Uma das empresas do portfólio da Flying Rivers Capital, gestora focada em negócios ligados à economia de baixo carbono e fruto de um spin-off, em 2025, da eB Capital, a Cirklo está ganhando um novo fôlego para avançar em sua tese de reciclagem de polietilenotereflato, o popular PET.
A companhia acaba de concluir uma captação de R$ 260 milhões por meio de uma emissão de debêntures verdes, com prazo de cinco anos e coordenada pelo Itaú BBA e o Bradesco BBI.
A operação foi realizada no âmbito do Ecoinvest, programa do governo federal com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que mescla operações de blended finance e proteção cambial, reduzindo custos de capital para projetos sustentáveis e os riscos para investidores estrangeiros.
“Esses recursos chegam em um momento em que ampliamos nossa capacidade, estamos fazendo melhorias fabris e investindo em captação de matéria-prima”, diz Irineu Barbosa Bueno Junior, CEO da Cirklo, ao NeoFeed. “Estamos nos preparando para atender a um grande aumento da demanda.”
Esses preparativos se conectam com um clima cada vez mais favorável para os negócios da empresa. Além de mecanismos como o Ecoinvest, outros recursos estão alimentando o amadurecimento do chamado capital verde no Brasil.
Segundo a Climate Bonds Initiative, no primeiro semestre de 2025, o País alcançou um volume cumulativo de US$ 30 bilhões em títulos sustentáveis, consolidando-se como o maior emissor nesse espaço na América Latina.
Esse cenário inclui ainda movimentos recentes como a entrada em vigor do decreto federal 12.688/2025. Mais conhecido como Decreto do Plástico, ele define um conteúdo mínimo obrigatório para o uso de plástico reciclado em embalagens.
Como parte desse cronograma estabelecido nessa regulamentação, de outubro do ano passado, o patamar inicial, para 2026, é de 22%. E, com aumentos progressivos anuais, a meta é chegar ao índice de 50% até 2040.
“O PET é o material que está preparado para atender integralmente o decreto, pois pode ser usado em qualquer embalagem”, afirma Bueno Junior. “Então, com o crescimento já esperado, com ou sem decreto, e a ampliação desse conteúdo, nossa previsão é chegar a 2040 com o triplo da demanda que temos hoje.”
Segundo o executivo, o mercado brasileiro já consome 1 milhão de toneladas de resina PET anualmente destinadas a embalagens. Desse total, entre 20% e 30% já têm origem em materiais reciclados. Ele faz, porém, uma ressalva.
“Não existe uma bala de prata nesse mercado. Então, é importante não colocar todas as fichas no decreto, pois isso, por si só, não vai melhorar a demanda”, afirma o CEO da Cirklo. “Mas ele é importante, pois traz previsibilidade, regularidade e garante, sim, uma evolução nessa procura.”
Atenta a essa conjunção de fatores, a Cirklo, criada pela eB Capital, em 2024, a partir da fusão entre a Green PCR e a Global PET, reservou boa parte de 2025 à preparação para atender a essa perspectiva de aquecimento do mercado.
Como parte dessa agenda cumprida no ano passado, uma das prioridades foi a integração das operações da Green PCR e da Global PET. Outro foco nesse intervalo foi a ampliação da sua capacidade produtiva.
A empresa investiu na modernização das fábricas de São Carlos (SP) e Conde (PB), responsáveis por todas as etapas de produção – do recebimento das sucatas de PET à transformação em resinas para embalagens de setores como alimentos, bebidas e higiene – a Cirklo atende diretamente cerca de 30 clientes.
Durante o ano, a companhia também ergueu uma nova unidade, em Ananindeua (PA), em uma parceria com Solar Coca-Cola, uma das fabricantes do refrigerante no País, e comprou a concorrente Clodax, em Maceió (AL).
As duas estruturas incorporadas com essas movimentações foram destinadas a uma primeira etapa de transformação das garrafas em flocos. E usadas como um atalho para a captação e o transporte de matéria-prima.
Salto na produção e destino da captação
Como resultado dessas iniciativas, a empresa saltou de uma capacidade de produção de 60 mil toneladas por ano de resina pet para embalagens, em 2024, para 115 mil toneladas ano no fim do ano passado.
Com esse volume potencial dentro de casa, Bueno Junior entende que a capacidade atual da Cirklo é suficiente para atender a demanda prevista nos próximos três anos. Dessa forma, o investimento em novas unidades de produção está, a princípio, fora do escopo.
Nesse contexto, uma parcela dos R$ 260 milhões captados será aplicada em ajustes finais na adequação dos equipamentos já instalados nessas plantas. O principal destino da captação, por sua vez, será a ampliação da capilaridade e a estruturação de uma cadeia de coleta de matéria-prima.
“Hoje, nós trazemos material do Acre, de Rondônia, do Rio Grande do Sul, do país inteiro para nossas fábricas”, afirma o CEO. “Vamos precisar de mais matéria-prima e, ao mesmo tempo, que ela chegue de uma forma economicamente mais viável em nossas fábricas.”
Essa orientação vai se traduzir em novas parcerias com cooperativas para coleta – hoje, por exemplo, a Cirklo tem um acordo com a Associação Nacional de Catadores (ANCAT). E no investimento em logística e em estruturas para coletar material e consolidar cargas em diferentes regiões do País.
“Vamos investir o quanto for necessário para captar, no mínimo, 130 mil toneladas de garrafas PET por ano”, afirma o executivo, que não revela a receita da Cirklo, mas ressalta a meta para os próximos anos: R$ 1 bilhão de faturamento e 30 milhões de garrafas recicladas por dia.