Em 2021, a Brex era um dos símbolos mais reluzentes da nova geração de fintechs globais. Fundada por dois brasileiros no Vale do Silício, a empresa havia transformado cartões corporativos e gestão de despesas em um negócio de crescimento explosivo. E atingiu um valuation de cerca de US$ 12,3 bilhões, entrando para o seleto grupo dos chamados decacórnios.
Quatro anos depois, o desfecho foi bem diferente do imaginado naquela época. Um IPO, que parecia apenas questão de tempo, não aconteceu. E a fintech acertou sua venda para a Capital One por pouco mais de US$ 5,15 bilhões.
O valor é expressivo em termos absolutos, mas inferior ao que investidores e fundadores projetavam durante aquele período de euforia do venture capital.
A venda representa menos da metade do valor atribuído à Brex em seu auge. Para os fundadores Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, o negócio garante liquidez, permanência à frente da operação e participação na próxima fase da empresa dentro de um grande banco.
Para investidores que entraram cedo, o retorno ainda pode ser expressivo. Mas para fundos que aportaram capital nos últimos ciclos - quando a fintech já valia mais de US$ 10 bilhões - o desfecho ficou aquém do esperado.
Mas, em alguns casos, o retorno pode ter sido modesto ou até negativo, segundo fontes do mercado. É o retrato fiel da ressaca que atingiu o venture capital global, depois dos valuations esticados entre 2021 e 2022 que puxaram muitos para cima, inclusive a Brex.
A grande questão é saber quais os termos do acordo. Segundo Filipe Costa, fundador da NewHarbour Partners, boutique de M&A focada em tecnologia, ainda que a expectativa dos investidores fosse de um valuation maior, não quer dizer que quem aportou recursos na rodada em que a Brex foi avaliada em pouco mais de US$ 12 bilhões e perdeu dinheiro.
Fazem parte do captable da Brex, que fez a última rodada privada, a série D, em 2022: a Greenoaks, IVP, Tiger Global, Y Combinator, Kleiner Perkins, DST Global, e os cofundadores do PayPal, Max Levchin e Peter Thiel, da Lone Pine Capital e da Ribbit Capital.
“Pode ter um liquidation preference, uma preferência de retorno aos investidores da última rodada, preservando o valor deles”, diz Costa. “Não sabemos dizer se quem arcou com a diferença de valores foram os fundadores ou os investidores, ou se foi algo negociado entre eles.”
Um gestor do ecossistema do venture capital brasileiro aponta a possibilidade de os funcionários da Brex que detinham stock options terem que arcar com essa decisão. “Teve gente que foi amassada, principalmente funcionários que entraram desde a última rodada, que tinha strike alto, não sei o que vai acontecer”, diz ele, que pediu para não ser identificado.
A venda ocorre num momento em que a Brex enfrenta a concorrência de uma companhia semelhante chamada Ramp, que cresceu muito mais rápido e maior, valendo mais. Costa destaca que a Ramp é avaliada atualmente em US$ 32 bilhões, com ritmo de crescimento na casa dos 100%, enquanto a Brex avança em torno de 50%.
“A decisão de vender pode sim ter impedido a empresa de chegar no seu pleno potencial sozinha, mas é muito importante retornar dinheiro aos acionistas”, diz Arnaldo Rocha, managing partner na DealMaker, assessoria de M&A e captação de recursos. “Apesar do sucesso, a Brex não era tão grande assim.”
Do modelo à virada de ciclo
Pelo lado da Capital One, a aquisição reflete a busca por atalhos tecnológicos. Os bancos incumbentes têm dificuldade de inovar na mesma velocidade das startups. E a Brex pode entregar uma plataforma moderna, dados, produtos digitais e acesso a novos clientes.
Criada em 2017 por Franceschi e Dubugras, a Brex cresceu surfando a explosão das startups americanas. Seu cartão corporativo prometia simplificar crédito, pagamentos e controle financeiro para empresas em rápida expansão.
O modelo funcionou e, em poucos anos, a fintech atraiu nomes de peso do venture capital, multiplicou sua base de clientes e se tornou presença constante nas listas de startups mais promissoras do mundo.
No entanto, o vento virou em 2022 quando a disparada dos juros nos Estados Unidos encerrou o ciclo de capital abundante e alterou profundamente a lógica do mercado. Crescimento acelerado deixou de ser suficiente e os investidores passaram a exigir rentabilidade, eficiência e geração de caixa.
Foi há pouco mais de três anos que Dubugras teve de tomar uma das decisões mais difíceis da trajetória da Brex: a tentativa de expandir o atendimento para pequenas empresas.
A fintech tinha cerca de 60 mil clientes quando decidiu abrir o produto para um público maior e, em poucos meses, essa base dobrou para 120 mil. O resultado foi um unit economics ruim e um atendimento sobrecarregado, que acabou prejudicando a experiência dos clientes mais estratégicos.
Como resposta, a Brex tomou a dura escolha de “mandar 60 mil clientes embora” para preservar o foco nas startups bem financiadas que impulsionavam maior crescimento - uma decisão que gerou notícias negativas e críticas no mercado, mas que, segundo Dubugras, foi necessária para realinhar o negócio.
A Brex, como várias fintechs da mesma geração, precisou se reinventar. A empresa reduziu sua exposição a pequenas startups e passou a focar companhias maiores. O movimento trouxe estabilidade, mas também desacelerou o ritmo de crescimento que havia sustentado os valuations anteriores.
Para Dubugras, aprender com erros fez parte do processo de maturação da empresa. Ele contou que o foco em unit economics foi um aprendizado essencial, e que o episódio com a base de clientes menores expôs a importância de decisões estratégicas impopulares mas fundamentais em momentos de ajuste.
Essa reflexão ajuda a entender por que a Brex precisou reorganizar estratégia e produto, ajustando seu modelo de crescimento para competir com empresas maiores e financiadas globalmente.
A transação com a Capital One encerra uma travessia que ajuda a explicar não apenas o caminho da Brex, mas também a profunda transformação vivida pelo mercado global de startups desde o fim do dinheiro barato.
Apesar da questão do valuation, a sensação no ecossistema de venture capital brasileiro é de que a operação representa uma vitória. Para um gestor, mesmo que a venda represente um down round, o valor em que a operação foi fechada é significativo, na casa dos R$ 30 bilhões.
“É um negócio que não existe no Brasil, essa liquidez não teve aqui em oito anos”, afirma. “O Itaú avaliou a XP em R$ 12,6 bilhões quando ia comprar ela em 2017. É um deal de magnitude semelhante.”
Para Costa, a transação é muito emblemática para o mercado de fintechs. “Foi o maior negócio no mundo já feito por um banco envolvendo uma fintech. Apesar de ser um valor substancialmente inferior à última rodada, 50% do valor foi pago em ações do Capital One, então se ambos acreditam nas sinergias dos negócios, devem capturar um upside relevante”, afirma.