Michael Lewis só precisou de pouco mais de 300 páginas para contar a história de como se chegou ao colapso financeiro de setembro de 2008 em um livro que virou clássico no mundo financeiro dos anos 2000. A Jogada do Século, de 2011, que virou um filme premiado (A Grande Aposta recebeu cinco indicações ao Oscar de 2016) sumiu das livrarias brasileiras desde então e passou a ser disputado em sebos.
A obra finalmente retorna em português este mês com uma novidade: posfácio inédito do autor sobre sua versão para o cinema. Sua consagração de público e de crítica se deve ao modo como Lewis destrincha o que aconteceu nos anos anteriores, até chegar naquele mês e destacar quem se deu bem com a crise.
O jornalista traduz a catástrofe econômica que se tornou global com uma narrativa acessível, mesmo quando tem de explicar conceitos financeiros complexos. Assim, leva ao grande público uma compreensão mais profunda das causas e das falhas do sistema que levaram à crise, algo que outros livros técnicos ou acadêmicos não conseguiram ainda fazer bem, mais de uma década e meia depois.
A gênese de tudo, explica Lewis, teve início depois de anos de crescimento desordenado e quando a ganância dos bancos fez com que o mercado imobiliário americano atingisse seu limite, o que culminou em uma das maiores quebradeiras vistas no mercado. Suas práticas de negociação, escreve ele, iam além de simples transações financeiras: eram fruto da ambição desmedida dos investidores.
E foi nesse contexto que um grupo de investidores independentes identificou o problema que Wall Street ignorou, que o colapso seria inevitável, viu nisso uma forma de lucrar bastante e faturou bilhões de dólares.
O que o mercado imobiliário teve a ver com o que aconteceu? Em um cenário de oscilação das ações, classificações das agências de risco e fraqueza dos órgãos governamentais de fiscalização, os títulos de dívida e os derivativos imobiliários estavam lastreados nas hipotecas de alto risco, majoritariamente concedidas a tomadores com baixa capacidade de pagamento, embora também atingissem parcelas da classe média.
As chamadas hipotecas subprime, portanto, funcionavam como uma espécie de máscara para esconder o verdadeiro valor das dívidas e serviram de base para a expansão artificial do crédito promovida pelo sistema financeiro, o que dificilmente se sustentaria. Dessa forma, operadores conseguiam conduzir negócios que rendiam milhões de dólares da noite para o dia, prática que geraria uma das maiores crises financeiras da história.
Apesar de os operadores de Wall Street repetirem com confiança a falácia de que os investimentos se manteriam firmes, mesmo após os sinais da derrocada, um grupo não se deixou enganar, apostou contra os maiores bancos do mundo e se deu bem – por isso, o título do livro, A Jogada do Século (editora Best Business). Os principais envolvidos são entrevistados por Lewis e esclarecem a trama que mudou os mecanismos do mercado financeiro e da economia global.

Como o autor define, eram investidores excêntricos que estavam intimamente ligados às hipotecas subprime, como Michael Burry, Steve Eisman, Greg Lippmann, Charlie Ledley e John Paulson. E de nomes ligados a instituições financeiras que tiveram papel central na crise, como Lehman Brothers, Citigroup, AIG (American International Group) e Household Finance, então subsidiária do HSBC.
Esses personagens são importantes porque, juntos, permitiram a Lewis explicar 2008 a partir de perspectivas humanas distintas: o gênio solitário, o crítico indignado, os novatos curiosos e o cínico experiente.
O principal personagem do livro é Michael Burry, médico neurologista que fazia a gestão do fundo Scion Capital. Ele se tornou um dos primeiros a perceber que o mercado imobiliário americano estava inflado e que os títulos hipotecários subprime eram insustentáveis. E apostou pesadamente contra esses títulos pelo uso de swaps de crédito, mesmo diante de forte resistência de investidores e bancos. No livro, Burry simboliza o investidor solitário, meticuloso e obcecado por dados, que enxergou a crise antes de quase todos.
O nome de destaque na história foi Steve Eisman, gestor de fundos inspirado em uma pessoa real (Steve Eisman, da FrontPoint Partners), retratado como alguém moralmente indignado com Wall Street. Para ele, o sistema financeiro está estruturalmente corrompido, não apenas equivocado, e ele apostou contra o mercado movido tanto por convicção financeira quanto por revolta ética.
Enquanto ele representa a crítica mais explícita à irresponsabilidade e à ganância das instituições financeiras, Charlie Geller e Jamie Shipley, dois jovens investidores, descobriram, quase por acaso, a possibilidade de apostar contra o mercado imobiliário. Apesar de inexperientes, perceberam a fragilidade dos títulos subprime e montaram uma estratégia ousada, embora dependessem da ajuda de profissionais mais experientes para operar no mercado.
O nome de Ben Hockett apareceu no livro como o trader excêntrico que trabalhava com Geller e Shipley. Ele fazia uma ponte entre os jovens investidores e o mercado financeiro mais sofisticado. Cético, recluso e crítico do sistema, ajudou a estruturar as apostas contra os bancos e demonstrou em sua visão de mundo um profundo desprezo pela cultura de Wall Street. Com isso, reforçou o tom moral e psicológico da narrativa.
No posfácio, Michael Lewis afirma que nunca pensou em A Jogada do Século como um livro passível de adaptação cinematográfica – no Brasil, o filme foi batizado A Grande Aposta. Seu objetivo era narrar a crise financeira de 2008 por meio de personagens excêntricos que apostaram contra o sistema, e não tornar temas técnicos, como swaps de crédito e CDOs, atraentes para o cinema. Cético em relação a Hollywood, escreveu ele, acreditava que os estúdios compravam direitos de livros mais por especulação do que por real intenção de filmá-los.
O que torna a realização do filme ainda mais surpreendente, continua ele, especialmente por tratar de Wall Street. Lewis argumenta que adaptações só acontecem quando há um “acidente favorável”, como o interesse do diretor Adam McKay, que conseguiu viabilizar o projeto. E defende que escritores devem aceitar as mudanças inerentes à venda dos direitos e não interferir no processo, já que não há relação direta entre a qualidade do livro e a do filme.
Por fim, elogia McKay por tornar temas financeiros complexos compreensíveis ao grande público e por aproximar a audiência de um debate crítico sobre finanças e responsabilidade em Wall Street.