Se o termômetro do varejo de tecnologia em 2025 foi o iPhone 17, a Allied soube como ninguém medir essa temperatura. No quarto trimestre de 2025, a companhia não apenas surfou a onda do lançamento global da Apple, como transformou a escassez de produtos em uma vantagem competitiva.

Pela primeira vez na história, o iPhone superou a Samsung em vendas globais no último trimestre do ano, e na Allied, o destaque de vendas foi o modelo Pro Max, que registrou um crescimento de 30% em relação ao lançamento anterior.

"Vimos um movimento muito interessante neste lançamento. Quem mais cresceu foi o modelo Pro Max. Isso mostra que o consumidor brasileiro está buscando o topo da pirâmide, o que reforça nossa estratégia de oferecer serviços e seguros acoplados a esses aparelhos de alto valor”, diz Silvio Stagni, CEO da Allied, ao NeoFeed.

Essa "fome" do consumidor pelo topo da pirâmide alimentou um ecossistema circular que hoje é o grande diferencial da empresa. Por meio do programa "iPhone para Sempre", feito em parceria com o Itaú, a Allied garante a captação de aparelhos seminovos, que retornam ao mercado via Trocafy, seu braço de recondicionados que cresce a uma taxa de crescimento composto (CAGR) de 160% ao ano.

O desempenho da Allied também chama atenção quando colocado na perspectiva do cenário macroeconômico brasileiro. Em 2025, o mercado de distribuição de smartphones no Brasil encolheu 9%. O motivo principal foi a saída de grandes varejistas de moda, como C&A e Riachuelo, que deixaram de ser um distribuidor tradicional de eletrônicos.

No entanto, onde o mercado viu retração, a Allied viu oportunidade. A empresa compensou a perda desses clientes e cresceu sua operação de distribuição em 5,6%, consolidando um ganho de market share. Em notebooks, o movimento foi similar: enquanto a distribuição nacional caiu 7%, a Allied avançou 15%.

"Nós achamos caminhos e crescemos em diversos outros clientes para compensar essas saídas", diz Stagni.

Menos é mais

A estratégia para o varejo físico também passou por uma revisão. A Allied reduziu sua base de 112 para 98 lojas ao longo de 2025, fechando pontos que não entregavam a rentabilidade desejada e migrando para localizações premium, como os shoppings Pátio Paulista e Ibirapuera - a marca opera as lojas Samsung.

silvio stagni ceo da allied
Silvio Stagni, CEO da Allied

O resultado dessa "limpeza" foi um salto na produtividade. O faturamento por ponto de venda, que era de R$ 206 mil mensais em 2020, encerrou 2025 em R$ 545 mil. A eficiência é impulsionada por uma venda consultiva agressiva. A conta é que para cada celular vendido, a Allied anexa, em média, 2,4 acessórios e um seguro a cada três aparelhos.

Para o investidor, o resumo da ópera está na última linha do balanço. Em um setor onde o custo da dívida tem dizimado lucros, a Allied opera com uma alavancagem quase inexistente, de apenas 0,2 vez. Isso permitiu que a empresa se tornasse uma das maiores pagadoras de proventos da B3.

"Nós ligamos esse módulo de preservação de caixa em 2023 e não abrimos mão dele. É uma estratégia que dificulta a vida do comercial, mas que nos permite dormir tranquilos com uma alavancagem de 0,2x em um mercado onde o custo da dívida está matando o varejo”, afirma Thalita Basso, CFO da Allied.

O dividend yield de 14,2% em 2025 já seria motivo de destaque, mas quando somado ao efeito da redução de capital realizada no terceiro trimestre, o retorno total ao acionista atingiu 37,5% no ano.

Com um caixa robusto de R$ 375,9 milhões, a Allied entra em 2026 protegida contra a volatilidade dos juros e pronta para expandir a Trocafy para novas plataformas, como a Shopee, onde a operação estreou no último trimestre.

Na bolsa de valores, a ação da Allied acumula valorização de 6,25% em 12 meses. Em 2026, o papel ALLD3 cai 8,7%. O valor de mercado da companhia é de R$ 392,7 milhões.