Em uma noite fria de 2016, perto da cidade de Adana, no sul da Turquia, o agricultor curdo İzzettin Akman viu um caminhão despejar sorrateiramente lixo à beira de seus pomares e incendiar os resíduos antes de partir. Ele correu até o local para entender o que acontecia e passou cerca de uma hora apagando as chamas para evitar que o fogo se espalhasse pelos laranjais.

Ao examinar o que restara dos dejetos, encontrou embalagens de doces e cosméticos com rótulos em euros e libras. Percebeu, então, que o lixo não vinha da Turquia, mas da Europa. Por décadas, o agricultor viveu da exportação de laranjas e limões para a Europa, até descobrir que, ironicamente, o continente passara a devolver lixo às margens de seus pomares.

Após uma dessas operações clandestinas, suas árvores começaram a amarelar, a perder frutos e, em pouco tempo, pararam de produzir. A queima do lixo matou polinizadores, e os fragmentos de plástico transformaram-se em microplásticos que contaminaram a irrigação e as raízes das plantas. Embora o pomar tenha se recuperado, a região de Adana passou a receber cada vez mais resíduos.

A história de Akman abre o livro As guerras do lixo: Os despojos de um negócio global bilionário, de Alexander Clapp, um dos mais importantes lançamentos de 2025 e que chega ao Brasil no fim de fevereiro pela Editora Zahar. A obra é resultado de meticulosa investigação jornalística que durou dois anos em cinco continentes e revela o mundo dos gângsteres por trás da realidade catastrófica do comércio global de lixo.

O negócio é realizado de forma clandestina, com o propósito de despachar os restos do consumo dos países ricos da Europa e da América do Norte para continentes distantes, paisagens intocadas e economias necessitadas. Clapp visitou lixões e aterros sanitários ao redor do mundo e desmascara um esquema criminoso que não para de crescer.

Colaborador de publicações como The New York Times, The Economist, London Review of Books e Guardian, o autor revela disputas sobre o que fazer com os milhões de toneladas de resíduos gerados todos os dias e que deram origem a verdadeiras guerras travadas em quase todos os lugares do planeta.

A regra é: pague que a gente dá um jeito nos seus dejetos. O que acontece em seguida vai de escaramuças de fronteira entre países a ações que fazem o lixo viajar por milhares de quilômetros e atravessar vários oceanos. Para Clapp, independentemente da escala, há algo verdadeiro sobre quase todas essas ações: poucas pessoas têm qualquer ideia de que elas estão acontecendo.

No processo de apuração, ele seguiu o rastro do lixo pelo mundo, conversou com chefes de organizações criminosas da reciclagem, desmanteladores de cruzeiros na Turquia, catadores de plástico na Tanzânia, ativistas do meio ambiente na Guatemala e jovens que desmontam e queimam celulares e televisores ocidentais por centavos a hora em Gana.

O jornalista concluiu que grande parte do lixo tem uma vida posterior secreta. Enquanto uma parcela é enterrada ou jogada na beira de estradas, outra bem maior não tem mais onde ser posta e precisa sumir da vista das populações ricas. O lixo vira produto e alimenta um mercado bilionário, vendido, revendido ou contrabandeado de um país para outro, com consequências devastadoras e todo tipo de disputa, desde conflitos por fronteira, mercado e território à luta pela preservação ambiental.

Clapp mostra que boa parte do que está sendo “reciclado” não é realmente reaproveitado. Em vez disso, esses materiais frequentemente são exportados ilegalmente, acabam em aterros em outro país ou são processados de forma perigosa por trabalhadores sem proteção. A prática da reciclagem é apresentada como uma solução ecológica, porém, na realidade, muitas vezes funciona como um “cavalo de Troia” que desloca o problema do lixo para outros lugares.

Com 440 páginas, o livro custa R$ 119,90

Esse comércio é comparado a mercados ilícitos, opera com pouca regulamentação e muita corrupção. O fluxo de resíduos segue padrões históricos de desigualdade global: países ricos de fato produzem muito mais lixo, mas enviam esse problema para países pobres que não podem arcar com os impactos ambientais e de saúde. Essa dinâmica faz com que populações vulneráveis sofram com poluição, doenças e prejuízos econômicos que não causaram.

Embora Clapp não use o termo "gangster" literalmente para essas pessoas, ele descreve como grupos e indivíduos em Agbogbloshie (distrito de Accra, Gana) operam em uma economia de lixo altamente informal e até predatória. Eles coletam grandes volumes de lixo eletrônico importado do Ocidente, desmontam dispositivos para extrair metais preciosos e participam de esquemas que, por vezes, envolvem atividades criminosas ou fraudadoras (por exemplo, reutilizar dados pessoais em dispositivos recuperados).

Por outro lado, mostra como o silêncio sobre o assunto é político e serve para que os maiores produtores e exportadores de detritos mantenham encoberta a sujeira, literal e moral, de uma globalização tenebrosa que vem de longe. “No mundo da sucata, tudo o que você realmente precisa é de um smartphone”, contou-lhe Nathan Fruchter, ex-trader de sucata de aço da Glencore que atuava nas repúblicas pós-soviéticas.

“O mais importante é saber quem conhecer”, disse Patty Moore, uma das maiores comerciantes de plástico da Califórnia. “Quando você pensa no comércio de lixo, pense no tráfico de drogas”, explicou Teodor Niț, promotor romeno que rastreia remessas de resíduos vindas da Europa Ocidental. “Só que o lixo se move dos lugares ricos para os pobres”, acrescentou.

Eles devem sua existência à globalização, diz o autor. “Mas, em muitos aspectos, operam em desafio a ela, enfiando cunhas em brechas legalistas das cláusulas do comércio internacional, explorando as diferenças nebulosas de definição que separam ‘lixo’ de ‘sucata’ e de ‘recursos’, e prosperando com o fato de que, dos quarenta mil contêineres de carga que hoje serão carregados ou descarregados nos portos de Shenzhen ou Roterdã, apenas uma fração é aberta e menos ainda é inspecionada”.

Apesar da abundância de dados, o comércio global de resíduos permanece pouco compreendido. A União Europeia estima que o tráfico ilegal de lixo seja mais lucrativo que o de pessoas, e a ONU concluiu que o comércio mundial de plásticos foi 40% maior do que se pensava, superou até mercados como armas e madeira. Em 2017, uma investigação da Interpol revelou que quase nenhum comerciante de lixo se preocupa em ocultar suas atividades, já que os países veem o lixo como um passivo a ser simplesmente eliminado.

Foi esse negócio gigantesco e opaco que o autor decidiu investigar em profundidade, país por país e tipo por tipo de resíduo. O Brasil não entrou em seu radar, ainda.