Marrakech – “Por considerar a imortalidade uma maldição, sou fã da morte”, disse Guillermo del Toro, ao tentar explicar como venceu em Hollywood sem precisar comprometer a sua obsessão por monstros e o seu gosto pelo macabro. “Busco ver a experiência humana como bela e horrível ao mesmo tempo, sem julgamento”, afirmou o mexicano de 61 anos.

Imprimir o terror em tudo o que faz até poderia tê-lo aprisionado no segmento de cinema independente, mas foi o que garantiu o seu trunfo comercial. São mais de US$ 6,4 bilhões de bilheteria mundial, quando somados os mais de 30 filmes que ele escreveu, produziu ou dirigiu, sempre seduzindo o espectador com os horrores do mundo e a narrativa sombria.

E a renda global nem reflete o sucesso de seu último filme, Frankenstein, lançado globalmente na Netflix, o que significou passagem rápida pelas telas de cinema. Ainda assim, a sua releitura do romance gótico de Mary Shelley terminou 2025 como um dos filmes mais populares do ano na plataforma e um dos principais candidatos aos prêmios da temporada.

No Globo de Ouro, prêmio dos correspondentes estrangeiros que será concedido no domingo, 11 de janeiro, em Los Angeles, “Frankenstein” concorre em cinco categorias, incluindo melhor drama e melhor diretor. E são grandes ainda as chances de indicações ao Oscar, sobretudo na categoria de melhor filme, no anúncio que será feito em 22 de janeiro pela Academia.

Com a perspectiva do próprio monstro feito com retalhos de cadáveres, Frankenstein é mais um testemunho da “relação íntima” de del Toro com a morte, o que ele atribui ao fato de ser mexicano. “Crescemos vendo a beleza e a desgraça do mundo no mesmo dia, no mesmo instante. No dia em que você dá o seu primeiro beijo ou presencia o nascimento do primeiro filho, alguém está sendo assassinado ou uma casa está pegando fogo”, disse del Toro, ao NeoFeed, durante a sua passagem pela 22ª edição do Festival Internacional du Film de Marrakech, conhecido como FIFM.

O cineasta, homenageado com um prêmio honorário no Marrocos por “misturar terror, fantasia e imagens visuais exuberantes”, usou ainda o Día de Muertos no México para ilustrar como o seu povo transforma o luto em celebração da vida. Longe da atmosfera pesada do Dia de Finados no Brasil, lá a data pede festa. É como se fosse o Carnaval deles. A população veste fantasias, enfeita a casa com flores, velas, incensos e ainda prepara os quitutes preferidos dos mortos, acreditando que as almas teriam autorização para visitar os familiares e os amigos na ocasião.

“O momento de graça só acontece quando nos rendemos a todos os ritmos da nossa experiência no planeta. É sempre muito suspeito quando alguém defende um único caminho na vida, querendo deixar tudo igualmente belo. Para mim, daí nasce o terror. Eu amo tanto os monstros porque eles representam uma permissão para a imperfeição”, afirmou del Toro, um dos grandes admiradores do Kintsugi.

Mesmo antes de conhecer essa arte japonesa de reparar cerâmicas quebradas, juntando os cacos e destacando as emendas com pó de ouro, o cineasta já celebrava o Kintsugi em seu cinema. “Percebi essa minha conexão ao ler sobre filosofia japonesa durante a preparação para ‘Círculo de Fogo’”, disse o diretor, referindo-se ao filme de 2013. Trata-se aqui de uma batalha épica entre monstros e mechas, como são chamados os robôs gigantes controlados por homens que são ícones na cultura pop japonesa.

“Quando me perguntam por que eu coloco tantas autópsias em meus filmes, sempre respondo: se algo está morto e se decompondo, é porque estava vivo antes. E o Kintsugi nada mais é do que a narrativa de uma história passada, o que podemos aplicar em nós mesmos. Somos quebrados quando crianças, vivendo o resto de nossas vidas tentando nos reconstruir com as histórias que contamos, colocando o verniz dourado nelas”, afirmou del Toro.

Cena do filme "Frankenstein" - Crédito: Netflix
Cena do filme "Frankenstein" - Crédito: Netflix

E o que mais poderia explicar o reconhecimento de público, da crítica e da indústria alcançado por suas obras? Entre os destaques de sua filmografia está A Forma da Água (2017), um romance subversivo sobre uma zeladora muda e um homem-anfíbio que garantiu a del Toro o Oscar de melhor diretor e o de melhor filme (como produtor).

Seu terceiro Oscar veio com Pinóquio por Guillermo del Toro (2022), de melhor animação, ao dar um tom antifascista à trajetória do boneco de madeira que queria ser gente. Em vez de ambientar a sua jornada no século 19, como no original, a ação foi transportada à Itália dos anos 30, comandada por Benito Mussolini.

“Nós, mexicanos, podemos ser muito indomáveis. Por isso eu sempre me identifiquei tanto com os meus conterrâneos, Alejandro e Alfonso, rebeldes desde muito jovens como eu”, comentou del Toro, referindo-se a Alejandro González Iñárritu e a Alfonso Cuarón, com quem forma o grupo Três Amigos. Foi assim que eles ficaram conhecidos em Hollywood.

“Cada um conseguiu se destacar do seu jeito. No meu caso, foi mesmo mergulhando no cinema de gênero, mesclando muitas vezes filme de terror e conto de fadas”, contou del Toro, que encerrou a entrevista dando uma espirituosa definição de sucesso. “É você conseguir não trabalhar por três, quatro ou cinco anos sem que ninguém perceba. Isso, sim, significa ter vencido na vida”, disse ele, rindo.