A Iguá Saneamento fechou 2025 com receita recorde de R$ 2,7 bilhões, com crescimento de 42,5% em relação a 2024 e perspectiva de dobrá-la nos próximos quatro anos, fruto de sua estratégia concentrada nos investimentos em três de seus dez ativos – as concessões de um dos blocos do Rio de Janeiro, em 74 municípios de Sergipe e na cidade de Cuiabá (MT).
Os indicadores financeiros e operacionais do quarto trimestre de 2025 e o consolidado do ano da empresa foram divulgados na noite de quarta-feira, 25 de março, pelo presidente da Iguá, René Silva, e pelo diretor financeiro e de relações com investidores da companhia, João Lopes, em conversa com jornalistas.
O Ebitda ajustado totalizou R$ 363,9 milhões no quarto trimestre, crescimento de 73,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, com margem Ebitda de 45,2%. No acumulado de 2025, o indicador somou R$ 1,16 bilhão, com margem de 42,7%.
Apesar dos bons números, os dois executivos deixaram claro que a empresa não pretende participar do leilão da Copasa – a estatal de saneamento de Minas Gerais, que deve atrair o interesse dos principais players do setor -, preferindo priorizar investimentos nas operações atuais, em especial na concessão de Sergipe, iniciada em maio de 2025. Quanto à participação em outros leilões, ainda em estudo, a condição é de que tragam sinergia com as operações atuais.
Silva atribui os bons indicadores à operação da Iguá Rio, na zona oeste da capital fluminense, e à consolidação da operação plena em Sergipe. Juntas, respondem por 73% da receita. Somadas à concessão de Cuiabá - iniciada em 2017 e que hoje entrega praticamente 100% de cobertura de água e cerca de 92% de cobertura de esgoto –, as três operações respondem por 90% da receita da empresa.
“O avanço consistente dos resultados reflete a execução disciplinada da nossa estratégia e o foco permanente em eficiência operacional”, afirma o presidente da Iguá, destacando o forte apoio de acionistas de longo prazo, que já injetaram mais de R$ 5 bilhões na empresa. Os acionistas incluem os fundos canadenses CPP (com 66,5% de participação) e AIMCo (24%), além do BNDESPar (9,5%).
Atualmente, a Iguá possui 10 ativos, sendo 7 concessões e 3 PPPs, atendendo cerca de 6 milhões de pessoas em 121 municípios de 6 estados.
Esta configuração é resultado de uma mudança estratégica, pois a empresa possuía 18 operações em 2019, antes de realizar 9 desinvestimentos e adquirir os ativos do Rio e Sergipe. Outros três ativos no interior de São Paulo - Andradina, Castilho e Mirassol - estão em processo de venda para a Sabesp.
O foco nas três operações que trazem mais receita foi evidente ao longo de 2025. A Iguá opera o bloco 2 da concessão do Rio de Janeiro, atendendo cerca de 1,2 milhão de pessoas na capital e atuando também nos municípios de Miguel Pereira e Paty do Alferes.
Na cidade do Rio, o bloco corresponde integralmente à região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, com 21 bairros, com um perfil socioeconômico acima da média e altos índices de cobertura. O investimento acumulado é de R$ 1 bilhão desde o início da concessão.
A inauguração da revitalizada Estação de Tratamento de Esgoto da Barra (ETI Barra) em dezembro, com R$ 170 milhões em investimentos, foi um marco importante.
“O projeto ‘Juntos pela Vida das Lagoas’ inclui a dragagem do complexo lagunar e a instalação de coletores de tempo seco, o que aumentou a oxigenação das lagoas de 5% para 14% e permitiu o retorno de espécies”, afirma Silva, referindo-se ao trabalho de despoluição das lagoas na Barra da Tijuca.
Em Sergipe, a Iguá assumiu a concessão tendo de lidar com um problema histórico - a falta d'água, com clientes ficando até 15 dias sem abastecimento. A empresa antecipou investimentos em água (adutoras e reservação), totalizando R$ 195,1 milhões, e criou o "Plano Verão" para resolver o problema de abastecimento.
O plano diretor para mapear a rede e comparar com o previsto no edital está sendo formado. A cobertura inicial era de mais de 90% em água (com intermitência) e cerca de 30% em esgoto.
“A receita de Sergipe deve crescer fortemente, aproximando-se da do Rio, que hoje representa 45% do total, mas a princípio não deve ultrapassá-la”, afirma Lopes, que exalta o portfólio considerado jovem da empresa, com um prazo remanescente médio de contrato de 30 anos, indicando alto potencial de crescimento.
Apetite por leilões
Questionados sobre o apetite da Iguá para o extenso calendário de leilões de saneamento de 2026, com sete certames, os dois executivos não demonstraram grande entusiasmo em expandir o portfólio da empresa.
Parte da cautela se deve ao endividamento da Iguá, embora assegurem que ela não preocupa. A dívida total é de R$ 12 bilhões, concentrada no Rio, devido à alta outorga.
“A dívida é majoritariamente de longo prazo (20-29 anos), com um fluxo de amortização confortável”, assegura Lopes, acrescentando que a alavancagem caiu para 10,4, e o índice de cobertura de dívida de referência é de 1,2 vez.
De acordo com o diretor de relações com os investidores, a empresa não pretende disputar o leilão da Copasa por duas razões. “Primeiro, por causa da concessão em Sergipe, que acabamos de assumir, que é uma operação grande em termos de investimento”, diz. “Além disso, a sinergia da Copasa com outras operações nossas não parece tão óbvia; leilões mais tradicionais, de concessão plena, poderiam fazer mais sentido.”
Depois de reforçar a necessidade de sinergia de possíveis novos ativos com a operação atual, o presidente da Iguá acabou dando uma dica sobre o provável interesse da empresa no calendário de leilões.
“O que interessaria são cidades grandes, com mais de 200 mil habitantes, que tenham também até uma sinergia geográfica com as nossas operações”, afirma Silva – o que permite imaginar o leilão de Alagoas como possível alvo.
Diferentemente de outras gigantes do setor, como a Aegea, que sinaliza um possível IPO, o diretor financeiro Lopes diz que a Iguá se considera "pronta" para um IPO desde 2019/2020 e está listada na categoria A, mas sem ações em circulação – os papéis estão todos com os três acionistas.
“Um IPO não é uma necessidade imediata, pois os projetos estão financiados, mas é desejável para acessar capital e dar liquidez aos acionistas, dependendo de uma "janela de mercado" favorável”, diz o executivo.