O pacote de medidas anunciado pelo governo para conter os preços dos combustíveis e gás de cozinha em função do custo do petróleo no mercado internacional – em alta de 59% no ano, embora em leve desaceleração pelo cessar-fogo provisório acordado entre EUA e Irã – não blinda o estado de ânimo do consumidor. Positivo, mas exposto à inquietação gestada pelo instável cenário externo que atinge as empresas.
Pesquisas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) revelam que o Índice de Confiança do Consumidor subiu 2 pontos em março e encerrou o trimestre a 88,1 pontos. O Índice de Confiança da Construção seguiu semelhante traçado – alta de 2,1 pontos para 93,6 pontos.
Apesar da incerteza derivada do conflito bélico, minando expectativas ao longo de seis semanas consecutivas, essa dupla de indicadores recém-divulgada sofreu influência positiva sobretudo de variáveis domésticas: o início do processo de redução da Selic pelo Banco Central (BC), a expectativa de que novos cortes virão e que o mercado de trabalho seguirá firme e a renda favorável.
Em contraponto, tiveram quedas expressivas o Índice de Confiança do Comércio e o Índice de Confiança de Serviços. Também em março, o primeiro caiu 2,7 pontos, para 84,6 pontos e, o segundo, 1,8 ponto, para 88,4 pontos. O Índice de Confiança Empresarial recuou 0,4 ponto, para 91,9 pontos na segunda baixa seguida, enquanto o Indicador de Incerteza da Economia, mais sensível ao cenário externo por considerar a repercussão do conflito na mídia, saltou 9,2 pontos, para 115 pontos. Superior, portanto, a 110 pontos que já caracteriza elevada incerteza.
Esses dados negativos espelharam expectativas desfavoráveis para o futuro próximo impulsionadas pela guerra do Irã em trégua por duas semanas, mas em franco desenvolvimento em março, os desdobramentos globais, as incertezas sobre a duração do conflito e, ainda, sobre os impactos decorrentes da alta do petróleo, riscos à cadeia de fertilizantes e percepção quanto à alta da inflação, sobretudo de alimentos, apontou Anna Carolina Gouveia, economista da FGV responsável pelo monitoramento do indicador de incerteza econômica, ao apresentar o dado no final de março.
Adicionalmente, as empresas, atentas às declarações do presidente do BC Gabriel Galípolo quanto à necessidade de cautela em meio à instabilidade global, não descartam a possibilidade de a Selic – hoje em 14,75% – cair menos que o esperado até o fim do ano, com o BC adotando uma postura mais vigilante quanto às expectativas de inflação e à ampliação do endividamento de consumidores.
Isso, apesar da disposição do governo de adotar novas medidas para aliviar o bolso dos devedores – tarefa hercúlea que pode, contudo, trazer resultados apenas temporários e postergação de dívidas, além de comprometer o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) como espécie de “seguro” do trabalhador se aprovados saques para quitação de débitos.
Na seara do endividamento, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) publicou a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de março. A sondagem acusou expansão do percentual de famílias com dívidas a vencer, 80,4%, renovando o recorde de 80,2%, registrado em fevereiro. Porém, a entidade identificou positiva estabilidade da inadimplência em 29,6%.
Ainda assim, projeções da CNC mostram que o endividamento deverá continuar avançando no primeiro semestre deste ano até que os efeitos da flexibilização da política monetária, iniciada em 18 março, cheguem ao consumidor. Quanto à inadimplência, seu ritmo dependerá de possíveis impactos inflacionários decorrentes de itens como energia e combustíveis nos orçamentos familiares.
Dólar a favor do governo
O ânimo dos consumidores positivo ao final do primeiro trimestre poderá ser abatido, contudo, por uma fatura mais salgada dos alimentos, afirma o economista José Francisco Lima Gonçalves, professor da FEA/USP, mestre e doutor em Economia pela Unicamp. “A inflação dos alimentos deve dar um susto”, alerta.
Ao NeoFeed, Lima Gonçalves explicou que mesmo com a demanda esfriando pela política monetária que segue restritiva, os preços dos alimentos não seguem essa lógica. “A reação típica desses preços é do lado da oferta. Descontados efeitos sazonais, há o clima, custo de transportes, efeitos de mais médio prazo sobre custos de produção, choques de preços de commodities e da taxa de câmbio”, enumera.
O professor avalia que o único “remédio” que o governo poderia usar para enfrentar a alta de preços dos alimentos, que têm peso respeitável no orçamento familiar, seria o manejo de estoques. E, mesmo assim, para determinados produtos. Mas ele reconhece que política de estoques “não cai do céu”. Ao contrário, exige investimentos em infraestrutura logística, além de investimento na formação do próprio estoque.
“Em suma, essa política exige planejamento e financiamento do setor de alimentos e dos estoques constituídos. E a gestão disso tudo implica em um custo financeiro não desprezível. E a iniciativa ainda estaria sujeita a críticas, que ainda existem, ao que se considera um Estado intervencionista”, afirma.
Lima Gonçalves acrescenta que estoques estratégicos só são aceitos no caso de países ricos e cita o petróleo no Hemisfério Norte. “Uma combinação que reúne algumas condições. Alta de preços das commodities, inclusive petróleo, fretes e seguros internacionais, com alguma compensação via câmbio”, observa o professor para quem não há saída ao governo, a não ser incorporar alimentos no planejamento de iniciativas, “ou vira e mexe teremos carestia”.
A favor do governo no atual cenário está o câmbio que atua como mitigador de riscos e pressões inflacionárias. Nos últimos dias, o dólar caiu abaixo de R$ 5,10 – cotação mais favorável em dois anos. No ano até quinta-feira, 9 de abril, a queda é de 7,5% que se soma ao tombo de 11,2% observados em 2025.