Brasília - Quando a bola oval cruzar o campo de futebol americano do Levi’s Stadium, na Califórnia, e dar início à final entre New England Patriots e Seattle Seahawks, num dos maiores eventos esportivos do planeta, no domingo, 8 de fevereiro, o Super Bowl 60 já terá entrado para a história.
Não só do esporte global, mas também como uma edição marcada por tensões políticas pré-jogo, envolvendo o presidente americano, Donald Trump, o astro pop latino da atualidade Bad Bunny e a polêmica atuação da ICE (polícia de imigração norte-americana), sob um forte simbolismo político.
A semana que antecedeu a disputa pelo troféu Vince Lombard começou com uma grande carga política, após o discurso do cantor porto-riquenho, Bad Bunny, ao ganhar um Grammy inédito de melhor álbum do ano, pelo disco “Debí Tirar Más Fotos” (2025): “Fora, ICE!", disse ele, estrela atual do reggaeton e pop mundial.
Bunny será a atração do aguardado show que acontece no intervalo do jogo, mesmo após críticas de Trump ao cantor. O presidente americano, por sua vez, disse que não irá à partida, ao contrário do ano passado em que esteve no Super Bowl 59, em Nova Orleans - vitória do Philadelphia Eagles sobre o Kansas City Chiefs.
Trump e o cantor latino vêm protagonizando um embate, numa troca de farpas que começou em 28 de setembro do ano passado, quando o artista foi anunciado como o show do intervalo do Super Bowl 60.
Artista mais ouvido no mundo nas plataformas digitais no ano passado e crítico declarado às políticas de Trump, Bunny inclusive excluiu os Estados Unidos de sua turnê mundial ao longo do ano passado, com receio justamente da ação do ICE em seus shows. Isso, mesmo antes da crise estourar, com a morte de pessoas por agentes da polícia imigratória americana em Minneapolis, em janeiro de 2026, desencadeando protestos por todo o país contra a violência dos agentes do governo.
Além de Bunny, o Green Day, popular banda de punk americana e conhecida também pela postura política anti-Trump, fará um show no estádio do Super Bowl, antes de o jogo começar. Perguntado a respeito, uma semana antes do Grammy, Trump fez duras críticas à escolha dos artistas pela NFL, liga de futebol americano dos EUA:
“Sou contra eles [Bunny e Green Day]. Acho que é uma péssima escolha. Tudo o que isso faz é semear ódio. Terrível”, disse ao New York Post.
Já em outubro passado, Trump havia dito que nunca tinha ouvido falar do cantor latino e que “o Super Bowl deveria celebrar artistas que amam nosso país, não pessoas que o criticam”. No mesmo mês, Bunny participou do lendário programa humorístico da TV americana, “Saturday Night Live”, em que afirmou na abertura, falando em espanhol: “Se você não entendeu o que eu acabei de dizer, tem quatro meses para aprender”.
Além do mais, com o anúncio de Bunny para o show do intervalo, também cresceu o temor de que agentes do ICE pudessem atuar fora do estádio. A própria secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, em outubro, disse à imprensa americana que o ICE estaria presente durante o Super Bowl.
Diante das ameaças do governo, a NFL foi pressionada a dar uma resposta a respeito, sobre uma possível presença dos agentes de imigração fora do estádio, que poderiam levar a confrontos e mais violência, só que desta vez no palco do maior evento esportivo dos EUA. Na terça-feira, 3 de fevereiro, porém, a diretora de segurança da NFL, Cathy L. Lanier, buscou tranquilizar o público e garantiu que não haverá esse perigo.
Por fim, ainda há mais um simbolismo político: o jogo acontecerá na casa dos 49ers – um dos times mais populares dos EUA e que vai sediar o Super Bowl domingo -, em Santa Clara, região de São Francisco, na Califórnia. Portanto, no estado do governador Gavin Newsom, principal adversário democrata de Trump e um dos potenciais adversários do atual presidente na corrida para a próxima eleição presidencial americana.
Newsom ganhou os holofotes na COP 30, em Belém, no Brasil, em novembro passado, com a ausência de Trump durante a conferência de mudanças climáticas da ONU.
Política à parte, os negócios vão bem
Após Trump criticar indiretamente a NFL pela escolha de Bunny em meio aos embates com imigrantes, a liga chegou a ser questionada se voltaria atrás e anunciaria outra atração. Roger Goodell, comissário da NFL (espécie de CEO), porém, vem defendendo o astro porto-riquenho e disse que essa possibilidade estava fora de cogitação.
"Está cuidadosamente pensado. Não tenho certeza se já selecionamos um artista sem algum tipo de crítica ou reação negativa. É bem difícil quando você tem literalmente centenas de milhões de pessoas assistindo", diz ele.
