O aviso que havia sido dado no ano passado pelo CEO do grupo Multiplan, Eduardo Peres, de que a companhia iria reavaliar sua alocação de capital e ter mais cautela para definir os investimentos começa a ser colocado em prática já nos primeiros dias de 2026.

A empresa anunciou a intenção de vender 10% do BH Shopping por R$ 285 milhões. No memorando de entendimentos, ficou definido que a companhia pretende receber R$ 138,75 milhões à vista, R$ 69,37 milhões em 12 meses e mais R$ 69,37 milhões em 18 meses após a conclusão do negócio.

Além disso, o futuro comprador irá pagar R$ 7,5 milhões, em 24 meses, após a inauguração da fase de expansão do BH Shopping. No documento divulgado, a Multiplan não informa se já tem uma oferta na mesa e nem o nome do possível novo sócio no empreendimento mineiro.

Para os analistas do BTG Pactual, a negociação faz sentido neste momento. “Apesar de ser um movimento relativamente pequeno (representando cerca de 1,5% do EV [enterprise value] da Multiplan), vemos o negócio como positivo”, diz o banco.

“Em nossa opinião, isso reflete uma alocação de capital mais positiva por parte da Multiplan, o que acreditamos que deve ser bem recebido pelos investidores”, afirmam os analistas Gustavo Cambauva e Gustavo Fabris, que assinam o relatório.

O mercado reagiu bem à iniciativa de desinvestimento da companhia fundada por José Isaac Peres. Por volta de 12h desta terça-feira, 6 de janeiro, as ações da Multiplan registravam alta de 2,8% na B3.

Em relatório, o Santander também enxerga o negócio como positivo para a saúde financeira da companhia. “Essa transação reforça a disciplina da Multiplan na alocação de capital. Além disso, entendemos o negócio como positivo do ponto de vista de valuation”, afirma o banco.

“Vale destacar que a transação também reduz o índice de alavancagem da companhia (dívida líquida/Ebitda no final de 2026) para 1,9 vez, em comparação a 2 vezes sem a venda do BH Shopping”, afirmam os analistas Fanny Oreng, Matheus Meloni e Luis Wadt.

Enquanto o BTG segue com recomendação de compra das ações da Multiplan, o Santander mantém a posição de outperform para os papéis da companhia dona de 20 shopping centers no País.

Em entrevista ao NeoFeed em junho, Peres afirmou que 2026 seria um ano de reavaliação dos investimentos, principalmente pela Selic alta – atualmente em 15% ao ano – e pela falta de disciplina do governo federal em colocar em prática uma política de ajuste fiscal.

“A ideia é reduzir os investimentos, ser mais seletivos. Até porque essa taxa de juros nos obriga a fazer isso. Não me sinto à vontade para sair comprando com esse ambiente econômico”, disse o CEO da Multiplan, na ocasião.

À época, a companhia vinha de um forte ciclo de investimentos e de alocação bem agressiva de capital, sendo R$ 2,1 bilhões somente em recompra de ações. No pacote de investimentos, estão R$ 1,5 bilhão no plano de expansão de sete centros de compras da empresa.

Vender 10% do empreendimento mineiro em 2026 tem um simbolismo importante para a empresa, criada em 1975. O BH Shopping foi o primeiro shopping inaugurado pela Multiplan, em 1979, e o primeiro de Minas Gerais.

No portfólio da companhia, ele ocupa a terceira posição em produtividade de vendas, com volume anual de R$ 40,1 mil por m² (contra média de R$ 28,2 mil do total dos shoppings), e também terceiro lugar em produtividade de aluguel, com R$ 4.212 por m² (versus R$ 2.407 da média do portfólio da Multiplan).

Com 445 lojas e 47,5 mil m² de área bruta locável (ABL), o BH Shopping passará por um processo de expansão que vai garantir um acréscimo de cerca de 2 mil m² de ABL, com mais seis lojas satélite e uma nova loja âncora. A entrega está prevista para o primeiro semestre deste ano.

No terceiro trimestre de 2025, a Multiplan registrou crescimento de 6,9% em vendas em relação ao mesmo período do ano anterior, com volume de R$ 6,1 bilhões. A receita líquida somou R$ 618 milhões, alta de 13,3%. O lucro, no entanto, caiu 20,9%, com R$ 221 milhões.

No acumulado de 12 meses, os papéis da companhia alcançam valorização de 34,2%. A Multiplan está avaliada em R$ 14,4 bilhões.