Tóquio — Durante a pré-produção de A Pequena Amélie, os cineastas Maïlys Vallade e Liane-Cho Han cansaram de ouvir que a sua fonte de inspiração, o livro A Metafísica dos Tubos, era “inadaptável” para o cinema. A própria dupla chegou a duvidar de que conseguiria mesmo traduzir em imagens a autobiografia da escritora belga Amélie Nothomb, que, aos dois anos, achava que era Deus.
Sim, logo na abertura da obra, Nothomb descreve que acreditava ser o centro do universo nos seus primeiros anos de vida. Inicialmente, ela se descreve como Deus, por sentir uma satisfação absoluta, de quem não precisa absorver nada, como um tubo — daí o título. A menina só resolve abrir-se para o mundo, deixando-se maravilhar por toda a criação, depois de provar um pedaço de chocolate branco da Bélgica, descobrindo o prazer.
“A primeira coisa que realmente nos impactou nesse livro foi o seu ponto de vista, por trazer o olhar de uma criança sobre a condição humana, desde o seu nascimento até os três anos”, contou a diretora francesa Maïlys Vallade, durante a 38ª edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio (TIFF-JP), que teve cobertura do NeoFeed.
“E nós só conseguimos ilustrar as experiências dos primeiros anos de vida, muitas delas carregadas de simbolismos, por recorrermos à linguagem da animação”, afirmou o também francês Liane-Cho Han, no palco do Kadokawa Cinema, onde A Pequena Amélie teve sessão especial na capital japonesa.
Uma das melhores produções de animação de 2025, a obra com lançamento marcado para 29 de janeiro nas telas do Brasil encanta as plateias por onde passa. Vencedora do prêmio de público em Annecy, o maior festival do gênero do mundo, A Pequena Amélie concorre neste domingo, 11 de janeiro, ao Globo de Ouro de melhor animação.
E promete ainda receber uma indicação ao Oscar da categoria no anúncio que a Academia de Hollywood fará em 22 de janeiro. No Annie Awards, considerado o Oscar da animação, o título recebeu sete indicações, incluindo de melhor filme e direção.
O trunfo de A Pequena Amélie está justamente em capturar a curiosidade, o deslumbramento e a imaginação de uma criança pequena. E de um jeito que só a animação consegue fazer, pela possibilidade de tomar mais liberdades em termos de representação realista, podendo ainda abusar das cores e das metáforas visuais.
O que também pesa a favor do filme é o fato de não se tratar de uma “criança” comum. Aqui estão as memórias de infância de Amélie Nothomb, uma das mais premiadas escritoras de língua francesa da atualidade.
Ela recebeu o Grand Prix du Roman da Académie Française, em 1999, por Medo e Submissão, o Prix de Flore de 2007 por Ni d’Ève ni d’Adam e o Grand Prix Jean Giono pelo conjunto da obra, em 2008, entre outros reconhecimentos.
Nothomb também é uma das autoras mais prolíficas no idioma. Desde 1992, quando debutou na cena literária com Higiene do Assassino, aos 26 anos, ela publica praticamente um livro por ano, com romances geralmente entre os mais vendidos e traduzidos para muitas línguas. Na sua bagagem, já são quase 30 obras.
Seu estilo é conhecido por unir a simplicidade na escrita, com frases curtas e prosa direta, à profundidade temática, ao preferir tratar de morte, solidão e existencialismo. E tudo, quase sempre, construído na fronteira entre ficção e realidade e retratado com humor, destacando o absurdo das situações.
No caso de A Metafísica dos Tubos, publicado em 2000, há uma camada a mais, por Nothomb abordar a questão do choque cultural na infância. Embora tenha a nacionalidade belga, ela nasceu em Kobe, no Japão, por ser filha de um diplomata, que atuava sobretudo no Oriente.
Isso explica a pequena Amélie do filme descobrir inicialmente as maravilhas de estar viva na zona rural no Japão, na década de 1960. O susto provocado por um terremoto e o deleite do chocolate branco tiram a garotinha de seu estado celestial e, ao mesmo tempo, vegetativo, fazendo-a finalmente se juntar aos mortais.
Amélie descobre o que é a morte com o falecimento da avó paterna belga, de quem ganhou o primeiro chocolate branco. E ela mesma quase morre afogada durante um passeio da família na praia, o que já obriga a criança a lidar com os aspectos mais duros da existência.
Por passar muito tempo com a governanta da casa, que é japonesa, a menina absorve muito da cultura e da filosofia nipônicas. E a influência do país onde vive ganha força, sem que ela entenda ainda o que significa pertencer a uma família de estrangeiros ou tenha a chance de compreender primeiro o estilo de vida e a mentalidade ocidentais — por ter contato apenas com os pais e a avó belgas.
“O livro nos permitiu tratar de questões sérias, como identidade, morte e luto, o que não é comum em animações calcadas na fase da primeira infância”, disse Vallade, lembrando que o mais difícil na adaptação foi encontrar um equilíbrio. “Apesar de nós nos inspirarmos em um livro adulto, que trata da infância, o desafio foi rodar um filme para todas as gerações, ao estruturá-lo com múltiplas camadas”, acrescentou ela.
Enquanto as crianças menores se encantam, a princípio, pelo espírito de aventura de Amélie e pelas imagens naturais e coloridas do Japão, os adultos apreciam certas peculiaridades históricas. Uma delas é a hostilidade sofrida pela família belga (e pelos ocidentais, em geral) no Japão pós-Segunda Guerra Mundial.
“Ainda assim, o fato de o Japão ter perdido a guerra para o Ocidente não impede Amélie de receber valiosas lições de vida da governanta japonesa, embora esta tenha perdido a família no conflito”, destacou Liane-Cho Han. “Nosso filme não se propõe a resolver traumas de guerra, mas talvez a amizade entre a garotinha e a governanta consiga nos ensinar algo, no turbulento cenário atual.”