A escritora Clarice Lispector não precisou de mais que 88 páginas para escrever um dos romances monumentais da língua portuguesa, A hora da estrela, publicado em 32 idiomas nos cinco continentes. A partir de uma empatia rara e da observação sensível do próximo, ela colocou como protagonista a jovem nordestina Macabéa, de origem humilde, que vai viver como datilógrafa quase invisível no Rio de Janeiro.
Invisível porque veste com simplicidade, cresceu mal alimentada, ganha mal, mora mal e, não que seja feia, mas não consegue se cuidar e se colocar dentro dos padrões de beleza da classe média ou da elite. É virgem e inócua porque homem nenhum a quer, como escreve a autora — “Como ela, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa”.
O livro foi lançado em outubro de 1977, menos de dois meses antes da morte de Clarice. Em 1985, sua adaptação para o cinema por Suzana Amaral deu à atriz Marcela Cartaxo um Urso de Prata no Festival de Berlim. Na próxima semana, chega às livrarias pela editora Rocco A hora da estrela: graphic novel, a não menos comovente adaptação para os quadrinhos do romance.
O roteiro é da premiada escritora e roteirista gaúcha Leticia Wierzchowski, autora de mais de 30 livros de ficção para adultos e crianças, com destaque para A casa das sete mulheres — transformada em minissérie da Globo, em 2023, e sua primeira experiência em adaptação para os quadrinhos, no mesmo ano. Coube à artista visual e educadora mineira Line Lemos cuidar dos desenhos.
Nessa releitura do livro, o formato da HQ tem um detalhe importante. Foi impressa em duas cores (preto e ocre) para, como Line conta ao NeoFeed, fugir de um realismo que poderia soar estranho à obra clariceana. Pelo mesmo motivo, ela evitou o preto e branco.
Além disso, em alguns momentos, os traços descompromissados com o academicismo e o convencionalismo, mais próximos do estilo underground, buscam inspiração na xilogravura, estilo de impressão muito comum na literatura de cordel e no universo da cultura nordestina.
Ao mesmo tempo que é fiel ao texto original e ousada na medida certa, tanto no roteiro quanto nos desenhos, a saga de Macabéa em quadrinhos passa ilesa à dificuldade que roteiristas e desenhistas costumam ter ao transpor romances para HQ.
As autoras não exageram na citação de trechos do livro original. Mas imprimem densidade ao roteiro pelo visual, com desenhos expressivos, que enfatizam o sofrimento da personagem.
Nos últimos anos, Clarice foi “redescoberta”. Nas redes sociais, frases dos livros da escritora viralizaram, enquanto virava referência para estrelas internacionais, como a atriz Cate Blanchett e as cantoras Lorde e Olivia Rodrigo.
Ao mesmo tempo, a trama de Macabéa, que já era o maior best-seller da autora, voltou à lista dos mais vendidos em outubro de 2024 — sem uma explicação plausível — e não saiu mais.
Tudo isso fez com que a Rocco convidasse Leticia Wierzchowski para dar vida visualmente ao livro. Missão aceita, ela superou a fama de Clarice de ser uma autora “difícil” e “hermética” e com a fama de criar histórias praticamente “inadaptáveis” para outras linguagens artísticas.
O tempo psicológico
Parte dessa reputação da escritora, conta ela, deve-se ao fato de que, em sua escrita, o tempo é psicológico, marcado pelas emoções e fluxos de consciência dos personagens, em vez de seguir a progressão linear dos acontecimentos.
Letícia e Line levaram mais de um ano para concluir o livro. Da parte da roteirista, acostumada a trabalhar com audiovisual em movimento, ajudou seu crescente interesse por essa arte gráfica: “Tive um ex-marido que sempre amou muito as histórias em quadrinhos e me apresentou a esse mundo, que me levou a adaptar meu próprio romance”, explica ao NeoFeed.
O pedido lhe trouxe um enorme desafio, observa Letícia: “Eu sou uma pessoa que aprende fazendo. Construí a narrativa pensando como um roteiro, imaginei de que forma poderia contar uma história com palavras e imagens”. A maior dificuldade, lembra ela, não era a obra em si, mas a autora, “essa persona fortíssima que é Clarice”.
Seu zelo se estendeu aos mínimos detalhes: “Tentei tirar dali o DNA dela para compor o roteiro que seria desenhado, procurei o que é visceral na história, busquei o que tinha de ser valorizado da obra e, ao perceber que tinha algum espaço nessa transposição, agreguei algumas coisas para situar a história visualmente”.
Nesse processo, Letícia optou por enfatizar a empatia de Clarice a partir de frases tocantes de sua narrativa. Em uma delas, o narrador diz: “Limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça de 19 anos numa cidade toda feita contra ela.”
Com três álbuns de quadrinhos publicados em dez anos de carreira, Line diz que a responsabilidade não podia ser maior como desenhista.
Não teria sentido, acrescenta, fazer algo o mais próximo possível do livro e do filme de Suzana Amaral, duas obras acabadas e bastante redondas, na sua opinião. “Busquei outras referências visuais, como a xilogravura, uma arte com a qual eu já tinha aproximação, trabalhei em outros momentos.”
E, assim, Letícia, com o texto, e Line, com as imagens, deixam o leitor hipnotizado. Ainda mais, com o final devastador da história.