A N1 nasceu na Sapucaí. Em 1991, José Victor Oliva firmou uma parceria com a Ambev para criar o então Camarote Brahma, que mais tarde se tornaria o Camarote Nº1. Ao longo das últimas décadas, o espaço virou um dos pontos mais disputados da passarela do samba, reunindo celebridades nacionais e internacionais como Silvia Braz, Alok, Maradona e Arnold Schwarzenegger. Neste ano, a expectativa é que o camarote receba Ronaldo Fenômeno e Carlo Ancelotti.
Foi o Carnaval que impulsionou a empresa e ajudou a construir o prestígio da marca. Mas, para continuar crescendo, a N1 terá de depender cada vez menos da festa — e, sobretudo, das receitas que vêm da principal passarela do samba.
A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), a principal associação que organiza o carnaval do Rio de Janeiro, vem redesenhando as regras do jogo, padronizando serviços, restringindo ativações e criando novas cobranças que apertam a operação do Camarote Nº1 justamente no momento em que o setor perde um colchão relevante de rentabilidade, o PERSE, programa federal que ajudou a sustentar a retomada dos eventos no pós-pandemia.
O diagnóstico dentro da Holding Clube (dona da marca e da plataforma N1) é que o Carnaval segue como pilar, embora tenha virado um negócio “mais difícil de planejar”. Isso porque a Liesa passou a capturar parte de receitas e a centralizar fornecedores e contratos antes negociados diretamente pelos camarotes.
Há três anos, toda a venda de ingressos do Rio Carnaval passou a ser feita por uma única tiqueteira, a Ticketmaster, com controle unificado de acessos e base de dados consolidada, o que levou a N1 a desfazer sua parceria com a Ticket360.
Depois, o mesmo aconteceu com o Wi-Fi, antes operado no camarote pela Claro. E o movimento mais recente envolve energia: em vez de cada camarote montar sua própria “ilha” de geradores — com acordos comerciais e até permutas com fornecedores —, agora os camarotes vão ter que contratar o serviço por meio da Liesa, a um preço tabelado.
“Tem fornecedor que virava e falava: ‘eu faço de graça em troca disso’. Eu não tenho mais essa possibilidade”, diz Márcio Esher, sócio-diretor da Holding Clube.
As restrições também afetam os patrocínios. No caso das bets, o Camarote Nº1 pode fechar acordos desde que não haja exposição visual, como camisetas ou placas, ficando restrito a ações com influenciadores.
Na prática, segundo o grupo, isso reduz o interesse comercial. Em um dos ciclos recentes, a estimativa é de que o camarote tenha deixado de faturar cerca de R$ 5 milhões em patrocínio com as mudanças nas regras da Sapucaí.
Hoje, o camarote trabalha com cerca de R$ 42 milhões de investimento para aproximadamente R$ 50 milhões de faturamento, e o próprio grupo admite que, com o novo ambiente, o Carnaval tende a “não crescer muito”.
Ainda assim, a N1 evita colocar a Liesa como vilã. Há um apoio explícito ao reposicionamento da liga como “hub de negócios” que amplia a receita para o desfile.
“Apoiamos muito essa movimentação, porque a gente sabe que essa melhoria para as escolas está acontecendo”, diz Tatianna Oliva, CEO da Cross Networking, braço de parcerias do grupo. “Esse era o objetivo principal: gerar mais dinheiro para o desfile, para as escolas. A gente entende isso.”
Procurada pelo NeoFeed, a Liesa confirmou que há três anos implantou um novo modelo de negócios que passou a concentrar todas as vendas de ingressos, seja camarotes ou arquibancadas, em uma única tiqueteira, mas não respondeu sobre as demais mudanças implementadas em serviços na Sapucaí.
A liga também disse que possui uma bet entre os patrocinadores, mas que os camarotes "podem ter patrocínios de outras bets, ainda que, como em outras situações, não haja visibilidade para a área de desfile".
