O mercado brasileiro de gestão de recursos sofre de uma espécie de escassez crônica de conhecimento compartilhado. Gestores se comunicam via cartas mensais ou trimestrais com seus cotistas. Mas raramente vemos alguém sentar e destrinchar como realmente pensa sobre alocação, análise de risco ou construção de portfólio.

Nos Estados Unidos, é diferente. Howard Marks, da Oaktree Capital, escreveu "O mais importante para o investidor"; Joel Greenblatt, da Gothan Capital, tem o “A fórmula mágica para bater o mercado de ações”; e Ray Dalio, da Bridgewater, assina o best-seller “Princípios”.

São poucos exemplos para uma biblioteca muito mais extensa de gestores americanos. Por lá, parece que dividir conhecimento não diminui vantagem competitiva. O resultado parece ser que o conhecimento atrai capital mais sofisticado.

Por aqui, Gabriel Esteca, sócio da Bocaina Capital, está fazendo algo raro ao lançar "Fundos de Infraestrutura na Prática". No livro, o gestor de FI-Infra mostra como pensa ao montar um portfólio, quais métricas usa e como pondera riscos.

A parte mais interessante é que Esteca vive diariamente a gestão de fundos de infraestrutura e passa longe da teorização acadêmica. Seu trabalho é estruturar emissões, analisar projetos, montar portfólios. É essa credibilidade que está refletida nas 176 páginas do livro.

Quem opera nesse mercado tem em mãos um potencial de R$ 4 trilhões. É esse o montante que o Brasil precisa investir em infraestrutura nos próximos anos apenas para alcançar níveis minimamente adequados de saneamento, logística e energia.

No entanto, o FI-Infra como classe de ativos ainda é um “grão de areia” - bilionário, sim, mas pequeno. O patrimônio líquido dos FI-Infra listados na B3 cresceu de praticamente zero em 2020 para mais de R$ 15 bilhões em 2025.

Mas o elemento mais valioso do livro não são os grandes números do mercado, e sim como um gestor pensa tecnicamente.

Fundos de Infraestrutura Livro Gabriel Esteca
Fundos de Infraestrutura na Prática, de Gabriel Esteca. Editora Labrador. Preço sugerido R$ 54,60

A certa altura do livro, Esteca desmonta a estrutura de um projeto de infraestrutura e mostra quem são os participantes (acionistas, construtores, operadores, reguladores), quais os riscos de cada setor (geração de energia, linhas de transmissão, saneamento, rodovias, portos) e como analisar cada camada de risco.

Sobre a construção de portfólios, o especialista cria cinco fundos teóricos com estratégias diferentes (high yield, beta, duration curta, pulverização e ponderada) e analisa cada um usando métricas reais, ou seja, duration, rating médio, retorno e Índice Herfindahl-Hirschman (IHH) para medir concentração.

Outro exemplo é a discussão sobre hedge. Ele explica não só o "como" (usar contratos DAP para transformar IPCA+ em CDI+), mas o "quando" e "por quê". Esteca mostra que hedge total elimina o ganho potencial de fechamento da curva de juros reais, mas que hedge parcial ou dinâmico exige timing (e timing é difícil).

Esteca divide o conteúdo em aspectos regulatórios dos FI-Infra e FIP-IE (parece burocrático, mas é essencial para entender as regras do jogo), os fundamentos de renda fixa e valuation e a avaliação de projetos e riscos.

É claro que este não é um livro para iniciantes em investimentos. É preciso ter um certo conhecimento prévio de finanças para saber o que é duration ou fluxo de caixa descontado. Quem está no “módulo” Tesouro Direto vai precisar pausar a leitura para buscar esses conceitos - embora o melhor seja encerrar uma etapa antes de saltar para a próxima. O autor não fez do livro um manual introdutório ao tema.

Mas os investidores que alocam em FIIs, CRIs, debêntures ou fundos de crédito privado vão poder aproveitar o conteúdo. E profissionais de renda fixa e crédito do mercado financeiro terão uma (outra) visão de como analisar projetos de infraestrutura.