A Engeform Gestão de Recursos e a Galapagos Capital concluíram a captação de R$ 190 milhões para um fundo conjunto voltado à infraestrutura social. Estruturado como um FIP-IE — modalidade isenta de Imposto de Renda para pessoa física —, o produto reúne cerca de 100 cotistas, entre eles clientes da Galapagos e executivos da própria Engeform. A gestão do fundo será feita por meio de um comitê de investimentos formado por representantes de ambas as empresas.
Com mandato para investir em PPPs dos setores de educação, saúde e habitação, o fundo já nasce um ativo em execução: uma fatia de 50% da PPP das Escolas de São Paulo, via uma SPE formada com a gestora Kinea, sócia no leilão original vencido em conjunto com a Engeform em 2024.
O ativo prevê a construção e manutenção de 17 unidades escolares em 14 municípios. Oito das escolas já foram entregues, com início das aulas em agosto, e a fase final deve ser antecipada, de nove escolas previstas só para 2027, seis devem entrar em operação ainda neste ano.
A antecipação da entrega tem efeito direto na receita, que começa a ser paga pelo poder público quando a escola está pronta para receber os alunos. Com esse fluxo de caixa antecipado, os gestores pretendem financiar o capex das unidades ainda em obra ou entrar em novas concessões.
O mercado de parcerias público-privadas viveu um ano recorde em 2025, com 75 leilões na B3 e R$ 243,8 bilhões em investimentos — ante 64 leilões e R$ 180 bilhões em 2024. No primeiro trimestre, a B3 fechou com 18 leilões realizados e R$ 42,4 bilhões movimentados, alta de mais de 40% ante o mesmo período de 2025, quando o volume foi de R$ 30 bilhões.
Luciana Improta, diretora de gestão da Engeform, afirma que a captação deve ser suficiente para que o fundo entre em até mais três projetos. “Podemos ter ativos eventualmente menores. Mas sempre teremos governança. O grande ponto da tese é ser majoritário, ou majoritário dentro da governança”, afirma.
O fundo já está em negociações para entrar em uma nova PPP de habitação. Thomas Averbuck, sócio e diretor executivo de Private Equity da Galapagos Capital, conta que a operação envolve a potencial compra de uma empresa vencedora de um leilão do setor.
O alvo das negociações ainda não pode ser revelado, mas, segundo ele, há boas oportunidades em empresas com dificuldades financeiras para honrar os compromissos da concessão.
"Vamos olhar para os dois: tanto o leilão quanto, eventualmente, oportunidades no secundário — outros players que já ganharam concessões e, em algum momento, querem sair dessa posição. O objetivo é alocar o fundo, então estrategicamente faz sentido pra gente não só olhar novos leilões, mas também o secundário."
O fundo é fechado e tem prazo de 15 anos. O objetivo, segundo os gestores, é alcançar rentabilidade de IPCA+15% ao ano nesse período.
Para chegar a esse resultado, a estratégia é de ganho de capital: o fundo entra nas concessões ainda no período de obras, passa a receber a receita da concessão nos primeiros anos de operação e faz a saída com a venda do ativo já maduro, quando o fluxo de caixa estiver consolidado e o risco operacional, reduzido.
Os gestores têm como alvo do fundo projetos comparáveis a edificações como escolas e moradia e evitam ativos operacionalmente complexos. "Aqui a gente está falando de edifícios, no final do dia. As escolas não têm complexidade de execução. É diferente de construir o túnel Santos-Guarujá, que é uma obra superdifícil, ou uma ponte muito extensa", compara Averbuck.
Além da baixa complexidade operacional, a seleção passa pelo risco de crédito da contraparte pública e pela solidez das garantias do contrato — critério que, segundo os gestores, foi decisivo na escolha da PPP das Escolas de São Paulo e segue orientando a análise de novos leilões e operações no secundário.
"Teve um leilão no Sul, por exemplo, que era uma PPP municipal. Estudamos o caso, mas o edital não nos trouxe conforto em termos da blindagem e da estrutura de garantias. Então decidimos não participar”, conta Improta.
Engenharia dentro de casa
Improta diz que um dos diferenciais do fundo é a possibilidade de acionar, quando oportuno, a estrutura da Engeform Engenharia — braço do grupo responsável pelas obras de infraestrutura — na execução dos próprios ativos.
Foi o que ocorreu na PPP das Escolas: a Engeform Engenharia disputou a concorrência para a construção das 17 unidades e venceu com um BDI abaixo do praticado por construtoras de mercado, abrindo mão de parte da margem para tornar o investimento mais competitivo
Segundo a executiva, o modelo já gerou questionamentos sobre conflito de interesse, mas ela defende que ter uma construtora dentro de casa dá mais segurança à modelagem financeira apresentada nos leilões.
"No limite, a gente tem uma construtora dentro de casa com capacidade para executar a obra no preço que a gente especificou para o leilão. Isso traz uma tranquilidade muito grande de que estamos sendo assertivos na modelagem que fazemos antes de participar do leilão", afirma.
Este é o segundo fundo estruturado em conjunto pelas duas gestoras — a dupla já mantém uma parceria em um fundo imobiliário "boutique", também com a Galapagos como sócia.
Buscar um parceiro para cada frente, em vez de captar sozinha, é o modelo é o preferido pela Engeform para colocar produtos no mercado. A mesma lógica foi aplicada pela gestora na frente de crédito, em que lançou recentemente um fundo com a Occam. Nesse modelo, a Engeform Gestão já chegou a R$ 1 bilhão em recursos.
Do lado da Galapagos, com mais de R$ 40 bilhões sob gestão, Averbuck afirma que o interesse por FIP-IEs segue elevado, muito por conta da isenção de Imposto de Renda para pessoa física. "Tem sido um produto de muito apelo para nossa base de clientes, formada majoritariamente por pessoas físicas, e temos atraído parceiros de alta qualidade, como a turma da Engeform.”