O ano de 1958 entrou para a história da música no Brasil pelo nascimento da bossa nova, de João Gilberto, e pela estreia em disco de Celly Campello, mãe do rock brasileiro com Estúpido Cupido — sem contar, claro, a conquista do primeiro mundial de futebol, na Suécia. Mas 1958 foi ainda mais especial para o garoto Nazaré Avedissian, na virada de seus 14 para 15 anos.
Naquele ano, ele conseguiu seu primeiro emprego, de office-boy em uma distribuidora de tecidos. Depois, foi trabalhar em uma fabricante de papel e até vendeu calçados. Nazaré, no entanto, não precisou de muito tempo para tomar a decisão de sua vida: não seria empregado de ninguém. Queria, sim, ser patrão de si mesmo, como gosta de dizer. Para isso, ele precisava trabalhar além da conta e juntar dinheiro.
E foi o que fez nos anos seguintes, de forma obstinada. Quando deixava o expediente, Nazaré, que só tinha cursado o primário, ganhava um extra na loja de discos "S Different", na movimentada e elegante Avenida Ipiranga, no centro da capital paulista.
No início da década de 1960, São Paulo vivia a explosão do consumo de discos. Eram pelo menos duas dezenas de lojas apenas entre a Rua São Bento e a Praça da República, um trecho de no máximo três quilômetros a pé.
Difícil acreditar, mas ele, em sete anos, poupou dinheiro suficiente para dar entrada na sua própria loja de discos. Sabe quando a sorte bate na porta de uma pessoa? Aconteceu com Nazaré. E, assim, em 1965, o jovem Nazaré comprou a Orbradil, perto dali, cujo dono estava mais interessado em investir em boates e lhe ofereceu o negócio. Fez um parcelamento tão generoso em confiança ao rapaz de 22 anos.
Como conhecia bem a concorrência ao seu redor, concluiu que só iria para frente se a Orbradil ganhasse algum diferencial. Especializou-se em rock e começou a comprar discos usados: colocava anúncios em jornais e ia na casa dos vendedores.
A ideia fez tanto sucesso que mudou o nome da Orbradil para Museu do Disco. Sessenta anos depois, hoje, a loja na Quintino Bocaiúva é uma das últimas do gênero de rua na cidade de São Paulo.
O Museu do Disco de Nazaré era referência em raridades. O problema é que o colecionador costuma ser exigente e vinham reclamações de arranhões e capas danificadas. A saída foi fazer encomendas para quem viajava ao exterior.
Nazaré conquistou amizade com pilotos e comissários de bordo, que lhe traziam discos por encomenda dos Estados Unidos e da Europa. “Eu era rato de aeroporto”, conta ele, hoje com 82 anos, em conversa com o NeoFeed.
O negócio chegou a um ponto de tamanho sucesso que Nazaré barganhava exclusividade de venda com as gravadoras internacionais que tinham representantes no Brasil. “Eu dizia: ‘Quero mil cópias e só eu vou vender isso no Brasil e mais ninguém’ e elas concordavam”, lembra. “The Clash, Sant’anna, George Harrison, só eu tinha, tudo era só meu, ninguém achava em outro lugar para comprar.”
Sem problemas de roubo e assaltos, as lojas do centro ficavam abertas das dez da manhã até a meia-noite. O auge do negócio foi no início da década de 1990, quando Nazaré se tornou o patrão de quase 100 funcionários que tomavam conta de 14 lojas, várias delas nos shoppings mais badalados de São Paulo. Só no Iguatemi, na Avenida Faria Lima, eram três unidades, além de filiais em Campinas e Belo Horizonte.
A concorrência só aumentou a partir da década de 1970. Mas Nazaré resistiu. Com o aparecimento do digital MP3, na segunda metade da década de 1990, no entanto, as vendas despencaram e várias lojas fecharam, inclusive todas as que ele tinha em shoppings e em outras cidades.
Sem queixa da vida
Nazaré não culpa somente a tecnologia pelo encolhimento do negócio, mas uma série de fatores. Sua gestão de funcionários, por exemplo, como reconhece. Ao mesmo tempo, uma centena de lojas de discos foram abertas na Galeria do Rock, ali na região.
O empresário, então, migrou, em 2004, para onde está até hoje. Gentil e educado com todos, adequou seu negócio aos novos tempos e diz não ter do que se queixar da vida.
Com o fim da fabricação de CDs e de DVDs no Brasil, na pandemia de covid-19, ampliou-se a importação dos dois formatos de mídia. Felizmente, algumas distribuidoras voltaram a produzir DVDs e blu-rays, que vêm agora do exterior.
E o negócio vai bem, garante. Virou nicho. Seu público é composto por colecionadores de discos de vinil e CDs e de filmes em DVD e Blu-ray. Na segunda categoria estão também os estudantes de cinema, que diariamente vão lá atrás de clássicos como parte de seu aprendizado. “Meu negócio principal hoje é cinema, algo que sempre amei”, observa. Mas tem um estoque imenso de CDs e vinis.

Para ser um bom vendedor, orienta ele, é preciso ter educação e conhecimento do que vende: “A pessoa entra na loja em busca de um filme; se não tenho, peço um tempo e vou atrás. Acontece de eu ter algo que ele não esperava ou não conhecia, mostro, o cliente compra e sai satisfeito”.
Nazaré não é de chorar as pitangas. Parece conviver bem com os novos tempos e ameniza o impacto das novas tecnologias. O serviço de streaming não abala suas convicções porque, explica ele, o DVD e o Blu-ray têm as vantagens dos extras sobre cada filme; existem produções (como os clássicos) que não costumam interessar às plataformas.
“Muita gente não quer streaming porque não satisfaz as exigências de quem é cinéfilo, de quem não curte séries", afirma. "Além disso, há um número grande de colecionadores que quer ter o filme ‘físico’ em casa.”
Para Nazaré, seu negócio vai muito bem. Tem orgulho de dizer que é a última loja de discos de rua de São Paulo: “Sebos existem muitos, mas não lojas de produtos novos".
Impressiona o modo como “Seu” Nazaré é tratado com carinho e deferência pelos clientes. Laerte Carnachoni, engenheiro civil, de 65 anos, por exemplo, compra discos de rock com ele desde os 12 anos de idade.
“Suas lojas tinham os discos mais legais da cidade, os exclusivos, aqueles que só lá se encontravam”, diz, em entrevista ao NeoFeed.
Nos anos 1970, conta ele, os discos não custavam barato — cerca de 10% do salário mínimo, em média, os nacionais. “Éramos os caras mais duros que existiam em São Paulo, mas, de vez em quando, conseguíamos ir lá, comprávamos um álbum que toda a turma copiava em fita cassete”, diz Carnachoni.
“Você entrava numa loja do Museu e aquilo era uma delícia: um templo da música, um lugar sóbrio, bonito, de bom gosto, decorado com instrumentos musicais dourados”, complementa.
Pai de três filhos e marido da atenciosa Rita, sem esconder a satisfação, Nazaré resume: “Eu queria ser dono de mim mesmo”.