A CPFL Energia estruturou dentro de casa um negócio que não aparece nas análises tradicionais sobre o setor elétrico, mas que entrega números de um banco digital.

A combinação das subsidiárias Alesta, uma instituição financeira digital, e CPFL Total, de meios de pagamento, alcançou em 2025 um Ebitda de R$ 100 milhões, um crescimento de cerca de 180% em quatro anos, quando o piloto foi iniciado. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) combinado das duas operações atingiu 33,2%, patamar que poucas fintechs conseguem entregar.

Segunda maior distribuidora de energia elétrica do Brasil, avaliado em R$ 59,1 bilhões na B3 e com presença em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a companhia está no ponto de maturidade da sua plataforma de serviços financeiros embarcados, que utiliza a conta de luz como canal de distribuição de crédito, antecipação de recebíveis e venda de produtos financeiros.

O modelo de embedded finance que nasceu para resolver um problema interno de inadimplência está sendo preparado para ser exportado a outras utilities, incluindo empresas de água, gás e até distribuidoras de energia de outros grupos.

“Da mesma maneira que embarco uma distribuidora do grupo, posso embarcar uma distribuidora de outro grupo", afirma Fernando Rocha Antonaglia, diretor executivo da Alesta e da CPFL Total, ao NeoFeed. “E não estamos restritos apenas à energia. Podemos imaginar empresas de água, empresas de gás, enfim. Você tem uma gama muito interessante nas linhas de utilities."

O executivo descreve o negócio como "plug and play", ou seja, pronto para ser embarcado em outras empresas com um modelo de arquitetura aberta - um passo que vai ajudar a reposicionar a CPFL como uma plataforma de serviços financeiros white label para o setor de infraestrutura.

Outras utilities brasileiras têm projetos semelhantes, criando fintechs, ou parcerias para oferecer crédito e meios de pagamento. Um dos diferenciais da operação da CPFL, segundo Antonaglia, é o funding próprio.

A Alesta opera com cerca de R$ 100 milhões em capital próprio, sem necessidade de recorrer a Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ou captação externa.

Embora a única subsidiária financeira seja a Alesta, a Voltz, do Grupo Energisa, é uma fintech que oferece conta digital, cartão e opções de crédito e negociação de faturas, com produtos voltados tanto para clientes residenciais quanto para fornecedores. As duas têm propostas operacionais muito parecidas, mas com posicionamento jurídico e de mercado diferente.

Há outras iniciativas de empresas como Neoenergia e Sabesp com plataformas internas para o parcelamento de contas atrasadas em parceria com empresas de pagamento - a companhia paulista de saneamento desenvolveu um hub com a Bemobi.

Frentes de negócio

A operação financeira da CPFL se sustenta em três frentes de negócio, todas ancoradas na relação recorrente com o cliente da conta de energia.

A primeira e mais conhecida é o parcelamento de faturas em atraso. Por meio da Alesta, o cliente com débito na conta de luz pode alongar o pagamento em até 15 vezes. Entre 2021 e 2025, foram 353 mil contratos firmados, totalizando R$ 353 milhões em parcelamentos.

Além de resolver o problema do consumidor, a operação alivia a inadimplência da própria distribuidora. Nesse período, foram quitados R$ 207 milhões em débitos que, segundo o executivo, teriam alta probabilidade de resultar em corte de energia e custos operacionais adicionais.

fernando rocha cpfl energia
Fernando Rocha Antonaglia, diretor executivo da Alesta e da CPFL Total

A segunda frente é a antecipação de recebíveis para fornecedores. Uma operação que antes era tocada internamente pela área corporativa foi transferida para a Alesta em 2022. Desde então, o volume movimentado saltou de R$ 933 milhões para R$ 1,5 bilhão em 2025, enquanto a base de fornecedores atendidos cresceu de 60 para 600.

A terceira perna, tocada pela CPFL Total, é a oferta de pequenos seguros e assistências cobrados na conta de energia. Produtos como seguro residencial, assistência funeral e serviços residenciais são comercializados com tíquete médio entre R$ 30 e R$ 40. A operação hoje movimenta 1,3 milhão de cobranças mensais e mantém um índice de reclamação inferior a 40 por mês.

Cobertor curto

Apesar do otimismo estratégico, Antonaglia demonstra cautela ao falar sobre os limites do modelo. A operação lida com um público vulnerável, ou seja, clientes negativados, muitas vezes sem relação com bancos ou cartões de crédito, que buscam alongar dívidas para evitar o corte de energia elétrica.

A inadimplência esperada na carteira de crédito da Alesta é de cerca de 20%, um patamar elevado, mas precificado no modelo de negócios.

"Preciso que, de 10, oito paguem. É previsível que você tenha uma dependência alta, mas completamente absorvida pelo composto de volume e taxa que colocamos no modelo", diz o executivo.

Na oferta de produtos de seguros e assistências, a conta também precisa ser ajustada. Clientes com conta média de R$ 120 a R$ 150, não conseguem comprometer muito mais renda. Por isso, o grupo limita a oferta a, no máximo, dois produtos por cliente, com autorização expressa e renovada.

Para os próximos anos, a CPFL trabalha com a aceleração do portfólio atual, com uso de inteligência artificial para aprimorar o score de crédito e a prospecção. Hoje, um parcelamento é concluído em cerca de cinco minutos pelo celular, ante até 12 minutos no início da operação.

Outra frente é a diversificação. O grupo colocou em testes novas linhas de crédito, como a oferta de cash line para clientes com bom histórico de pagamento. "O desafio aqui é testar novas linhas de negócio para financiamento além das duas atuais", afirma Antonaglia.

Se o plano vingar, a CPFL vai consolidar uma grande concessionária de infraestrutura também como uma plataforma de serviços financeiros.