Boca Raton, FL – Com cerca de 136 hectares, o The Boca Raton é um dos principais resorts de luxo dos Estados Unidos. Localizado a 66 quilômetros de Miami, ele é destino para quem busca relaxar sob o sol da Flórida (mesmo no inverno) e quer aproveitar para jogar golfe no campo de 18 buracos, disputar uma partida de tênis em uma de suas 30 quadras ou apenas comer bem – o resort conta com 15 bares e restaurantes.

Mas para um grupo de pouco mais de 1 mil pessoas, o que realmente interessa é o que está acontecendo no centro de convenções do resort com quase 98 anos de história. Nesta semana, o The Boca Raton é a sede da conferência anual da Cagny, um dos principais eventos dos setores de alimentos, bebidas e beleza dos Estados Unidos.

A conferência reúne analistas e investidores pesos pesados do segmento, como PepsiCo, Coty e Colgate-Palmolive, para falar sobre as teses das companhias, tendências do segmento e planos para o futuro. E pela primeira vez em quase 70 anos de existência, os organizadores da Cagny convidaram uma empresa brasileira para participar.

Em meio aos preparativos para a dupla listagem nos Estados Unidos, a JBS quer aproveitar o evento para apresentar as transformações pelas quais passou ao longo de 70 anos de história, de olho nas recomendações e, principalmente, nos bolsos de potenciais novos investidores.

“É o momento de dizer quem nós somos, onde estamos, o que fazemos e para onde vamos”, diz Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, ao NeoFeed. “Esses analistas passarão a nos cobrir no momento em que estivermos listados nos Estados Unidos. Então, vamos contar com mais profundidade quais as vantagens competitivas da companhia.”

Tomazoni e Wesley Batista Filho, CEO da JBS USA, conversaram com o NeoFeed um dia antes da sua apresentação, nesta quinta-feira, 22 de fevereiro. O objetivo é mostrar a diversidade dos negócios e das geografias que a JBS conquistou desde que foi fundada em 1953 em Anápolis, Goiás.

A ideia é contar a história de um frigorífico local que se transformou em um dos maiores nomes no ramo de alimentos do mundo, com destaque também na produção de frango, suínos e alimentos preparados, com 270 mil funcionários e receita anual de US$ 71,1 bilhões, sendo que 73% do faturamento vem do exterior.

Um dos argumentos da apresentação é de que esse perfil ajuda a JBS a atravessar períodos complexos (como o atual), em que o ciclo bovino nos Estados Unidos está em baixa. “Poucas empresas, talvez nenhuma empresa do segmento de bovino, tem essa diversificação”, diz Tomazoni. “Não temos só bovino, temos frango, suínos, produtos de valor agregado.”

Neste sentido, a JBS também pretende mostrar ao público da Cagny que é capaz de criar marcas fortes nos mercados em que atua, especialmente de produtos de valor agregado, sendo mais do que apenas uma empresa exclusivamente de proteína. É o caso da Seara, adquirida em 2013 por R$ 5,8 bilhões, e que em 2022 registrou um faturamento de R$ 43 bilhões.

Desde 2007, a JBS realizou mais de 40 aquisições pelo mundo, investindo um total de US$ 16,8 bilhões. Deste total, 44% foram destinados aos Estados Unidos, país responsável atualmente por 51% da receita e no qual a companhia detém marcas conhecidas do grande público, como Pilgrim's, de frango, e Swift, de carne.

“Vamos conseguir contar um pouquinho da jornada que temos feito, de construção de marcas”, diz Batista Filho. "Temos marcas muito relevantes nos mercados delas, mas as pessoas não conhecem todas elas, porque elas são conhecidas mais nas regiões em que atuam. Nossa ideia é contar essa história e deixar claro [aos analistas e investidores] toda essa história."

Listagem

O “pitch” aos investidores ocorre enquanto a JBS vai trabalhando para listar suas ações nos Estados Unidos. O processo, anunciado publicamente em julho do ano passado, prevê que as ações da companhia sejam negociadas na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). Quem tem ação da JBS na B3 vai receber BDR Nível II, o espelho da ação classe A a ser listada nos Estados Unidos, mas poderá migrar para os papéis classe A.

A empresa defende a listagem nos Estados Unidos como um passo transformacional, tal como foi a abertura de capital que realizou em 2007, na B3. “Isso cria uma possibilidade de uma aceleração muito grande dos negócios da companhia, porque poderemos crescer via emissão de equities, facilitando inclusive novas aquisições”, diz Tomazoni.

A expectativa é de que a operação também ajude a melhorar a avaliação da JBS, abaixo da registrada por concorrentes e até controladas. As ações da companhia, avaliada em R$ 49,2 bilhões, é negociada a um EV/Ebitda de 7,47 vezes. O múltiplo da Tyson Foods, por exemplo, é de 10,3 vezes, enquanto o da Pilgrim’s Pride, controlada da JBS, é de 9,7 vezes.

O CFO Guilherme Cavalcanti diz que o fato de as ações não estarem listadas nos Estados Unidos também restringe a base de investidores da companhia. Com a chegada ao mercado americano, a JBS terá acesso a um mercado 50 vezes maior em termos de liquidez do que a B3, um volume de liquidez elevado e uma questão para muitas gestoras investirem na empresa, inclusive grandes grandes fundos passivos, que seguem os índices americanos.

Quando a operação foi anunciada, havia a expectativa de a empresa ter seus ativos negociados nas duas bolsas até dezembro. No entanto, a companhia viu o cronograma atrasar em função de questionamentos da Securities and Exchange Commission (SEC). Também teve a permissão para que detentores de recibos de depósito americanos votassem na proposta.

A companhia estima que, na melhor das hipóteses, deve realizar a listagem até o fim do primeiro semestre. “O timing dele depende um pouco da gente, mas depende da SEC também”, diz Cavalcanti. “Não estamos com pressa para fazer isso, não precisamos levantar capital para pagar dívida, nem com nenhum M&A no radar.”

O plano da dupla listagem da JBS, porém, não está sendo “comprado” por todo mundo. Desde ambientalistas, passando por frigoríficos americanos (seus concorrentes) e até parlamentares americanos estão se colocando contra a companhia.

Segundo Tomazoni, a JBS já tomou uma série de medidas para coibir crimes ambientais relacionados ao desmatamento, para a criação de pastagens e para fortalecer os mecanismos de governança e compliance. Para ele, publicações sobre esses assuntos não devem prejudicar a dupla listagem.

“A SEC fez perguntas para nós e já respondemos”, diz. “Estamos dando visibilidade e transparência sobre tudo o que fazemos. E ser listado na SEC aumenta o nível de governança. Se estamos seguindo com isso, é porque estamos no caminho certo.”