Durante mais de meio século, Michel Rolland foi sinônimo de poder no mundo do vinho. Seu nome atravessou fronteiras, redefiniu estilos, moldou mercados e dividiu opiniões como poucos na história da enologia.

Consultor de centenas de vinícolas, defensor de vinhos intensos e protagonista de debates que extrapolaram a taça, Rolland ajudou a transformar Bordeaux em uma marca global e levou sua visão técnica e estética a todos os continentes.

Admirado por produtores e criticado por tradicionalistas construiu uma carreira tão influente quanto controversa. Foi esse personagem central da indústria do vinho que se despediu, deixando um legado que continuará a ser discutido, provado e contestado por muitos anos.

Rolland morreu, em Bordeaux, França, na manhã de sexta-feira, 20 de março. Aos 78 anos, o homem que deu origem ao termo “enólogo voador” teve infarto, em casa, na região onde nasceu, cresceu e para onde sempre voltava depois de viajar o mundo prestando consultorias.

Foi um dos profissionais mais influentes da indústria do vinho no planeta. Em seus 56 anos de carreira, prestou consultoria para mais de 600 vinícolas em 22 países. Entre elas o Grupo Miolo, no Brasil.

O enólogo fez a imagem de Bordeaux crescer perante o mundo. Influenciou produtores por toda a França. Apostou nos vinhos do Novo Mundo. Junto ao crítico norte-americano Robert Parker, foi responsável pelo estilo de vinho que dominou o mercado internacional por décadas: tintos potentes, frutados, com passagem por barricas de carvalho. Por isso, muitos o acusam de padronizar a produção mundial, ameaçando a diversidade de uma cultura milenar.

Foi uma figura polêmica. Modéstia não era o seu forte. Não se encabulava em dizer que, antes dele, o vinho europeu estava na Idade Média e o do Novo Mundo não existia. Nem Bordeaux escapava de suas observações ferinas.

“Existiam, não se sabe por que, alguns vinhos, de algumas safras, excepcionalmente bons”, disse em sua última passagem por São Paulo, em 2025, para uma degustação vertical do seu argentino Clos de los Siete, promovida pela Wine.

“Podemos mencionar o Château Mouton Rothschild 1945, o Lafite-Rothschild 1959, o Latour 1961… Não passava de 20 rótulos. A proporção de vinhos ruins era muito alta”, completou.  Até os produzidos por seu pai eram alvo de críticas. “Por que acham que fui estudar enologia?”, disse.

Nasceu em Libourne, à margem direita do rio Gironde, o lado menos aristocrático de Bordeaux. Foi a terceira geração de produtores do Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, propriedade que herdou em 1979.

Sua família era amiga dos donos de um château então já bastante renomado, cujos vinhos tinham sido servidos no casamento da Rainha Elizabeth II da Inglaterra: o Château Petrus. “Foi o primeiro grande vinho que tomei”, contou Rolland. “Na minha primeira comunhão, aos 11 anos, foram abertas 30 garrafas de Petrus.”

Cursou a Escola de Viticultura e Enologia La Tour Blanche e, depois, o Instituto de Enologia de Bordeaux, onde foi discípulo de Émile Peynaud, o ícone da enologia da geração anterior à sua. Lá conheceu Dany, com quem casou em 1972. Um ano depois, o casal comprou um laboratório de análises enológicas em Libourne. Com isso, começaram as primeiras consultorias dentro de Bordeaux.

No fim dos anos 1970, assumiram também a direção do Château Le Bon Pasteur e mostraram ao mundo aquilo que seria a sua concepção de vinificação: um cuidado constante com os vinhedos, uma higiene minuciosa na cantina e a troca de barricas muito velhas (segundo ele, na maior parte contaminadas) por barricas novas de carvalho francês. Em 1986, o casal comprou o Château Fontenil, em Fronsac, também na margem direita.

A primeira consultoria no exterior foi para a Simi Winery, em Sonoma, Califórnia, em 1987. No ano seguinte, visitou pela primeira vez a Argentina, a convite de Arnaldo Etchart, da bodega San Pedro de Yacochuya, em Salta. A partir daí, passou a dar consultorias por todos os cantos. Rolland fez vinhos na Croácia, no México, na Índia (o mais desafiador, segundo ele), na China, entre outros.

Do fim dos anos 1990 até meados dos anos 2010, foi o consultor em enologia mais requisitado do mundo. Qual era o seu segredo? Na opinião de Jean-Charles Cazes, presidente do renomado grand cru da margem esquerda Château Lynch-Bages, o seu grande talento era fazer assemblages. “Era o mestre em compor o melhor vinho com uma variedade de lotes”, declarou ao NeoFeed o executivo.

A Argentina foi uma paixão. No fim da década de 1990, convenceu outros seis produtores de Bordeaux a dividirem entre si um lote gigante de 850 hectares em Vista Flores, Mendoza. Assim nasceu o Clos de los Siete. Ali, cada um faria seu vinho e separaria parte da produção para o vinho comum. O dos Rolland é o Mariflor.

A Bodega Rolland hoje é dona também das marcas Val de Flores, também de Mendoza, e Yacochuya, de Salta. O país virou sua segunda casa. “Adorava o jeito como você se vestia de gaúcho para cavalgar e fazer churrasco em Mendoza”, escreveu a enóloga Laura Catena em seu Instagram na sexta-feira.

No Brasil, prestou consultoria para o Grupo Miolo entre 2003 e 2013. “Sua presença ajudou a acelerar o desenvolvimento qualitativo dos vinhos brasileiros”, escreveu, em seu perfil, Adriano Miolo, presidente do grupo.

Em 2004, o documentário Mondovino, do cineasta e sommelier norte-americano Jonathan Nossiter, apresentou Rolland como um manipulador que, com palpites à distância, mudava o caráter de vinhos em várias partes do mundo. A artilharia de críticas foi pesada.

“Ainda estou aqui”, disse Rolland, na sua última passagem por São Paulo. “Não digo que estou sempre certo, mas talvez esteja menos errado do que os outros.”

Nos seus últimos anos de vida, Rolland viu a crítica especializada, muitos sommeliers e alguns grupos de consumidores de vanguarda se voltarem para vinhos com um perfil bem diferente dos seus. Vinhos mais frescos, jovens, sem madeira.

“Você pode fazer vinhos gostosos sem madeira”, disse. “Mas não faz grandes vinhos. E o consumidor ainda gosta do vinho com madeira.”

Nessa mesma ocasião, contou que estava diminuindo o ritmo. Naquele momento, prestava consultoria “apenas” para cerca de 100 vinícolas em 14 países. “Tenho uma equipe”, disse. “Não sou eu sempre quem viaja. Já estou próximo da aposentadoria.”

Nunca chegou a parar. Tampouco chegou a se divorciar de Dany, mas, há algum tempo, vivia com a escritora e jornalista Isabelle Bussinet. A parceria com a primeira mulher, no entanto, seguia firme.

“Mesmo depois da separação, Michel, Dany e as filhas continuavam trabalhando juntos no laboratório”, conta a jornalista brasileira Alexandra Forbes, esposa do enólogo Pierre Lurton, do Château Cheval Blanc, amigo de longa data dos Rolland.

Rolland deixa a companheira Isabelle, as filhas, Stéphanie e Marie, a primeira mulher e parceira de negócios, Dany.