Prestes a completar, em dezembro, oito anos à frente das operações globais da JBS, Gilberto Tomazoni vai deixar o comando da companhia. E o grupo decidiu buscar em casa – literalmente - o nome do seu substituto.
Maior empresa de proteínas do mundo, a companhia brasileira anunciou Wesley Batista Filho como seu novo CEO global nesta segunda-feira, 10 de agosto. Membro da terceira geração da família fundadora do grupo, ele vai assumir a posição a partir de 1º de janeiro de 2027.
Esse período de transição será conduzido por Tomazoni, que, até lá, continuará na liderança das operações. Após concluir esse processo, o executivo passará a atuar como vice-chairman do conselho de administração da JBS - hoje, ele já é membro do colegiado – e como sênior advisor da companhia.
Em paralelo, Tomazoni seguirá como chairman do board da Pilgrim’s Pride, uma das subsidiárias do grupo, além de assumir a presidência do conselho do Instituto J&F, braço de formação de líderes empresariais da holding por trás da JBS e de negócios como PicPay, Eldorado Brasil e Âmbar Energia.
“Mais do que qualquer outra coisa, essa é, de fato, uma passagem de bastão. Não há uma descontinuidade. Essa sucessão estava sendo planejada há alguns anos”, diz Tomazoni, ao NeoFeed. Ele destaca que deixa a liderança da companhia em boas mãos.
“Eu e o Wesley trabalhamos diretamente juntos na operação dos Estados Unidos por dez anos”, afirma. “Ele conhece bem a companhia, os valores, tem muita capacidade de execução e tem feito um ótimo trabalho”.
Batista Filho, que, desde 2023, ocupava o posto de CEO da JBS USA, também se mostrou afinado com seu antecessor, ao ressaltar o entrosamento conquistado pela dupla, especialmente durante esses quase oito anos de gestão de Tomazoni.
“Esse é o fator positivo de uma transição interna”, afirmou o novo CEO global da JBS. “Eu já fazia parte de muito do que vinha sendo feito, até porque uma parcela relevante das decisões era tomada em equipe, obviamente, sob a liderança do Tomazoni. Agora, é dar sequência a isso”.
Antes dessa “tabelinha”, Batista Filho acumulou bagagem em diferentes posições de liderança na JBS. Ele ingressou no grupo em 2011, aos 18 anos, como trainee da Greeley, unidade de bovinos instalada em Colorado, nos Estados Unidos.
Na sequência, o executivo atuou na divisão de exportação de carne bovina, a partir do Brasil. Depois, liderou as operações de carne bovina da JBS no Uruguai e no Paraguai e, posteriormente, entre 2014 e 2015, comandou a JBS Canadá.
Nos dois anos seguintes, Batista Filho retornou à Greeley, nos Estados Unidos, para liderar a JBS USA Fed Beef. Em 2018, voltou ao Brasil como CEO da JBS no País e, três anos depois, passou a acumular essa posição com o cargo de CEO da Seara, a divisão de aves e suínos do grupo no mercado local.
Já em 2022, ele assumiu o posto de presidente global de operações, respondendo pelos mercados da América do Norte, América do Sul, Oceania e Europa. E, um ano depois, teve sua terceira passagem em Greeley, quando foi nomeado CEO da JBS USA.
Além de bagagem, Batista Filho acumulou alguns marcos nessas posições. Em sua gestão, a JBS Brasil, por exemplo, viu sua receita saltar de R$ 27,6 bilhões para R$ 53,8 bilhões. Em paralelo, ele comandou a ampliação do portfólio da Seara, ao adicionar categorias premium e novas marcas ao mix da operação.
Veteranos de casa
Assim como seu sucessor, Tomazoni é um “veterano” da casa, onde ingressou em 2013 e, entre outras passagens, foi presidente global do negócio de aves, da Seara e presidente global de operação, além de COO. E também colecionou marcas relevantes.
Seu período como CEO global da JBS tem bons exemplos nessa direção. Entre eles, a receita do grupo que saiu de US$ 49,7 bilhões, em 2018, para US$ 86,2 bilhões, em 2025, registrando uma taxa de crescimento anual composta de 8,2%, contra 4,5% e 3,5%, respectivamente, das rivais Tyson e Hormel.
Em outros indicadores, o grupo acumulou um fluxo de caixa livre de US$ 15 bilhões entre 2019 e o segundo trimestre de 2026. Além de distribuir US$ 6,3 bilhões de dividendos e de reservar US$ 3,3 bilhões para a recompra de ações nesse mesmo intervalo.
