Já virou rotina. A cada três meses, o Itaú Unibanco se acostumou a entregar recordes e números acima das estimativas do mercado. E, no caso dos resultados do quarto trimestre e do ano de 2025, divulgados na noite de quarta-feira, 4 de fevereiro, não foi diferente.
Em contrapartida, ao reafirmar um bom momento que já se estende por diversos trimestres, o banco vê, na mesma medida, uma questão ganhar força: é possível dar sequência e sustentar esse roteiro por quanto tempo?
“Resultados passados não garantem necessariamente resultados futuros. Muita disciplina e muita humildade”, afirmou Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, em call com analistas na manhã de quinta, 5.
“Estamos muito confiantes com o futuro do banco, apesar das incertezas. E esse é, claramente, um ano com mais incertezas”, destacou ele mais cedo, em conversa com jornalistas. “Nós nunca estivemos tão fortes e preparados para enfrentar os desafios.”
Mesmo destacando que o forte desempenho registrado por diversos balanços consecutivos não assegura que essa performance vá se repetir, Maluhy e seus pares recorreram a alguns dados que mostram a evolução do banco nos últimos cinco anos para ressaltar essa crença na operação.
Nesse intervalo, o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) saiu de 19,3% para 23,4%, enquanto o lucro líquido avançou de R$ 26,9 bilhões para a marca divulgada ontem, de R$ 46,8 bilhões - o maior resultado já apurado por um banco brasileiro.
Outro destaque do balanço foi a entrega de todos os indicadores projetados pelo banco para 2025.
“Entramos com o guidance e, ao longo do ano, fomos capazes de fazer alguns ajustes e acabamos gerando um resultado maior do que o esperado, de R$ 2 bilhões aproximadamente”, disse o CEO.
O resultado também foi acompanhado para o guidance de 2026, que, entre outras estimativas, projeta uma carteira de crédito com um crescimento entre 5,5% e 9,5% – a linha cresceu 6% em 2025, para R$ 1,49 trilhão.
“A mecânica vai ser a mesma de 2025. À medida que tivermos mais segurança dos cenários, os guidances podem ser eventualmente alterados”, observou Maluhy. “Se entendermos que há uma oportunidade de acelerar o crescimento da carteira, o mercado será avisado prontamente.”
À parte de qualquer impacto do cenário macro, muito da confiança e do otimismo destacados por Maluhy residem nas frentes em que o banco vem evoluindo nos últimos anos. As quais, foram destacadas também pelo executivo nas conversas dessa manhã.
“Nossa carteira está muito saudável e temos um nível de engajamento em níveis recordes”, afirmou. “Além de toda a nossa agenda de transformação cultural e digital, que já é nosso novo normal. E temos muito ainda pela frente – aplicações de novas tecnologias, inteligência artificial e centralidade no cliente.”
Em um dos movimentos que ilustram essa pegada, o banco destacou o fato de ter alcançado um patamar de 15 milhões de clientes migrados para o seu super app em 2025, com um NPS (índice que mede a satisfação dos clientes) de 80 pontos.
“Em linhas gerais, acho que eles estão tendo sucesso nessa estratégia de reduzir custos dessa parte mais obsoleta e modernizar o banco”, diz um gestor comprado no papel ao NeoFeed. Ele cita que o super app é um bom exemplo, ao ser muito mais objetivo e economizar tempo no relacionamento com o banco.
“O banco está valendo R$ 500 bilhões”, prossegue o gestor. “Estamos falando aí perto de 10 vezes o lucro. Dado que ontem teve uma correção importante, hoje, a ação deveria reagir de neutro para positivo.”
Após abrirem o dia na B3 com ligeira alta, as ações preferenciais do Itaú Unibanco subiam 2,35% por volta das 11h45, cotadas a R$ 45,67 e dando ao banco um valor de mercado de R$ 503,5 bilhões.
Com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 45,63 para a ação, o Citi observou, entre outros pontos, que o guidance fornecido pelo banco indica que, em mais um ano, as receitas com tarifas e seguros poderão superar as despesas.
“É um feito impressionante considerando os investimentos em tecnologia e os novos produtos oferecidos pelo banco. Isso nos leva crer que o Itaú seguirá se esforçando para atender os clientes de forma mais eficiente no futuro”, escreveram os analistas do Citi.
Já o BTG, que tem recomendação de compra e preço-alvo de R$ 50 para a ação, ressaltou que acredita que o banco possa seguir superando as expectativas no médio prazo.
“Embora o guidance para 2026 possa parecer mais conservador, vemos esse ano como uma transição e não como um período de desaceleração, especialmente considerando a incerteza relacionada às próximas eleições, que tende a reduzir o apetite por risco”, apontou o BTG. E acrescentou:
“O banco deve acelerar sua transformação digital, visando reduzir significativamente o custo de atendimento. Isso provavelmente implica em alguns investimentos incrementais no curto prazo, mas vemos essas iniciativas como um bom posicionamento do banco para o próximo ciclo.”
Caso Master
À parte dos resultados e perspectivas do banco, Maluhy foi questionado a respeito dos impactos da liquidação do banco Master para o sistema financeiro e sobre os efeitos em frentes como o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), na esteira do caso.
“A impressão é que interesses próprios vieram na frente dos interesses do sistema”, disse o CEO. “No fim do dia, esse caso deixou uma conta de R$ 55 bilhões para o sistema, para um fundo [o FGC] que tem hoje um patrimônio de cerca de R$ 120 bilhões. Ou seja, quase metade das reservas foram drenadas.”
Ele frisou que essa conta precisar ser paga, para que seja transmitida a mensagem aos investidores de que o fundo tem patrimônio e estará capitalizado. E que um segundo ponto é como fazer essa capitalização, de modo que não impacte o custo para a ponta dos clientes.
“Um terceiro ponto é não permitir que um evento dessa magnitude aconteça novamente”, afirmou, destacando que o caso traz aprendizados em vários aspectos e eles têm que ser bem digeridos por todos os agentes do mercado.
“É evidente que o modelo do FGC foi sendo desvirtuado por algumas plataformas que usaram o fundo como modelo para alavancarem seus próprios negócios”, disse, ressaltando a responsabilidade e a curadoria que todos devem ter antes de distribuírem produtos em suas prateleiras.
“Os incentivos foram colocados de forma equivocada. Então, são esses abusos e erros que a gente evita todos os dias. Nós nunca distribuímos um CDB do Banco Master. Por convicção”, completou.