A JBS entrou na prévia da recomposição anual dos índices Russell, divulgada pela FTSE Russell. A mudança passa a valer depois do pregão de 26 de junho e marca o primeiro passo concreto da companhia em uma nova fase da listagem em Nova York: a de tentar transformar presença na bolsa americana em mais liquidez, maior base de investidores e uma precificação mais próxima dos pares globais.

A empresa apareceu na lista preliminar do Russell 3000. O Morgan Stanley afirma que a JBS também deve ter sido incluída no Russell 1000, embora a confirmação específica desse índice costume ser detalhada nas semanas seguintes. O banco estima um fluxo passivo de cerca de US$ 190 milhões - o equivalente a aproximadamente dois dias de negociação.

O Citi trabalha com uma conta um pouco maior, entre US$ 210 milhões e US$ 300 milhões. Mais importante, porém, é o potencial de médio prazo. Para o banco, a normalização da exposição de ETFs, estratégias fatoriais e gestores ativos poderia atrair entre US$ 1 bilhão e US$ 4 bilhões em fluxos acumulados em 12 a 24 meses.

O BTG Pactual já havia apontado, em relatório de abril, que a entrada no Russell seria o próximo passo natural depois da listagem americana. O objetivo final, no entanto, seria uma eventual entrada no S&P 500, ainda dependente de requisitos como histórico de listagem nos Estados Unidos, entrega de formulários, free float superior a 50% e valor de mercado mínimo de US$ 22,7 bilhões.

Para entender como o mercado está lendo esse movimento, o NeoFeed conversou com gestores e analistas que acompanham a JBS. A leitura predominante é que o impacto imediato do rebalanceamento é positivo, mas limitado.

O que realmente importa é se a inclusão nos índices americanos vai ajudar a reduzir o desconto da companhia em relação a empresas como a Tyson Foods e colocá-la em índices ainda maiores.

“É verdade que sempre existiu uma má vontade do investidor global com a JBS por vê-la como empresa de mercado emergente e não como americana, sendo que 50% da receita da empresa já vem dos EUA”, afirma Luca Vello, analista de frigorífico da Genial.

Hoje, a Genial está neutra e com o preço alvo da JBS para o fim do ano é de US$ 18,5 - em tela o papel roda perto de US$ 13 na Nyse. Mas esse preço-alvo pode ser revisto com a entrada nos índices americanos. Ainda sendo preciso entender qual o percentual que a empresa terá no Russell 3000 (e se entrará mesmo no Russell 1000).

“São cerca de US$ 2 trilhões em fundos passivos que seguem o índice Russel hoje, criando uma demanda compulsória futura mesmo sem fundamento para isso”, diz Vello.

Independentemente do tamanho que a empresa venha a ter nos índices, fato é que apenas ao entrar ela já entra em outro patamar.

“A questão é que permite que a ação vá ganhando mais visibilidade dentre investidores internacionais, o que poderia diminuir o desconto de valuation da JBS em relação às empresas dos EUA e colocá-la em outros índices ainda maiores no futuro”, afirma Alexandre Miguel, sócio da RPS Capital.

Na EQI Research, a listagem nos Estados Unidos já era o principal pilar da tese de investimento em JBS. A casa colocou o papel em sua carteira recomendada perto desse movimento porque enxergava ali uma oportunidade de reprecificação. A entrada nos índices, agora, é vista como uma etapa necessária para essa tese ganhar tração.

“A listagem nos Estados Unidos era um fator determinante para a nossa tese, muito importante, era um pilar para a reprecificação da JBS”, diz Nícolas Merola, analista da EQI Research.

“Ela aconteceu. O prazo para que a visão do mercado americano em relação à empresa mudasse demorou um pouco, mas está começando a acontecer agora a partir dessa participação nos índices”, complementa o especialista.

Cabeça a cabeça

A JBS sempre teve uma dificuldade de comparação na bolsa brasileira. Com escala global, presença relevante nos Estados Unidos e uma operação espalhada por diferentes proteínas e geografias, a companhia tinha poucos pares locais capazes de servir de referência. Em Wall Street, a comparação mais direta passa a ser com empresas americanas de alimentos e proteínas, especialmente a Tyson.

Esse é o ponto que o mercado quer ver destravado. Segundo Merola, a entrada nos índices ajuda por trazer fluxo passivo e aumentar liquidez, mas também por sinalizar que a empresa está cumprindo os requisitos exigidos pelo mercado americano, como padrões de divulgação e governança.

Tito Ávila, sócio e diretor de Gestão e Risco da LIS Capital, vê o movimento como muito positivo para a empresa dentro da nova realidade do mercado: o das empresas que estão nos grandes índices e o das que ficam fora deles.

“As companhias que estão nos índices acabam sendo mais compradas, mais acompanhadas por analistas e mais cobertas pelo mercado. As que ficam de fora vão caindo no esquecimento. Isso deixou de ser um detalhe técnico”, diz Ávila.

Segundo ele, a JBS negocia perto de 5 vezes EV/Ebitda, enquanto a Tyson gira em torno de 8 vezes. Se a companhia conseguisse fechar parte desse desconto, poderia se aproximar de um valor de mercado na casa de “20 e poucos bilhões de dólares” e ficar mais perto dos critérios para disputar uma vaga no S&P 500.

Esse movimento teria implicações além da bolsa. A JBS é uma compradora recorrente de ativos. Com ações negociando a múltiplos baixos, seu custo de capital próprio fica mais alto. Com uma ação melhor precificada, a companhia ganha uma moeda de troca mais forte para aquisições.

“Se a companhia negocia a múltiplos baixos, como 5 vezes Ebitda, seu custo de capital via ações é alto. Mas, se conseguir fechar o gap para algo próximo de 8 vezes, passa a ter uma moeda de troca mais forte”, diz Ávila.

E isso acontece em um momento crítico para a empresa, cujas margens estão mais comprimidas devido ao aumento do preço dos insumos. O principal ponto de pressão continua sendo o bovino nos Estados Unidos. Desde a pandemia, o preço do gado americano vem subindo de forma persistente, comprimindo as margens. Até recentemente, outras divisões da JBS (como aves nos Estados Unidos, suínos, aves no Brasil e bovinos no Brasil) ajudavam a compensar esse aperto.

No resultado mais recente, essa compensação perdeu força. Houve uma deterioração simultânea em várias frentes, com piora de spreads e achatamento de margens em negócios que vinham sustentando a companhia.

“A JBS sempre falou que a diversificação dos negócios era importante porque mitigaria esses ciclos. Mas, nesse trimestre especificamente, a diversificação não foi o suficiente para proteger o resultado da companhia”, diz o analista da EQI Research.

Por conta disso, a EQI reduziu há alguns meses o peso da ação em sua carteira recomendada de 10% para 5%, mas continua construtiva com a JBS no longo prazo muito pela perspectiva de mudança com a listagem.

E se a perspectiva é que o gap entre os pares americanos diminua, com os pares brasileiros também. “A empresa vai ganhar uma competitividade maior frente a Minerva e MBRF pelo maior acesso de capital, o que pode torná-la ainda mais competitiva no Brasil”, afirma o analista da Genial.

(Colaborou Guilherme Guilherme)