“Eu comecei a viver agora”, diz Tânia Maria, no auge dos seus 79 anos. Ao viver dona Sebatiana em O Agente Secreto, a costureira e artesã potiguar não só descobriu uma nova profissão como se tornou "o mais novo ícone do Brasil", como define manchete do jornal americano The New York Times, em reportagem de 22 de fevereiro.
Desde a estreia internacional do thriller de Kleber Mendonça Filho em maio de 2025, no Festival de Cannes, Tânia já estrelou campanhas para Heineken, Burger King e HBO Max, entre outras marcas. Foi capa da revista Elle brasileira, virou fantasia nos blocos de carnaval e conheceu a atriz Fernanda Montenegro. Na semana da cerimônia do Oscar, ganhou até uma estrela simbólica na calçada da fama em Los Angeles.
Natural de Santo Antônio da Cobra, em Parelhas, interior do Rio Grande do Norte, Tânia foi descoberta ao ser selecionada como figurante para Bacurau, de 2019, outro filme de Mendonça Filho. Desde então, ela não quer saber de outra profissão.
A grande expectativa era que ela fosse para a festa nos Estados Unidos. Mas, portadora de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPCO), por orientação médica, não foi liberada para viajar.
A paixão pelo cinema fez Tânia largar o vício do cigarro, depois de mais de 65 anos de tabagismo. A virada veio após ter dificuldade em gravar uma cena proposta pelo diretor em O Agente Secreto.
“Eu estava muito cansada, ofegante, doente. Meu pulmão já estava nas últimas", conta em conversa com o NeoFeed. "Essa cena foi gravada no terceiro andar e tiveram de me levar nos braços, porque eu já não conseguia subir as escadas. Se eu não tivesse parado de fumar, eu não estaria nem conversando com você agora. "
A sequência em questão é a do brinde, quando dona Sebastiana reúne todos os vizinhos do prédio que serve de refúgio para os perseguidos políticos, em homenagem a um casal que está deixando o Brasil.
Esta, aliás, é a cena preferida da atriz por se identificar com características da senhora revolucionária que interpreta: desde o perfil alcoviteiro até a forma acolhedora de receber todos em casa. Em sua residência de verdade, em Santo Antônio da Cobra, onde mora com a família até hoje, sempre há espaço para mais um, diz ela.
No filme, dona Sebastiana conta que foi “comunista, anarquista”, embora não se lembre da ordem. Já Tânia estudou até a quarta série e não teve letramento político. Não “sentiu” a ditadura militar, mas vivenciou o ônus de ser mulher numa sociedade ainda patriarcal no interior nordestino e teve, como a sua personagem, muito peito para, de certa forma, resistir ao sistema.
Desde que largou a escola, Tânia trabalhou como artesã até conseguir um emprego no posto de saúde do povoado. Mas engravidou aos 29 anos. E, mulheres solteiras grávidas, naquela época, eram consideradas moralmente “inadequadas” para certos trabalhos, podendo ser dispensadas, já que a estabilidade da gestante só passaria a ser garantida muitos anos depois, com a Constituição de 1988.
Antes que pudesse ser subjugada, Tânia decidiu tomar a frente da decisão. “Fizeram um abaixo-assinado para me tirar da saúde. Diziam que eu não podia trabalhar lá grávida e solteira. Uma vizinha foi na minha casa e falou: 'Tânia, vá na prefeitura pedir demissão, porque segunda-feira vão te mandar embora por justa causa’. Eu fui com meu pai, dezoito quilômetros a pé. Pedi demissão na sexta. Quando o chefe foi pedir minha saída para o prefeito, ele disse: ‘Ela já pediu demissão’. Ele quebrou a cara”.
A partir de então, criou com orgulho sozinha a filha, trabalhando como artesã e costureira. “Minha filha é muito boa. Se não fosse ela, eu estaria no mundo vagando”, elogia.
Certo dia, quando tinha 72 anos, ouviu dizer que "um pessoal de fora" havia chegado à cidade para fazer uma gravação. E ela foi correndo oferecer os conjuntos de banheiro que fazia de crohê.
Foi quando recebeu o convite para ser figurante, ganhando R$ 50 pela diária — R$ 10 a mais do que valia seu produto. Até então, Tânia nunca nem tinha ido ao cinema. E o primeiro filme que assistiu foi justamente Bacurau. “Eu não via ninguém no filme, só via eu. Ficava contando quantas vezes eu aparecia. Passei dez vezes”, lembra, rindo.
O poço de espontaneidade em apenas 1,50 metro cativou Mendonça Filho, que escreveu a personagem Sebastiana especialmente para Tânia — aliás, o nome dela é Sebastiana Maria de Medeiros Filha.
Para decorar as falas, ela adotou um método simples: copiar o texto três vezes em um caderno, como aprendeu com o preparador de elenco. Pelo papel em O Agente Secreto, ela já recebeu o troféu de melhor atriz coadjuvante em premiação da International Cinephile Society e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago de Compostela.
Depois de tantos reconhecimentos, quando perguntam qual é o próximo sonho, Tânia diz que ainda não pensou nisso. “Meu sonho era ter uma vida digna.” E isso, como diz, ela já realizou.