A Berkshire Hathaway encerrou uma sequência de 14 trimestres como vendedora líquida de ações no segundo trimestre. Nos seis primeiros meses de 2026, comprou US$ 39,4 bilhões em ações e vendeu US$ 27,8 bilhões. Também recomprou US$ 4,8 bilhões em papéis próprios.
Por trás dessa transformação está Greg Abel, que assumiu como CEO do conglomerado no lugar de Warren Buffett no início deste ano. Desde então, ele começou a tirar a Berkshire de uma posição exclusivamente defensiva. A carteira ficou menor em quantidade de empresas, mais agressiva nas apostas relevantes e mais exposta à inteligência artificial, demanda doméstica americana e infraestrutura - sobretudo energia para data centers.
A Alphabet é um exemplo dessa transformação. A dona do Google virou uma das cinco maiores posições na carteira do conglomerado. A Berkshire saiu de 17,8 milhões de ações no fim de 2025 - Buffett começou a alocação há cerca de 15 meses - para quase 106 milhões entre as classes A e C em junho, uma posição avaliada em aproximadamente US$ 38 bilhões.
"Warren e eu discutimos o tamanho (da participação) e o desconto. Estávamos confortáveis e, no fim, concluímos a transação", afirmou o Abel, em entrevista à CNBC. "Adoramos falar de negócios e sobre o que estamos vendo em nosso portfólio."
Ao ser questionado sobre o que atraiu a Berkshire na companhia, Abel afirmou que vê o Google como um player significativo no segmento de inteligência artificial, área que tem despertado a atenção do conglomerado.
"Temos bastante visibilidade, dentro das nossas empresas, sobre como estamos usando IA e que tipo de benefícios ela está trazendo", disse.
O número de empresas na carteira da Berkshire encolheu de 42 para 29 em seis meses. O conglomerado reduziu posições no setor financeiro e de meios de pagamento. Saiu de Visa e Mastercard e cortou Bank of America, Capital One e Ally Financial. Em contrapartida, aumentou a exposição ao mercado imobiliário americano. E fez uma aquisição integral com a compra da construtora Taylor Morrison por US$ 6,8 bilhões.
O executivo também vê oportunidades para negócios que já fazem parte do portfólio da Berkshire, especialmente com o avanço dos data centers e o aumento da demanda por eletricidade.
"Sempre tive uma convicção forte de que a energia seria o gargalo", afirmou.
Na avaliação de Abel, a limitação está menos na capacidade de produzir energia e mais no tempo necessário para preparar a infraestrutura capaz de atender aos data centers. É nesse ponto que ele vê uma oportunidade para a Berkshire Hathaway Energy.
Para ilustrar, citou o exemplo do estado americano de Iowa, onde a companhia já atende diversos data centers. Cerca de 8% da carga de energia no ano passado veio desse segmento. Abel afirmou que a empresa vê demanda adicional, tanto de clientes interessados quanto de projetos que têm capacidade de atender.
O executivo ponderou que essa expansão precisa seguir alguns critérios. "Estamos interessados em atender esses hyperscalers se não houver impacto nas tarifas dos nossos outros clientes. Na verdade, adotamos a abordagem de que precisa haver um benefício líquido para eles", complementou.
Seria uma mudança no modelo vencedor de Buffett? O mercado enxerga mais como uma evolução do modelo criado pelo Oráculo de Omaha, afinal, o quarteto histórico da Berkshire permanece intacto com Apple, American Express, Coca-Cola e Moody’s.