Os preços do barril de petróleo desabaram e as ações subiram em todo o mundo na quarta-feira, 8 de abril, impulsionados pelo alívio imediato trazido pelo cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, anunciado na véspera, e pela reabertura parcial do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, responsável pela interrupção de 10% ou mais do fornecimento mundial de petróleo nas últimas semanas.

A euforia do mercado, porém, contrasta com a certeza de que os efeitos da guerra na economia global ainda estão longe de serem sanados. A retomada da produção e de transporte dos navios petroleiros, por exemplo, deve levar semanas ou meses.

Além disso, o fato de o acordo se limitar a um cessar-fogo de 15 dias entre adversários que jamais adotaram tom conciliador desde o início do conflito reforça o grau de incerteza no cenário geopolítico no curto prazo.

O alívio dos mercados, na prática, confirmou o estrago causado pela guerra – iniciada há seis semanas, com efeitos na infraestrutura da região do Golfo Pérsico, grande produtora mundial de petróleo.

O índice Brent, de petróleo, abriu o dia negociado entre US$ 92,40 e US$ 95,36 por barril, queda entre 13% e 15% em relação ao dia anterior. O índice WTI, dos EUA, acompanhou o movimento, sendo vendido entre US$ 94,98 e US$ 96,82 por barril, recuo entre 14% e 16% comparado com a véspera. Ambos os contratos haviam ultrapassado US$ 110 durante o pico das tensões, mas agora passam por forte correção com o alívio geopolítico.

Nos mercados financeiros mundo afora, o otimismo foi parecido. Os mercados futuros dos EUA registraram alta do Dow Jones (+2,8%), S&P 500 (+2,9%) e Nasdaq 100 (+3,5%), reflexo da redução do risco imediato de interrupção prolongada no Estreito de Ormuz, impulsionando ações de tecnologia e setores sensíveis ao custo da energia.

As ações na Ásia, onde os países importam grandes quantidades de petróleo e gás, também registraram ganhos expressivos. O índice Nikkei 225 do Japão subiu 5,4%, enquanto o índice Kospi da Coreia do Sul teve alta de quase 7%. Os mercados de Taiwan, Hong Kong e China continental também apresentaram aumentos significativos. Na Europa, o índice Stoxx 600, um amplo índice europeu, teve alta de 3,5% no meio do dia.

Ao mesmo tempo, o rali global das ações após o anúncio do cessar-fogo não se deve apenas ao alívio geopolítico, mas também a um possível short squeeze – como é chamado o movimento brusco de alta nos preços de uma ação ou índice, que força investidores que estavam vendidos (apostando na queda) a recomprar rapidamente esses ativos para limitar prejuízos, sendo que essa corrida para recomprar empurra os preços ainda mais para cima.

Fundos de hedge vinham ampliando agressivamente posições vendidas nas últimas semanas — em março, venderam a descoberto numa proporção de 7,6 para 1, segundo dados da unidade de corretagem do Goldman Sachs. Com a disparada das bolsas, essas apostas contra o mercado começaram a gerar perdas e podem estar sendo desmontadas, alimentando ainda mais a alta.

Estratégias defensivas baseadas em vendas de ETFs e futuros, usadas para proteger carteiras durante a guerra, agora se tornam um risco adicional para quem permanece vendido, aumentando a probabilidade de movimentos bruscos de recompras, especialmente na Europa.

Ameaças suspensas

No acordo de cessar-fogo, anunciado pelo presidente Trump na noite de terça-feira, o Irã concordou em permitir a passagem de navios pelo estreito sem serem atacados. Mais cedo naquele dia, Trump havia declarado que, se a hidrovia permanecesse fechada, “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser recuperada”.

Trump também ameaçou repetidamente atacar usinas de energia iranianas e outras infraestruturas críticas caso o Irã não permita a passagem de embarcações pelo estreito — atos que poderiam ser considerados crimes de guerra.

Especialistas alertam, porém, que o retorno do fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico será lento, assim como a recuperação da economia global.

Os preços da gasolina nos EUA, por exemplo, subiram novamente na quarta-feira, 8, atingindo uma média nacional de US$ 4,16 por galão, segundo a associação automobilística AAA. O aumento elevou o custo para os motoristas em 40% desde o início da guerra. Os preços do diesel aumentaram ainda mais rapidamente e chegaram a US$ 5,67 na quarta-feira, um aumento de 51% em seis semanas.

Analistas ressaltam que a retomada de transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz depende não apenas da segurança na hidrovia, mas também da inspeção de equipamentos, substituição de peças críticas e reorganização de equipes e embarcações dispersas durante o conflito.

“Não é como se você simplesmente apertasse um botão e tudo voltasse a funcionar”, disse Martin Houston, um executivo veterano do setor de petróleo e gás que agora atua como membro do conselho de administração de várias empresas de energia.

Mesmo com a expectativa de que alguns poços voltem a operar em dias ou semanas, especialistas afirmam que a normalização completa levará meses — e, em casos de danos severos, anos.

Instalações estratégicas, como a planta de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Catar, tiveram parte de sua capacidade destruída e exigirão longos prazos de reconstrução devido à complexidade técnica e à escassez global de componentes especializados.

Refinarias no Kuwait, Arábia Saudita e Irã também operam com capacidade reduzida, enquanto cadeias de suprimentos pressionadas pela demanda de infraestrutura energética e centros de dados dificultam a reposição rápida de turbinas e sistemas de resfriamento.

Antes do início do conflito entre os EUA e o Irã, uma média de 138 embarcações transitavam pelo Estreito diariamente. Desde o início da operação, esse número caiu mais de 90%, com as travessias diárias frequentemente caindo para um dígito.

"Para os mercados, o fluxo de petróleo pelo Estreito importa mais do que o estoque de petróleo, ou seja, a infraestrutura energética para produzi-lo, porque o fluxo mantém a economia global em movimento, visto que o mercado de petróleo antes do conflito estava próximo do excesso de estoque, com excesso de oferta", afirmou Ben Emons, fundador da Fed Watch Advisors.

"Nesse sentido, a reabertura do Estreito funciona como a reabertura durante a pandemia e tem características já precificadas nos mercados financeiros, como ser uma forma de flexibilização quantitativa, que era inerentemente mais sobre fluxo do que sobre estoque”, acrescenta.

Esse alívio, portanto, deve prevalecer até a confirmação da retomada do transporte do Estreito de Ormuz - ou se transformar em novo foco de crise da economia global se o Irã voltar a bloquear a via marítima ou se Trump decidir retomar as ameaças contra o regime iraniano.