San Pedro de Atacama — É noite de lua nova em Uyuni, na Bolívia. O vento frio dos Andes corta o céu sem nuvens. De carro, entramos no maior salar do mundo, fugindo da iluminação tênue do parque temático Sueños y Leyendas, inaugurado há menos de um ano junto ao Palácio de Sal, primeiro hotel de luxo do mundo construído com blocos do mineral que ali abunda.

Em minutos, breu absoluto e lá estão elas, de ponta a ponta da cúpula terrestre, com cores, intensidades e tamanhos diferentes, quase tocando o solo. Milhares e milhares de estrelas.

Para quem se acostumou a ver apenas pequenos pontos brilhantes em meio à crescente poluição luminosa das cidades, vivenciar a imensidão do universo a olho nu pode ser uma experiência inesquecível. Assim como é presenciar um eclipse solar, a aurora boreal ou dar um mergulho na Via Láctea com a ajuda de poderosos telescópios. São vivências como essas que têm movimentado o setor de turismo em todo o mundo, com o chamado astroturismo.

“O lançamento do filme Interstellar em 2014 e as imagens postadas nas redes sociais, principalmente durante a pandemia, impactaram muito no interesse do público pelos mistérios e belezas do universo”, aponta ao NeoFeed David Pérez Ibañez, responsável comercial pelo observatório Space, em San Pedro do Atacama, no Chile, que nos últimos anos viu a demanda crescer “entre 20% e 30%”.

De acordo com o Experiential Travel Trends 2026, estudo da ALL Accor, em parceria com a Globetrender, quase 60% dos 4,3 mil viajantes entrevistados no Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Índia, Austrália e China se sentem desconectados da natureza e 69% planejam viagens para vivenciar fenômenos sazonais e naturais específicos.

Levantamento do Booking.com no fim de 2024 indica que dois terços dos turistas brasileiros consideram visitar destinos com céus mais escuros para observar os astros nos próximos anos.

“O astroturismo conversa com a busca por conexão e slow travel que são apontadas como tendências há alguns anos no turismo. Mas, à exceção da aurora boreal, que é um motivador por si só, as demais atividades ainda precisam estar associadas a um combo de atrativos nos destinos para se venderem”, afirma Gabriela Figueiredo, CEO e sócia da produtora de viagens de luxo Matueté, em entrevista ao NeoFeed.

Nada está garantido

No fim de 2025, a empresa se lançou a criar roteiros personalizados para os interessados em acompanhar os eclipses totais previstos para o mês de agosto em locais como Islândia, Groenlândia, Espanha (2026), Egito e Marrocos (2027), onde se calcula que o fenômeno terá melhor visibilidade, por período mais longo (o que, na verdade, se trata de minutos).

“Mas nada é garantido, afinal, estamos lidando com a natureza. Isso precisa estar sempre claro para quem compra o pacote”, avisa o guia Alejandro Chacon, da Hidalgo Tours, acostumado a lidar com o deslumbramento e também com a decepção de turistas no altiplano boliviano. “O inverno, época de seca, é sempre melhor para ver o céu. Mas as condições climáticas podem mudar muito rápido”, explica.

Hóspedes do hotel Palácio de Sal também podem fazer observações com auxílio de telescópio e acompanhamento de astrônomo. Ambas as experiências estão incluídas no pacote de hospedagem, que tem preços a partir de R$ 2,3 mil (US$ 452) na baixa temporada.

A partir de € 170 mil, por pessoa, a Teresa Perez Tours oferece um passeio pela estratosfera a bordo do balão da empresa francesa Zephalto (Foto: Divulgação)

O Nayara Alto Atacama dispõe de observatórios internos (Foto: Divulgação)

Hóspedes do hotel Palácio de Sal também podem fazer observações com auxílio de telescópio e acompanhamento de astrônomo (Foto: Divulgação)

No Hotel das Cataratas, no Paraná, a observação de estrelas conta com a consultoria do especialista em astronomia, Janer Vilaça (Foto: Divulgação)

No Atacama, onde a combinação única de altitude elevada (acima de 2.500 metros) e baixas taxas de umidade e de poluição luminosa garante mais de 300 noites limpas no ano, o movimento em torno do assunto não para.

Enquanto hotéis de luxo como o Nayara Alto Atacama já nascem com observatórios internos, operadoras locais começam a investir em pontos próprios para oferecer uma experiência mais completa a turistas de todos os perfis.

Foi o que fez recentemente a Horizonte Turismo, que, após três anos deslocando diariamente seus três telescópios para pontos estratégicos do deserto, inaugurou, em dezembro, uma estrutura fixa de 5 mil metros quadrados, para até 18 pessoas em cada um dos três horários noturnos.

Com duração de cerca de duas horas, a experiência foi pensada para atender ao interesse de diferentes públicos.

“Os brasileiros chegam focados em registrar o céu em fotos e chegam a fazer ensaios de três horas com profissionais especializados. Já os europeus querem explorar o lado mais científico e técnico da astronomia. São dinâmicas diferentes”, diz Ricardo Novoa, coordenador de grupo e eventos do Nayara Alto Atacama.

Para observar a Terra

No Brasil, o número de interessados no assunto também cresceu. O Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro, foi o primeiro da América Latina a entrar, em 2021, na seleta lista da associação DarkSky, conhecida por mapear e ajudar a proteger os lugares mais escuros do planeta.

Desde então, a unidade de conservação viu o volume de turistas crescer mais de 300%, chegando a 11 mil visitantes ao ano. Hotéis localizados em regiões conhecidas por ter grande visibilidade noturna também vêm se movimentando para oferecer a experiência aos hóspedes.

Caso do Hotel das Cataratas, da rede Belmond, instalado dentro do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Feito em parceria com o especialista em astronomia, Janer Vilaça, o passeio em um dos mirantes que levam às quedas d’água custa R$ 900 (tour privado ou R$ 250 por pessoa, para grupos acima de seis participantes). Mais do que dados científicos, apresenta a relação da cultura indígena guarani com o céu.

Localizados próximos ao Círculo Polar Ártico, países como Finlândia, Noruega, Islândia, Groenlândia, Canadá e o estado norte-americano do Alasca seguem em alta para quem está em busca da magia das auroras boreais, mais visíveis principalmente entre os meses de abril e setembro.

Caso o desejo, a coragem e o bolso permitam, a Teresa Perez Tours já tem à venda um passeio pela estratosfera a bordo do balão de baixa emissão de carbono da empresa francesa Zephalto.

A cerca de 25 quilômetros de altitude, a jornada permite contemplar não apenas o espaço, mas, principalmente, a curvatura da Terra e da atmosfera, levando a observação dos astros a outro patamar, no qual o próprio planeta em que habitamos passa a ser o foco principal. A aventura, no limite entre astroturismo e turismo espacial, sai a partir de € 170 mil, por pessoa.