O cinema brasileiro vive um momento único. Após anos sem destaque no exterior, os longas Ainda Estou Aqui, ganhador do Oscar de melhor filme internacional em 2025, e Agente Secreto, recém-eleito o melhor filme de língua não inglesa no Globo de Ouro e com quatro indicações para o Oscar deste ano - melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator para Wagner Moura e melhor elenco -, voltaram os holofotes para o talento e a capacidade nacional de produzir obras que se igualam – ou até superam – às caras produções de Hollywood.
Nesse cenário, outro brasileiro, alheio ao burburinho dos dois longas, também está sendo reconhecido pela alta cúpula do cinema. Adolpho Veloso, paulistano de 36 anos, é outro representante brasileiro em busca da estatueta. Ele concorre na categoria de melhor fotografia por seu trabalho em Sonhos de Trem, longa americano escrito por Denis Johnson e dirigido por Clint Bentley.
Caso leve o Oscar para casa, esse será o segundo prêmio ganho por Veloso com o filme. No Critics Choice Awards deste ano, ele foi reconhecido pela mesma categoria (de melhor fotografia) deixando para trás grandes nomes da indústria como Autumn Durald, de Pecadores, e Claudio Miranda, do F1.
“O cinema e os profissionais brasileiros sempre foram incríveis e eu acho que esse reconhecimento é até tardio”, afirma Veloso, em entrevista ao NeoFeed.
“Mas é bom que isso aconteça, que o cinema brasileiro fique na moda de certa maneira e que estejamos mostrando que não é algo esporádico, que acontece de 20 em 20 anos, e sim que temos produções premiadas por dois anos seguidos, o que é incrível”, complementa.
Veloso é parte essencial desse movimento. Seu sonho de trabalhar com cinema surgiu cedo, quando ainda era apenas uma criança. Para ele, assistir filmes era quase como uma terapia – mesmo que ainda não soubesse o significado dessa palavra.
O ato era uma verdadeira maneira de se transportar para outros universos e ser tocado por eles, sensação que gostaria de poder transmitir para as pessoas no futuro.
Foi essa ambição que o levou à faculdade de cinema, na qual agarrou todas as oportunidades que passaram por sua frente, ocupando cargos como assistente de produção e direção. Seu primeiro projeto na posição de diretor de fotografia foi um clipe musical feito para um amigo, seguido por um curta e, então, por diversos outros trabalhos, principalmente no ramo da publicidade.
Aos poucos, seu nome se tornou conhecido no mercado nacional e também no exterior, o que o levou a morar em Lisboa, Portugal, onde estaria a uma curta distância de qualquer projeto desenvolvido no hemisfério norte.
A virada de chave, que colocou Veloso em destaque para o mundo do cinema, ocorreu após a participação no documentário On Yoga: Arquitetura da Paz, lançado em 2017. Foi ele que, entre tantas produções, chamou a atenção do diretor e roteirista americano Clint Bentley, que buscava por um profissional com capacidade de transitar entre a ficção e o documentário com maestria.
“Eu me lembro que não queria fazer esse documentário, porque sempre achei que meu primeiro longa seria uma ficção e pensei que, com aquele convite, apesar de incrível, estaria seguindo para o caminho errado”, conta Veloso. “Eu não poderia estar mais errado, já que foi ele que me levou ao Clint e à ficção”.
Com essa conexão, Veloso foi convidado para dirigir a fotografia de Jockey, longa de Clint lançado em 2021, e selecionado novamente para Sonhos de Trem, obra que ainda deve render muitas premiações a ele.
A próxima, quem sabe, pode vir em breve, com a tão esperada estatueta do Oscar.
Os desafios do cinema
Apesar das recentes comprovações de seu sucesso, Veloso ainda sente, em grande parte das vezes, que está fazendo tudo errado.
“É muito difícil fazer cinema. Eu costumo falar que ou você não vai dormir porque está trabalhando demais ou porque está ansioso por não ter trabalho, não tem o meio-termo”, conta ele. “Então é muito difícil sentir que você realmente está tendo êxito na carreira”.
Ele conta que, na hora da prática, os projetos dão mais errado do que certo, já que não é sempre que você tem um filme de que as pessoas gostem ou que te leve a festivais e prêmios. “No final do dia, é muito mais suor, sangue e lágrimas do que qualquer coisa, sabe?!”, complementa.
Ele reforça, porém, que isso não quer dizer que não vale a pena – ao contrário. Ao receber mensagens sobre pessoas que foram tocadas por obras que ele participou, como aconteceu com Sonhos de Trem, os problemas se tornam apenas um detalhe.
É por essa sensação que Veloso trabalha tanto, aquela que sua versão infantil sentia ao assistir filmes, anos atrás. E é pela busca desse sentimento que ele se tornou tão seletivo com os projetos que decide participar. Para ele, ou a história é realmente incrível, ou não vale a pena.
“Uma coisa que aprendi durante a vida é que, se você faz um projeto que realmente acredita e se identifica, a chance de ter sucesso e ser um bom trabalho é bem maior”, diz Veloso. “Encontrar esses projetos leva tempo”.
Pensando no futuro, o diretor afirma que ainda há muitos sonhos a serem realizados – e um deles seria dirigir uma obra brasileira.
De uma coisa, Veloso tem certeza: ele ainda está longe de atingir seu potencial pleno. E o público agradece por isso.