Depois de reestruturar a operação brasileira, concentrando sua atuação em banco de atacado e banco de investimento, o BNP Paribas está preparando a subsidiária para um novo ciclo de expansão no país, em que o mercado de capitais terá peso fundamental nos resultados.

O banco francês anunciou nesta sexta-feira, 29 de agosto, um aporte de R$ 773 milhões na unidade brasileira, para reforçar especialmente as atividades do banco de investimento (IB), de olho nas oportunidades que devem surgir com a retomada dos projetos de infraestrutura.

“Vemos um mercado de capitais muito dinâmico e o papel do banco tem mudado de um emprestador bilateral para um em que damos suporte aos clientes no mercado de capitais”, diz Ricardo Guimarães, CEO do BNP Paribas Brasil, ao NeoFeed.

A capitalização, que ainda precisa ser aprovada pelo Banco Central (BC), foi feita por meio de uma injeção de recursos em caixa, em vez de dívida, como ocorreu em 2021 e 2022.

Guimarães diz que a escolha por este formato ocorreu porque a matriz entende que é a melhor forma de reforçar sua atuação no mercado de capitais e conseguir capturar as oportunidades das operações de renda fixa.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) apontam que as empresas captaram R$ 709,2 bilhões com instrumentos de renda fixa no ano passado, uma marca inédita, com as debêntures se destacando, com um total de R$ 473,7 bilhões. Esse bom desempenho permaneceu no primeiro trimestre, com a renda fixa novamente despontando nas ofertas, com R$ 142,6 bilhões.

Segundo ele, o reforço é fundamental para as operações no setor de infraestrutura, segmento em que o BNP Paribas tem se concentrado nos últimos anos. No fim do ano passado, o banco coordenou, junto com o BNDES, uma oferta de cerca de R$ 5 bilhões em debêntures da Nova Rota do Oeste e também fez parte da emissão de R$ 1,64 bilhão por parte da Entrevias no começo deste ano.

“Uma particularidade do mercado brasileiro é que ele demanda que os bancos entrem com uma participação firme no mercado de capitais”, afirma Guimarães. “Para aumentarmos a capacidade do banco de suportar os clientes nesse processo de emissão, precisamos de mais capital.”

O aporte de recursos vai permitir ao banco realizar mais operações e com tíquetes maiores, ganhando musculatura num momento em que o segmento de infraestrutura precisa de recursos para investimentos. A injeção também fortalece o balanço para competir com outros bancos de investimento estrangeiros, especialmente os americanos.

“Em saneamento, há uma necessidade imensa de recursos para atingir a universalização. Em rodovias, concessões que foram concedidas nos anos 1990 estão com contratos no fim, sendo relicitadas, o que demanda uma série de investimentos”, diz Guimarães. “A agenda de infraestrutura vai acontecer e vai exigir parcerias entre empresas, investidores e bancos para levar operações ao mercado.”

Essa agenda casa ainda com o fim do ciclo do aperto monetário por parte do BC, abrindo caminho para se vislumbrar cortes na Selic a partir de 2026 e estimular a retomada de investimentos.

“Os últimos dois anos foram muito mais de rearranjo de balanço das empresas, de gestão de passivo, mas agora vem um ciclo muito mais de investimento novo, capex novo”, afirma. “E o BNP precisa estar pronto para suportar esse ciclo que está vindo no Brasil”, diz.

O aporte de recursos vem combinado com reforço de equipe. O BNP Paribas já trouxe Emanuel Guerra, ex-J.P. Morgan, para ser head de estruturação para a América Latina, e Fábio Mourão, ex-UBS, para fortalecer a relação com clientes e expandir a capacidade de originação do banco de investimentos. Guimarães diz que ainda deve agregar mais reforços.

A área de IB do BNP Paribas no Brasil vem apresentando forte crescimento. Guimarães diz que a mesa de operações continua sendo o principal gerador de receitas, representando cerca de 50% da operação no Brasil, mas o IB tem crescido rapidamente. Com uma fatia de 20% no resultado do Brasil, a área é a segunda maior na atividade local. O Brasil é o segundo maior mercado emergente para o BNP Paribas, contribuindo com cerca de 2,5% da receita do banco de investimento global.

O balanço de 2024 mostrou que a receita com intermediação financeira do BNP Paribas no Brasil somou R$ 5,6 bilhões, alta de 50,7%. O total de ativos somou R$ 93,4 bilhões, valor calculado antes da implementação do IFRS 9, que mudou a metodologia de cálculo de pontos como as provisões para devedores duvidosos (PDD) e créditos fiscais sobre perdas com inadimplência.

Apesar de os recursos virem para fortalecer a presença do BNP Paribas no mercado de capitais, Guimarães diz que o dinheiro também ajudará a área de banco de atacado, fortalecendo suas atividades. Ele destaca que o investimento para o crescimento em mercado de capitais deve ter efeitos positivos na parte de atacado.

“Muitas das operações acabam necessitando de hedge”, afirma. “Atividades como project finance, export finance são produtos importantes no mundo de infraestrutura e também se beneficiam desse investimento. Todas as capacidades do banco se reforçam com o aumento de capital.”

Se está investindo para avançar em renda fixa, o BNP Paribas não tem pressa em renda variável. O banco aguarda a autorização do BC para iniciar as atividades de sua DTVM, com a expectativa de que isso ocorra em 2026.

“Uma vez aprovada, vamos ter mais capacidade de suportar o mundo de equities, mas não temos uma pressa grande nesse passo, porque o mercado de equities ainda não está pronto para voltar no Brasil”, afirma Guimarães. “Em algum momento o mercado vai voltar e vamos estar prontos para atuar.”

Quem também não receberá os recursos é a BNP Asset Management, gestora do banco que conta atualmente com cerca de R$ 69,3 bilhões de ativos sob gestão no Brasil, segundo o ranking da Anbima.

Segundo Guimarães, o foco global da asset é a incorporação da AXA Investment Management, operação anunciada no ano passado que resultará na criação da segunda maior gestora de ativos da Europa, com 1,5 trilhão sob gestão, e uma das dez maiores do mundo.

No Brasil, a gestora pretende agregar a grade de produtos da AXA e o novo canal de distribuição que a companhia traz. “É uma oportunidade de oferecer novos produtos para os clientes, sendo uma nova fase de crescimento para asset management”, diz Guimarães.