Em uma crise marcada pelo não pagamento de milhões de reais para investidores, a Fictor Holding e a Fictor Invest entraram com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo. No documento, ao qual o NeoFeed teve acesso, a Fictor justifica a crise financeira pelas associações com o Banco Master e pela cobertura da imprensa.

A compra do Banco Master, anunciada pela Fictor em novembro de 2025, tinha “o objetivo de assegurar a continuidade das operações da instituição“ com a ajuda de um investidor estrangeiro.

Mas o fato de o banco ter sido alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, no dia seguinte ao anúncio da aquisição, teria sido o gatilho para a crise da Fictor, segundo o documento.

“Diante da ampla repercussão negativa envolvendo o Banco Master […] o noticiário passou a direcionar atenção também ao grupo adquirente, inserindo seu nome de forma recorrente nas reportagens que tratavam dos desdobramentos do colapso financeiro e institucional do banco”, diz a Fictor.

Ao longo de dezembro, diz o documento, “a Fictor passou a ser alvo de intensa exposição negativa na imprensa, com reportagens, colunas de bastidores e análises que passaram a questionar a própria consistência da operação anunciada, bem como o suposto papel do grupo no contexto da crise que envolvia o banco”.

A Fictor ainda afirma que, “de maneira recorrente”, a mídia distorceu fatos e foi enviesada, “o que contribuiu para intensificar a exposição negativa da marca no período”.

Tal cobertura da imprensa, segundo a Fictor, refletiu diretamente na percepção da marca, com queda das ações da Fictor Alimentos, sua subsidiária listada na B3, e revisão de contratos comerciais “em razão da associação especulativa da marca com o Banco Master e seu controlador”.

A Fictor ainda afirma que, diante da desconfiança, seus investidores passaram a realizar pedidos “atípicos” de resgate dos aportes feitos em SCPs da empresa.

As SCPs são Sociedades em Conta de Participação, que dão o direito ao investidor de ter participação no lucro, mesmo sem responsabilidade ou direito de voto sobre o curso das atividades.

Foi por meio desses instrumentos que a Fictor afirma ter levantado cerca de R$ 3 bilhões até novembro de 2025, financiando seu crescimento em diversas áreas, como infraestrutura e real estate. Mas, após a oferta de compra do Master, os pedidos de resgate chegaram a 71,38% desse valor - e não têm cobertura do Fundo Garantir de Créditos (FGC).

“Os desdobramentos do caso Banco Master desencadearam um efeito em cadeia sobre a Fictor, marcado por perda de confiança, exposição negativa contínua, retração de parceiros, corrida por retiradas e o consequente impacto direto no fluxo de caixa operacional da empresa”, diz o documento.

No pedido de RJ, a Fictor informou que os SCPs já não vinham mais sendo comercializados e que foram descontinuados “em momento anterior ao agravamento do cenário de liquidez que ensejou o presente pedido de recuperação judicial”.

Uma reportagem feita pelo NeoFeed em janeiro confirmou que as SCPs já não estavam sendo comercializados por assessores da Fictor, apenas um FIDC. Este mesmo assessor, no entanto, afirmou que as últimas SCPs foram comercializadas em dezembro.

As SCPs eram vendidas com promessas de retorno de 2% a 3% ao mês para o cliente, sem um período mínimo de permanência e com 60 dias corridos de prazo de resgate - alguns materiais publicitários citavam até 18% ao ano isento de imposto, segundo denúncia da Associação Brasileira dos Assessores de Investimento (ABAI) à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre o modo de comercialização do ativo.

Os comissionamentos, de acordo com a ABAI, chegavam a 2% ao mês sobre o volume vendido. Desde dezembro, no entanto, a Fictor vem sendo questionada pela falta de pagamentos. Em janeiro deste ano, a companhia chegou a emitir um comunicado de que os pagamentos seriam feitos em 12 de fevereiro.

Investidor a ver navios

É pouco provável, no entanto, que os pedidos de resgate sejam pagos, dado que a Fictor Invest, que atuava como sócia ostensiva nas estruturas das SCPs, foi incluída no pedido de recuperação judicial.

Embora tenha inserido a Fictor Holding e a Fictor Invest no contexto da RJ, o grupo solicitou que suas subsidiárias, que concentram parte relevante do patrimônio do grupo, sejam deixadas de fora do processo.

As atividades que a Fictor tenta manter de fora da RJ incluem a Fictor Alimentos, classificada como “principal subsidiária do Grupo”, com cinco unidades industriais e com capacidade de produção diária de 745,5 toneladas de produto acabado, além de uma unidade incubatória de aves.

Outro negócio deixado de fora foi a Fictor Infraestrutura, que agrega a frente de energia e real estate da empresa. Consta nesta divisão 4 operações de energia cujo investimento soma R$ 77 milhões, 10 projetos de geração de energia, que somam cerca de R$ 190 milhões em investimentos.

Em real estate, a empresa tem mais de R$ 100 milhões em projetos multifamily em operação em São Paulo e outros quatro projetos em andamento que envolvem investimentos superiores a R$ 300 milhões. A FictorPay, que concentra atividades de adquirência do grupo, também foi deixada de fora do pedido de RJ.

A Fictor justifica que as subsidiárias se tornaram “os novos carros-chefes do Grupo” e que são independentes o bastante para manter suas operações sem que suas obrigações a vencer componham a recuperação judicial – o que, segundo a Fictor, “geraria um grave cenário de estresse às operações, com sérios riscos de perda de carteira de clientes e fornecedores, ante a impossibilidade de pagamento de créditos concursais”.

Nesse caso, diz a Fictor, a operação “resultaria em verdadeiro efeito dominó”, levando todas as empresas do Grupo à falência. O documento, inclusive, deixa claro que a dívida das subsidiárias não tem qualquer relação com as obrigações assumidas perante sócios participantes das SCPs.