Dançando fora da Sapucaí
Fato é que, para além desse pano de fundo, o desafio aumenta em 2026, quando o Camarote N1 completa seus 35 anos, com o fim do PERSE (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), criado pelo governo como uma das medidas para salvar empresas em meio à pandemia.
Por enxergar esse cenário como estrutural, a Holding Clube acelerou a estratégia de diversificação. Em 2025, o Clube N1 — guarda-chuva que reúne as experiências e iniciativas proprietárias — movimentou cerca de R$ 75 milhões em faturamento. Para 2026, a projeção é crescer 15% sobre essa base, com um detalhe: parte relevante desse crescimento virá de fora do Carnaval.
A primeira estratégia é manter o desejo pela marca aceso durante o ano inteiro, vendendo itens desenvolvidos por meio de collabs. No Carnaval, a loja posicionada no local onde as camisas eram customizadas já mostrou força até em itens caros: uma linha de bolsas de R$ 2,5 mil esgotou no ambiente do evento no último ano.
Agora, a ideia é que as edições especiais continuem no marketplace dos parceiros e em pontos físicos fora da festa. Para 2026, o plano inclui 15 marcas e cerca de 20 SKUs no total. “Não é mais sobre ‘fui lá e comprei uma lembrancinha’. É sobre conversar com esse convidado ao longo do ano”, afirma Tatianna.
A segunda frente de crescimento é a expansão do calendário de eventos proprietários, que permite diluir a dependência do Carnaval ao longo do ano e atingir públicos em diferentes momentos e faixas etárias. A lógica é usar a força da marca N1 na Sapucaí como vitrine para criar experiências replicáveis em outros contextos.
No Réveillon, o grupo aposta no Arcanjos N1, realizado em Barra de São Miguel (AL), com proposta de festival de praia premium e público mais jovem. O evento funciona como “porta de entrada” para a marca, criando relacionamento com uma nova geração que, no futuro, tende a migrar para o Camarote Nº1 no Carnaval.
Já em anos de Copa do Mundo, a empresa ativa a Torcida Nº1, um megaevento realizado no Jockey Club, em São Paulo, com telão, open bar, atrações musicais e experiências de marca. Para a companhia, trata-se do “carnaval do meio do ano”, com alto apetite de patrocinadores e maior previsibilidade de receitas corporativas.
No eixo internacional, a N1 também levou seu conceito de hospitalidade para dentro do Tomorrowland Brasil, com a criação da Arena 1, uma área premium dentro do festival. Depois de ter sido sucesso, o projeto está confirmado para voltar em 2027, quando o evento retorna ao País. Segundo o grupo, a iniciativa acelerou o posicionamento global da marca, atraindo público estrangeiro para o carnaval e fortalecendo o N1 como plataforma de experiências premium fora da Sapucaí.
A terceira alavanca é o ecossistema empresarial. A Holding Clube nasceu em eventos, mas foi criando empresas a partir das demandas do próprio mercado e hoje usa essa estrutura para gerar receita fora da Sapucaí e ganhar resiliência. No portfólio estão Banco de Eventos (1988), Agência Samba (2006), Cross Networking (2008), Storymakers BR (2016), Roda Trade (2017; núcleo que virou agência em 2019), Auíri (2021) e Bossa Experience (2025), focada no mercado de viagens de incentivo.
Assim, a N1 pretende que o Camarote Nº1 siga como ícone, enquanto o faturamento cresce em produtos, plataforma e eventos que podem acontecer em qualquer mês.
O grupo também pretende construir uma fonte de receita digital ao estrear neste Carnaval um aplicativo próprio do Camarote Nº1. A plataforma, que começa como MVP, vai concentrar informações em tempo real sobre o evento, mapas de acesso, programação, avisos operacionais e conteúdos exclusivos para os convidados.
A ideia é transformar o app em um canal permanente de relacionamento com a base de consumidores ao longo do ano, integrando benefícios de parceiros, ofertas exclusivas e ativações de marcas, gerando, no futuro, receita publicitária.