CFO da JBS, Guilherme Cavalcanti traz outros números para a mesa, nessa mesma base de comparação. “De dezembro de 2018 até hoje, o grupo deu um retorno de 273% para o acionista, contra 200% do S&P 500, 34% da Tyson e menos 27% da Hormel.
Ele ressalta ainda os US$ 6,4 bilhões destinados à expansão das operações da companhia, bem como os US$ 3,3 bilhões aplicados em M&As. “Nesse período, nós conseguimos ter as duas frentes que o investidor quer: crescimento e retorno”, diz Tomazoni.
Na prática, esses investimentos realizados contribuíram para consolidar a tese da JBS como uma empresa diversificada não apenas em proteínas, mas em geografias. E no mercado de capitais. Em julho de 2025, o grupo passou a ter suas ações negociadas também na Bolsa de Nova York.
“O maior desafio da JBS e de qualquer empresa é ter a equipe certa para o crescimento que ela pretende”, diz Batista Filho, quando questionado sobre a “pressão” de dar sequência a esse legado. “Nossa ambição é alta, mas o time tem um potencial gigantesco. Estamos preparados.”
Ele destaca, por exemplo, alguns dos movimentos mais recentes anunciados pelo grupo. Entre eles, a parceria estratégica com o Danantara Investment Management, braço de investimentos do fundo soberano da Indonésia.
Anunciado na última sexta-feira, o acordo prevê um aporte inicial de US$ 2,5 bilhões do parceiro em troca de 25% das operações da JBS na Austrália e na Nova Zelândia, em uma transação que pode movimentar um total de US$ 5 bilhões em financiamento para esses ativos.
“Estamos entrando em novas frentes, que estão só começando, com esse acordo, que é um trampolim importante para alavancarmos nossa operação na região do Pacífico”, disse Batista Filho. “Assim como temos oportunidades no Oriente Médio e de seguir desenvolvendo os negócios no Brasil e nos EUA”.
Nos EUA, os próximos passos envolvem também o mercado de capitais. Depois de ingressar nos índices Russell 3000 e Russell 1000 nesse ano, a companhia já ensaia novos avanços para traduzir sua presença na bolsa de valores americana em maior liquidez.
O próximo alvo é integrar os índices S&P. A começar pelo S&P 400, que engloba as empresas de médio porte listadas nos Estados Unidos. E o CFO, Guilherme Cavalcanti, detalhou as próximas etapas que o grupo irá cumprir nessa direção.
“Nesse trimestre, estamos fazendo o filing como uma empresa doméstica americana no formulário 10-Q e, no fim do ano, vamos fazer o 10-K”, afirma o CFO. “E o próximo passo é ter tanto demonstrações financeiras em US GAAP quanto em IFRS”.
Ele ressalta que a principal ambição, porém, é integrar o S&P 500. “Mas, para isso, o valor de mercado da companhia tem que chegar a US$ 23 bilhões”, diz. “Um cenário realista é estarmos no S&P 400 em 2027 e, no S&P 500, em 2028.”
Balanço
Enquanto traça esses planos, a companhia também divulgou nessa segunda-feira seu balanço do segundo trimestre de 2026. Entre abril e junho, a receita cresceu 14% em base anual, para US$ 23,9 bilhões, cifra que foi recorde para o período na história do grupo.
Em contrapartida, a última linha do balanço trouxe um prejuízo líquido de US$ 102 milhões, revertendo o lucro líquido de US$ 528 milhões apurado em igual período, um ano antes, o que o grupo atribuiu ao impacto de efeitos não recorrentes.
Esse pacote inclui questões como o montante de US$ 172 milhões em prêmios, juros e custos associados às recompras de títulos, e US$ 81 milhões de ajustes na aquisição da Mantiqueira Foods. Sem esses efeitos, o lucro líquido ajustado foi de US$ 218 milhões.
Em outras linhas, a JBS registrou um Ebitda ajustado de US$ 1,42 bilhão, queda anual de 18%. Já o fluxo de caixa livre teve uma melhora de US$ 185 milhões e fechou o trimestre positivo em US$ 130 milhões. Enquanto a alavancagem líquida foi de 3,10 vezes, contra 2,27 vezes no mesmo intervalo de 2025.
Nas unidades do grupo, entre outros números, a JBS Feed North America teve receita líquida recorde de US$ 7,7 bilhões, alta de 14,2%, enquanto na Pilgrim’s Pride, o indicador recuou 2,8%, para US$ 4,6 bilhões.
Já a JBS Brasil também apurou receita recorde, de US$ 4,5 bilhões, o equivalente a um crescimento de 28%. Na Seara, a expansão nessa linha foi de 18,2%, para US$ 2,5 bilhões.