Desde que deu início à reestruturação do Bradesco, há dois anos, Marcelo Noronha vive repetindo que este é um processo step by step. Que a retomada do desempenho ocorrerá sem açodamento, sendo acompanhada de investimentos para atualizar o banco, criticado por estar atrás de seus pares quando o assunto era digitalização.

No quarto trimestre, o banco conseguiu novamente mostrar que a estratégia vem dando resultados. O lucro cresceu pelo oitavo trimestre seguido, chegando a R$ 6,5 bilhões, alta de 20,6% na base anual.

O montante superou a média das expectativas dos analistas consultados pela Bloomberg, que apontava um saldo positivo de R$ 6,3 bilhões. No ano, o lucro líquido totalizou R$ 24,6 bilhões, alta de 26,1% em relação a 2024.

O destaque do período veio pelo lado do retorno sobre patrimônio líquido médio (ROAE). O indicador atingiu 15,2% nos últimos três meses do ano passado, em linha com o esperado, valor que supera o custo de capital, atualmente de 15%.

Apesar disso, o mercado reagiu negativamente à divulgação. Por volta das 11h22, as ações preferenciais do Bradesco recuavam 4,49%, a R$ 20,20.

A avaliação é de que o guidance divulgado é conservador, mesmo diante da evolução demonstrada pelo banco e de pontuações de que os investimentos em tecnologia estão pressionando as despesas. Os números projetados para linhas como margem financeira, receita com serviços e despesas apontam para um lucro de R$ 27,5 bilhões e um ROAE entre 15,4% e 15,5%, segundo cálculos dos analistas.

Apesar disso, e da repercussão nos papéis do Bradesco, Noronha é unapologetic, afirmando que a estratégia permanece, com “disciplina de execução”, com o horizonte voltado para 2028.

“O mercado cobra mais que os chefes, que o meu conselho, ele aumenta a bitola a cada trimestre. Mas não vamos esquecer a competitividade, não vamos fazer isso, a gente falou que ao longo do período vai ser step by step”, disse o CEO do Bradesco.

“Não vamos abrir mão de investimentos para aumentar a competitividade por nada”, complementou ele na manhã de sexta-feira, 6 de fevereiro, em entrevista coletiva.

Segundo Noronha, o Bradesco segue com o pé no chão, mesmo se isso significar frustrar o conjunto de expectativas do mercado, que fez com que as ações do banco acumulassem alta de 61% em 12 meses. “Muito provavelmente o mercado devolve alguma coisa”, reconheceu.

O CEO do Bradesco destacou que a estratégia vem produzindo resultados, garantindo que o banco não entregará ROAE menor que o registrado em 2025 e que seguirá expandindo seu lucro.

“O grau de confiança, hoje, é muito superior ao que tínhamos no início do plano. À medida que vai entregando as coisas, mostra capacidade de fazer, mostra credibilidade”, disse. “Se a gente for nessa onda [das expectativas do mercado], aí não entrega, perde o sono.”

A manutenção de rumo ocorrerá também na parte de crédito, mantendo o ritmo de concessão para garantir a qualidade de ativos e manter a inadimplência sob controle, mesmo com a tendência de alta no sistema.

No quarto trimestre, a margem financeira total subiu 13,2% na base anual, a R$ 19,2 bilhões, com a carteira de crédito expandida avançando 11%, a R$ 1,1 trilhão.

A inadimplência acima de 90 dias permaneceu estável em base trimestral e teve recuo de 0,3 ponto percentual em relação ao registrado no fim de 2024, a 4,1%. A despesa com provisões para créditos de liquidação duvidosa (PDD) expandida subiu 18,3% na base anual, para R$ 8,8 bilhões.

Noronha disse que a ideia é aproveitar algumas fortalezas do banco, caso do consignado, em que possui um market share de 14%, mesmo com o aperto de regras do INSS, financiamento de veículos, linhas governamentais, crédito imobiliário, linhas com garantia e pequenas e médias empresas.

E destacou que os investimentos em tecnologia, que em 2025 aumentaram 22%, devem continuar em níveis elevados, com o banco buscando ganhar eficiência em outras linhas de despesa. Em 2025, as despesas operacionais cresceram 8,5%, com as despesas administrativas e de pessoal subindo 5% pelo efeito do acordo coletivo de 5,68% com funcionários.

“A gente adotou uma postura conservadora com modelos cada vez melhores”, disse Noronha. “A gente está entregando modelos que trazem menos inadimplência e mais penetração. Temos espaço para crescer.”