A temporada de balanços do quarto trimestre e do ano de 2024 se encerrou na última segunda-feira, dia 31 de março. Mas, no decorrer da semana, ainda há quem esteja dando sequência à divulgação de seus dados.

Esse é o caso da Ammo Varejo, rede varejista de cama, mesa e banho que concentra as marcas MMartan, Santista e Artex. E que é parte do grupo Coteminas, de Josué Gomes da Silva, presidente da Fiesp, controlada, por sua vez, pela Spring Global.

A varejista apresentou seu balanço nesta quinta-feira, 3 de abril. Porém, com um detalhe: os indicadores se referem ao segundo trimestre de 2024. E são o retrato mais “recente” da situação que levou a empresa pedir recuperação judicial em maio do ano passado, assim como seus controladores.

No período, a Ammo Varejo apurou um prejuízo líquido de R$ 44,9 milhões, contra R$ 36,1 milhões no mesmo intervalo de 2023. Já no acumulado do primeiro semestre de 2024, a perda da operação cresceu 22,3% na mesma base de comparação, para R$ 84,5 milhões.

A receita líquida, por sua vez, recuou 39% entre abril e junho de 2024, para R$ 50,7 milhões, e 34,8% no semestre, para R$ 113 milhões. Enquanto o Ebitda trimestral ficou negativo em R$ 15,6 milhões, no trimestre, e em R$ 31,5 milhões na primeira metade do ano.

Em outro dado, a empresa fechou o período com um capital de giro de R$ 21,8 milhões, o que representou uma queda de 43,7% sobre 2023. Com 236 lojas na época, contra 259 em 2023, a dívida líquida era de R$ 256,4 milhões, ante R$ 244,8 milhões no primeiro trimestre de 2024.

Se os indicadores traduzem como a operação vinha se deteriorando, o atraso na divulgação reforça que a situação segue complicada. E não apenas na Ammo Varejo. O calendário também tem jogado contra a Coteminas e a Springs Global, que, em agosto de 2024, tiveram seus registros suspensos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pela falta de prestação de informações.

Os últimos dados públicos dos dois grupos – referentes ao primeiro trimestre de 2024 – foram divulgados há pouco mais de duas semanas. E, além de um prejuízo de R$ 168,3 milhões no período, a Clifton Larson Allen, responsável pela auditoria externa das demonstrações financeiras, se recusou a dar seu parecer sobre os números.

Em outra ponta dessas histórias, as três empresas tiveram suas recuperações judiciais aprovadas em julho de 2024. Mas, até o momento, não conseguiram chegar a um acordo com credores para apresentarem os termos finais de seus planos de recuperação dentro desse processo.

No caso específico da Ammo Varejo, as principais medidas previstas incluem frentes como a alienação de bens e “constituição de unidades produtivas isoladas” e a possibilidade de captação de novos recursos para a sua retomada operacional, além da reestruturação do passivo de R$ 393,4 milhões.

Em seu balanço divulgado hoje, a companhia reforça que, assim como as demais empresas do grupo, vem avançando nas negociações com seus credores com o objetivo de viabilizar a realização de uma assembleia geral em 2025. Mas ressalta que, até o momento, os termos finais ainda estão no nível das tratativas.

A empresa também informa que uma segunda lista de credores das três operações foi publicada em 19 de fevereiro no Diário Eletrônico do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, com prazo para a apresentação de habilitações ou impugnações de créditos encerrado em 6 der março.

O balanço cita ainda o acordo assinado entre a Ammo Varejo e as demais empresas do grupo e o Odernes Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia para prorrogar o vencimento de debêntures e “extinguir” a disputa relativa a esses títulos.

Segundo a empresa, no acordo em questão, além de garantias adicionais, incluindo a marca MMartan, foi estipulado um calendário de pagamentos trimestrais, com parcelas fixas de R$ 3,75 milhões, entre dezembro de 2025 e dezembro de 2029.

O caso em questão envolve uma emissão de debêntures de R$ 175 milhões, em 2022, estruturada pela Farallon Capital. A garantia estava atrelada a 100% das ações da Ammo Varejo, que, posteriormente, entrou em default, quebrando covenants firmados no contrato.

Essas pendências precipitaram o caminho da Ammo Varejo até a recuperação judicial. Mas o fato é que esse roteiro já vinha sendo trilhado há muito mais tempo e que, em boa parte, foi atribuído pela companhia aos impactos da Covid-19 e do pós-pandemia.

Esse pacote de problemas, que foi ganhando volume com o tempo, incluía componentes como a falta de recursos para liberar mercadorias importadas e, por consequência, o desabastecimento das lojas – muitas delas, franquias.

Em fevereiro de 2024, por exemplo, conforme apurou o NeoFeed na época, a Ammo Varejo revelou a esses parceiros que tinha 155 mil peças importadas aguardando liberação. E que, no prazo de 30 dias, outras 436 mil reforçariam esse “estoque”.

Na oportunidade, a companhia ressaltou, porém, que, em função das vendas menores, estava com sua capacidade de pagamento para a liberação dessas peças reduzida. E que estava estudando formas de financiar essa liberação.

Segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed na época, essa situação já vinha se desenhando desde antes de 2021, quando a Ammo Varejo protocolou, em agosto, o pedido do seu IPO. A empresa recuou desse plano, no entanto, no fim do mesmo ano.

O NeoFeed não conseguiu contato com a Ammo Varejo até a publicação dessa reportagem.