Com desfalque de dois integrantes na Diretoria Colegiada do Banco Central a serem indicados pelo presidente Lula ao Senado – principal instância a aprovar candidatos para preencher os postos desocupados há quase três meses – o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic na quarta-feira, 18 de março. O corte, de 0,25 ponto percentual para 14,75%, confirmou a aposta majoritária do mercado futuro de juros e de economistas.
Embora esperado – assim como a manutenção da taxa pelo Federal Reserve entre 3,50% e 3,75% – esse resultado mais conservador do que a aposta inicial de bancos e consultorias de redução de 0,50 ponto deve ser ressaltado na Ata do Copom na terça-feira, 24 de março.
E o assunto deve ser retomado na quinta-feira, 26, quando o presidente do BC Gabriel Galípolo e o diretor Paulo Picchetti de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos, interino no comando da Diretoria de Política Econômica, terão a chance de reforçar as mensagens da instituição – se necessário – na apresentação do Relatório de Política Monetária.
E a Selic continuará em destaque porque, também na quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará a prévia da inflação – o IPCA-15 de março. O índice deverá desacelerar no mês e em 12 meses, declinando de 4,10% para algo entre 3,70% e 3,75%. Patamar em que o indicador esteve momentaneamente no segundo trimestre de 2024.
Esse recuo, se confirmado, poderá fomentar a expectativa já acalentada – após a decisão do Copom – de que o BC poderá ampliar o ritmo de corte da Selic nas próximas reuniões. Por ora, contudo, não há garantia de que isso ocorrerá. Prudente, ante o turbulento e incerto cenário externo, o BC não sinalizou interrupção do ciclo de corte agora iniciado, mas tampouco acenou com magnitude e tampouco a extensão de um próximo ajuste.
Embora relevante e em destaque, a Selic não diz tudo. Complementando a mensagem transmitida pelo nível da taxa básica, idêntica à observada em maio de 2025 e, antes disso, em julho de 2006 – portanto há quase 20 anos – estão as “condições financeiras” que podem atropelar famílias e empresas quando em território contracionista.
Neste final de trimestre turbinado pela guerra no Oriente Médio, que já dura três semanas e levou o preço do petróleo às alturas no mercado internacional, onde o barril do tipo Brent saltou quase 60% desde o final de fevereiro, o grau de aperto das “condições financeiras” é comparável ao nível mais restritivo do ano passado e num momento histórico, revela o Indicador de Condições Financeiras do Banco Pine.
“Tarifaço” sem precedentes
Atualizado a pedido do NeoFeed, o ICF-Pine alcançou 1,3 ponto no “Liberation Day” de Donald Trump em abril de 2025, quando o presidente americano anunciou o “tarifaço” contra importações de todos os parceiros comerciais dos EUA.
Quase um ano depois, na quarta-feira, 18 de março, o indicador estava em 0,4 ponto. Nível que aparenta melhora substantiva se comparado a abril do ano passado, mas que saiu do terreno negativo (-0,65) observado no “Liberation Day” e, portanto, de “condições financeiras” mais favoráveis que as atuais.
“O aperto das condições financeiras foi significativo em curto espaço de tempo”, explica o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira.
Em entrevista ao NeoFeed, o economista avalia que se o conflito for intensificado e a pressão sobre o petróleo persistir, investimentos e consumo devem passar por desaceleração expressiva. Ele informa que quanto mais alto o ICF, maior é a contração financeira. Ao contrário, quanto mais negativo a partir de “zero” – nível de neutralidade – menor é a restrição.
“Para o Banco Central, o cenário ideal é a demanda e a oferta caminharem num mesmo ritmo e o ICF ficar próximo da neutralidade. Zero, portanto. Mas se o conflito e a alta do petróleo se agravarem, tanto os investimentos no setor real da economia quanto o consumo de bens e serviços pela população devem passar por forte aperto”, observa Oliveira.
O especialista em política monetária e operações cambiais reconhece que, quando se fala em “condições financeiras”, imediatamente vem à lembrança o juro real praticado num país. No Brasil, o juro é o segundo maior do mundo (9,51%), atrás da Turquia (10,38%), entre 40 nações monitoradas pelo economista-chefe da Lev Intelligence Jason Vieira.
Cristiano Oliveira informa que o cálculo do indicador de condições financeiras é composto por fatores internos e externos com subdivisões dentro desses fatores. Entre as variáveis domésticas estão a taxa básica, juros e o mercado de capitais. Entre as variáveis externas estão o juro internacional, moedas, risco-país e preços de commodities.
O diretor de Pesquisa Econômica do Pine lembra que de janeiro de 2023 a abril de 2025, quando ocorreu o “Liberation Day”, na maior parte do tempo, a política monetária no Brasil estava em terreno restritivo e as condições internacionais também.
“Não por coincidência, em abril, no ‘Liberation Day’ foi observado o pico do indicador. Em seguida, houve um relaxamento com as negociações tarifárias entre EUA e diversos países. As condições financeiras foram arrefecidas, as commodities, incluindo o petróleo, também puxaram para baixo o ICF com o fortalecimento do real, ante o dólar”, acrescenta.
No Brasil, a variável protagonista que aperta a restrição financeira “era e continua sendo a taxa de juro real”, diz Oliveira, e “não apenas a Selic, mas a curva de juros como um todo, pois é a curva que calibra o custo dos empréstimos”, avalia o economista para quem a redução da Selic em 0,25 ponto anunciada pelo Copom é pequena diante da magnitude da atual taxa de juro real.
“Entretanto, a decisão do comitê tem impacto sobre os juros de prazos mais longos e esse movimento é capturado pelo ICF-Pine que é calculado por meio de algoritmo matemático baseado em redes neurais”, informa.