensação entre os setores sem prejuízo para a atividade no curto prazo que se recupera, como atestou o Banco Central na Ata do Copom, confirmando a avaliação de bancos e consultorias que veem reação da economia no primeiro trimestre praticamente encerrado, mas desaceleração no ano. Trajetória também reconhecida pelo BC.

Para o mercado, mais que “passe” para um fim de semana prolongado, a Sexta-feira Santa é ponto de alerta por dar início a uma sucessão de feriados prolongados que “desligam” temporariamente o País das principais bolsas de valores e futuros no mundo, sobretudo Nova York, referência para operações locais, onde prevalece a atuação pesada de estrangeiros – em ações e taxa de juro.

Para além do descasamento de prazos entre transações domésticas e internacionais, feriados prolongados exigem atenção no atual cenário de pressão geopolítica e de ativismo do governo Lula na tentativa de reverter perda de popularidade.

O conflito no Oriente Médio ainda não cessou e o governo brasileiro não hesitará em anunciar medidas que ao menos freiem a queda na popularidade do presidente estampada nas mais recentes pesquisas de opinião. Conter o endividamento dos brasileiros é a bola da vez, mas flertar com tabelamento ou limitação na cobrança de juros é um equívoco.

Lula tem a seu favor, porém, a folga de arrecadação que o preço do petróleo mais alto vai proporcionar ao caixa do Tesouro. O Ministério da Fazenda estima receita adicional de quase R$ 17 bilhões no ano, considerando o barril Brent a US$ 73,09 – preço médio que a Pasta passou a considerar para este ano. Essa “sobra” de recursos deve garantir o cumprimento da meta fiscal e ampliar o espaço para despesas.

Quanto à guerra, Donald Trump que anunciou inicialmente uma trégua de cindo dias de combate norte-americano à infraestrutura energética do Irã – prazo que venceria nesta sexta-feira, 27, na quinta, 26, ampliou o prazo a 10 dias. Esse respiro e o envio de proposta de paz, intermediada pelo Paquistão, segurou o petróleo. Porém, o barril ainda supera US$ 100 e prevalecem incertezas porque Irã e Israel não interromperam os ataques.

Portanto, não está dissipado o risco de impactos mais graves na precificação de ativos e commodities em geral. Por tabela, persistem também ameaças à inflação global que já colocou de sobreaviso os maiores bancos centrais do mundo. Inclusive, o BC do Brasil, que iniciou o seu ciclo de corte do juro, no dia 18, sem garantir a continuidade que dependerá, sobretudo, do cenário externo e efeitos na inflação doméstica.

Guerra e estrangeiros na bolsa

Se os bancos centrais decidirem calibrar a política monetária ao cenário mais pessimista e de maior inflação, os ajustes podem não ser pequenos, aponta o Ranking Mundial de Juros Reais elaborado há quase duas décadas por Jason Vieira, economista-chefe da Lev Intelligence e da consultoria MoneYou.

A taxa média nominal referente ao ranking que reúne 40 países está em 5,30% ao ano. Descontados os respectivos índices de inflação projetados 12 meses à frente, o juro real médio do mesmo elenco é 2,18%. O Brasil paga quase três vezes mais em juro nominal, 14,75% de Selic – ocupando a quarta posição após Turquia com 37%, Argentina com 29% e Rússia com 15,50%.

Na classificação por juro real, o Brasil está em posição ainda mais favorável. Encerrou o primeiro trimestre na vice-liderança do ranking, com 9,51%, ultrapassado apenas pela Turquia com 10,38%. Entre as 40 economias, ainda operam com juro real negativo o Canadá, o Japão, a Suíça, Taiwan, a Áustria e a Nova Zelândia.

O Brasil segue, portanto, com imensa vantagem ante a maioria absoluta das nações na remuneração do capital e atrai investidores estrangeiros interessados em diferencial de juros – na prática um trampolim para o mergulho na bolsa. Mas é fato que o ambiente internacional pesa nas decisões.

Dados parciais de março, até o dia 20, revelam que o ingresso de capital externo para negociação com ações listadas na B3 vem desacelerando nas últimas semanas que coincidem com o conflito instaurado no Oriente Médio. Em janeiro, o investidor estrangeiro injetou R$ 26,5 bilhões nesse segmento; em fevereiro, R$ 16 bilhões; em março, até o dia 20, R$ 5,3 bilhões.

No primeiro trimestre, a leitura, parcial portanto, aponta ingresso de R$ 47,53 bilhões – maior volume para igual período desde 2022, quando R$ 69,06 bilhões aportaram na B3, informa Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria.

O desempenho do Ibovespa é um indicativo da firme atuação de estrangeiros. No ano, até 25 de março, o índice acumula alta superior a 15%, ante variações negativas dos principais mercados internacionais.

Bolsa e juro têm apelo incontestável, mas perspectivas mais animadoras para a economia, que incentivem investimentos produtivos e não apenas de smart money – notadamente volátil – são necessárias.

Nesse sentido, a agenda econômica da virada de março para abril inclui a divulgação de dois indicadores de confiança particularmente relevantes monitorados pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV e que fecharão o primeiro trimestre. O Indicador de Incerteza da Economia e o Índice de Confiança Empresarial – ambos de março – têm publicação prevista para, respectivamente, 31 de março e 1º de abril.

Entretanto, para avaliar o impacto da tensão geopolítica nessas duas pesquisas, o IBRE FGV realizou uma leitura prévia até 13 de março. E o spoiler registra aumento da incerteza em 3,6 pontos percentuais em relação a fevereiro e a confiança empresarial em queda de 0,4 ponto com piora exclusiva de expectativas.