A postura da NFL de bancar uma atração musical mesmo em meio a um barril de pólvora político, que poderia inclusive respingar sobre os negócios bilionários da liga – o intervalo do Super Bowl é tradicionalmente o espaço publicitário mais caro da TV americana -, demonstra uma clara estratégia comercial da liga de aprofundar sua internacionalização.
Em 2026, a NFL bateu mais um recorde: um anúncio de 30 segundos no intervalo comercial do jogo valeu US$ 10 milhões, enquanto em 2020 valia US$ 5,5 milhões.
A NFL já sedia jogos na Inglaterra, México, Alemanha, Espanha e até no Brasil (onde já houve duas partidas na Neo Química Arena, em São Paulo, e haverá uma primeira no Maracanã em 2026). Esses shows, que já contaram com Michael Jackson, Beyoncé, Prince, Lady Gaga, Bruce Springsteen, entre outros, costumam atrair fãs de música que não se conectam com o esporte.
A decisão da NFL chama a atenção do professor de História e Estudos Internacionais da Louisiana State University, André Pagliarini, um americano que é filho de pais brasileiros.
“Não acho que Bad Bunny foi escolhido com simbolismo político em mente, mas, dado o momento sensível no país, não há como ignorar as implicações socioculturais do ‘halftime show’ deste fim de semana. Talvez o ponto mais interessante é que certamente a alta patente da NFL sabia do efeito político e fez a escolha mesmo assim. Isso é revelado.”
Pagliarini ainda contextualiza que o Super Bowl ocupa um espaço central na cultura dos Estados Unidos para além da questão esportiva. “Por isso qualquer sinalização vagamente política, mesmo — e talvez especialmente — quando não explícita é objeto de muito debate”.
Mesmo sem Trump, ICE ou possíveis conflitos em torno da política de imigração atual, o acadêmico acredita que ainda pode haver recados políticos durante o jogo. “Eu ficaria muito surpreso se tanto Green Day quanto Bad Bunny evitassem por completo qualquer declaração mais ou menos abertamente anti-Trump", afirma. “De novo: os organizadores certamente sabem dessa possibilidade e os convidaram do mesmo jeito. Acho isso interessante.”
Pagliarini, contudo, analisa que a disputa política que pega emprestado o Super Bowl como palco deve ficar apenas no campo da retórica, sem espaço para grandes estragos à imagem do Super Bowl, alguma reação explosiva nas ruas de Santa Clara ou que transformem o jogo num palanque político-eleitoral, a favor ou contra Trump.
“Mais do que nada, a politização do Super Bowl — não digo que é “culpa” do Bad Bunny, mas o efeito está aí — será lido como mais um exemplo da polarização política que ajudou Trump em 2024, mas que hoje parece estar se virando contra ele”, acrescenta.
Tudo é marketing
Para Marcelo Toledo, professor de gestão e marketing esportivo da Faculdade de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), por mais que o mundo viva em constante estado de polarização hoje em dia, o Super Bowl já se consolidou como um megaevento esportivo globalmente conhecido. E a estratégia da NFL de manter o show de Bad Bunny no intervalo só reforça a confiança da liga no seu negócio, que move bilhões de dólares no dia do jogo.
“É muita pretensão achar que a liga fica preocupada em fazer algo para polarizar ou ofender alguém. Ela tem um negócio que dita tendências no mundo todo”, diz ele. “No dia do jogo, tem muita gente que liga a TV só para ver o show. É uma decisão de negócios e não política. Quem patrocina o intervalo é a Apple, e eles não iriam se colocar numa situação complicada”.
Toledo lembra ainda que, apesar de possíveis reações contrárias ao cantor Bad Bunny, ele representa a comunidade latino-hispânica residente nos Estados Unidos, que soma aproximadamente 70 milhões de pessoas, portanto, potenciais espectadores aos olhos de marcas e negócios envolvidos na relação do evento. E só no Super Bowl, a estimativa da liga é que mais de 150 milhões de espectadores espalhados pelo mundo assistam ao jogo.
"É a maior liga de esportes do mundo. Ela anunciou para o ano que vem jogos em Londres, Paris, Cidade do México, Munique, Melbourne, Madri, Rio e São Paulo. E cada vez mais vezes se torna uma liga internacional. É muito difícil ir contra a magnitude de um evento desses”, afirma Toledo.
Ele ainda frisa que no ranking dos 10 times esportivos mais valiosos do mundo, nove são de franquias da NFL, algo impressionante quando se compara a força do futebol como esporte mais popular do mundo. “Todo mundo acha que o Real Madri é a marca mais valiosa, mas não chega aos pés dos times da NFL.”