A crise financeira do Grupo Entre, que deixou uma série de clientes sem os repasses de vendas feitas no cartão, agora, põe em risco a sobrevivência de Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) que tinham exposição aos recebíveis da Entrepay.

Com a liquidação extrajudicial, decretada pelo Banco Central (BC) no fim de março, as atividades do conglomerado foram encerradas e os bens de seus controladores ficaram indisponíveis. Além do comprometimento da situação financeira, a liquidação teve como justificativa o descumprimento de normas regulatórias.

Principal empresa do conglomerado, a EntrePay chegou a processar R$ 12,8 bilhões em pagamentos em 2024. O grupo era formado por outras financeiras, como Acqio Adquirência e Octa Sociedade de Crédito, e vinha de um forte crescimento nos últimos anos, estendendo atuação para setores de mídia e tecnologia.

Desde que o BC colocou fim às operações do grupo, três FIDCs já declararam  problemas na carteira devido ao não pagamento dos recebíveis da EntrePay. Juntos, eles somam mais de meio bilhão de reais em patrimônio líquido, além de terem bancos e outros fundos de investimento em suas bases.

O maior é o Garson FIDC. No início de abril, o fundo chegou a publicar um fato relevante, em que afirmou ter identificado recebíveis atrelados à EntrePay em sua carteira e que, por isso, suspenderia a valorização dos ativos referentes à instituição.

Gerido pela M8 Partners e administrado pela Hemera, o fundo é também o principal da Garson Crédito, com R$ 313 milhões de patrimônio líquido. Até o fim de março, sua inadimplência declarada era de R$ 19,5 milhões, com R$ 11,7 milhões provisionados.

O fundo tem 71 cotistas, sendo investido por 15 FIDCs na cota sênior, um banco de investimento e outros 39 fundos de investimento. Na cota subordinada, o fundo tinha, entre os cotistas, três pessoas jurídicas, um FIDC e outros 9 fundos de investimento.

Conforme reportagem publicada no NeoFeed, o fundo já havia aprovado, em AGE realizada em dezembro, a inclusão de uma série de novos fatores de risco relacionados aos créditos. Entre eles, a possibilidade de os direitos creditórios “serem bloqueados ou redirecionados para pagamento de outras dívidas do Cedente/Endossante ou dos respectivos Devedores, inclusive em decorrência de pedidos de recuperação judicial, falência, planos de recuperação extrajudicial”.

Após a publicação, o fundo cancelou o fato relevante informando a exposição à EntrePay e a suspensão da valorização dos ativos. No lugar, o fundo convocou uma nova AGE em que foi aprovada a mudança no regulamento para permitir a concentração de até 10% do patrimônio líquido em cedentes sujeitos a plano de recuperação judicial ou extrajudicial.

Também foi aprovada, na AGE, a contratação dos agentes de cobrança Monnerat e Ouchi, com a remuneração pelos serviços passando a ser prevista no regulamento do fundo.

Em nota enviada à reportagem, a Garson Crédito informou que o FIDC possui baixa exposição à EntrePay, sem representar impacto significativo no fundo. Segundo a companhia, o cancelamento do fato relevante se deu por um erro da administradora e que a adoção do movimento era necessária apenas para outro fundo. O FIDC em questão é o Garson Card, que possui os mesmos prestadores de serviço, com a diferença de que a Entrepay era a única cedente dos direitos creditórios.

Com a liquidação da EntrePay, o Garson Card informou a suspensão da compra de novos recebíveis e da valoração de seus ativos, além do fechamento do fundo para resgates. Entre os investidores, estavam um banco comercial, um FIDC e outros 9 fundos de investimento.

O Garson Card, nos últimos meses, já vinha emitindo sinais de alerta, embora não tenha feito nenhuma comunicação formal indicando deterioração relevante da carteira.

De acordo com documentos entregues pela administradora à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entre dezembro e março, seu patrimônio líquido encolheu de R$ 194,5 milhões para R$ 126 milhões, enquanto a inadimplência da carteira mais que dobrou, de R$ 15,2 milhões para R$ 32,7 milhões. Apesar do atraso nos pagamentos, o fundo vinha operando sem qualquer provisão contra perdas de crédito.

O caso é semelhante ao do FIDC Redwood CC, que também suspendeu os resgates após a quebra da EntrePay, mas vinha praticamente sem provisionamento. O fundo é gerido pela Redwood, gestora do mesmo grupo da Planner, responsável por sua administração, e, no último dia 7, suspendeu os resgates devido à liquidação da EntrePay.

De acordo com o informe mensal de março, o Redwood CC tinha uma carteira de crédito de R$ 16,36 milhões. Desse valor, R$ 5,13 milhões estavam inadimplentes, enquanto previa apenas R$ 7 mil de provisão. Até o fim de março, o fundo também não declarava ter exposição à EntrePay superior a 10% da carteira ou a qualquer outra empresa.

No comunicado sobre os efeitos da liquidação da EntrePay, o Redwood CC informou que a suspensão teria um prazo inicial até esta terça-feira, quando o fundo afirmou que emitiria um novo fato relevante reavaliando a situação e comunicando os cotistas. Porém, até esta sexta-feira, 17, nenhum fato relevante foi enviado.

Operação paralisada

O entrave, segundo o Redwood CC, envolve a atuação do BTG Pactual como banco liquidante e responsável pelo processamento do fluxo de pagamentos da EntrePay. De acordo com o fundo, o BTG informou que aguarda orientações do liquidante extrajudicial quanto à continuidade de qualquer operação ou fluxo financeiro relacionado à EntrePay.

Ainda de acordo com o BTG, as instituições do conglomerado EntrePay estão temporariamente impossibilitadas de operar via Sistema de Liquidação de Câmbio, de forma que o banco não receberá recursos nas contas centralizadoras anteriormente utilizadas para as operações de banco depositário.

“A retomada dos procedimentos ocorrerá tão somente após o recebimento de instruções expressas do liquidante extrajudicial”, diz o BTG.

O Redwood CC, no fim de março, era investido por outros três FIDCs na classe subordinada, além de uma pessoa física. Na cota sênior, o fundo tinha uma pessoa física e outro fundo de investimento como cotistas.

Em comunicado ao NeoFeed, a Garson afirmou que tem "plena convicção de que os pagamentos devidos serão honrados pelos integrantes do arranjo de pagamentos, uma vez que os recursos são segregados do patrimônio da EntrePay" e que o FIDC Garson Card será reaberto "tão logo os fluxos financeiros dos arranjos sejam restabelecidos".

"Ademais, entende-se ser prematuro e de caráter extemporâneo divulgar informações adicionais ao processo como impactos financeiros ou regulatórios neste momento, pois a liquidação extrajudicial da EntrePay encontra-se em fase inicial, razão pela qual o Banco Central e o Liquidante da EntrePay ainda não divulgaram pronunciamentos oficiais, nem a forma que se dará o restabelecimento do fluxo de pagamento aos cessionários — posição em que os FIDCs se encontram", diz a Garson.

Procurados, BTG Pactual, Hemera, Redwood e Planner não se posicionaram até a publicação desta reportagem.