A EntrePay, braço de adquirência do grupo Entre, do empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, tem sofrido um aumento de reclamações relacionadas a atrasos em repasses a lojistas de vendas feitas no cartão de crédito utilizando a maquininha da empresa.
A adquirente do Grupo Entre mantém parceria com o Banco do Nordeste para oferecer máquinas de cartão a tomadores de empréstimos do programa CrediAmigo, de microcrédito para pequenos negócios, que reúne cerca de 2 milhões de participantes.
Os atrasos nos repasses foram reconhecidos em comunicado ao mercado do Banco do Nordeste, que afirma que o problema está relacionado a “questões operacionais” da EntrePay e que, até a segunda-feira, 2 de março, seria solucionado.
Até quarta-feira, 4 de março, a empresa segue recebendo reclamações relacionadas aos atrasos em sua página no Reclame Aqui. Dos 42 questionamentos recebidos em ano pela página da empresa na plataforma, 36 foram feitos a partir de janeiro.
Em nota enviada ao NeoFeed, o grupo entre afirma que os atrasos têm relação com uma "falha técnica no processamento que gerou liquidações parciais". Segundo a empresa, a regularização está sendo providenciada junto às contrapartes afetadas.
Os atrasos nos pagamentos da EntrePay ocorrem em meio a investigações da Polícia Federal que ligam Antonio Carlos Freixo Júnior, CEO do Grupo Entre, a suspeitas de fraudes cometidas pelo Banco Master e a alterações relevantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) que detinham a companhia como cedente dos créditos.
Em janeiro deste ano, o empresário foi também alvo de uma operação de busca e apreensão na operação Compliance Zero ao lado de Julia Grasiela de Oliveira Freixo, co-fundadora e diretora jurídica do Grupo Entre, Daniel Vorcaro, dono do Master, João Carlos Mansur, da Reag, e Marcelo Quadrado, da Fortesec.
Do lado financeiro, o NeoFeed identificou, a partir de dados fornecidos pela plataforma Uqbar, quatro FIDCs que tiveram a EntrePay como cedente relevante em suas carteiras: o Rover FIDC, o Moriah FIDC (que posteriormente passou a se chamar Sinai Multi), FIDC Garson e o Garson Card.
Desde dezembro do ano passado, esses FIDCs sofreram uma série de alterações em suas estruturas, como trocas de administrador e gestor, mudança de nome e a inclusão, em regulamento, de novos fatores de risco relacionados aos cedentes dos créditos investidos.
Em nota ao NeoFeed, o Grupo Entre afirma que a Entrepay "teve operações de crédito e/ou cessão junto a parte dos FIDCs supramencionados" e que tinham como finalidade a "cessão e antecipação de recebíveis de cartões, como é de praxe nesse mercado, com outras instituições que atuam no setor de pagamentos". A companhia, no entanto, negou que os atrasos estejam relacionados às estruturas dos FIDCs.
O FIDC Garson é o maior entre aqueles que tiveram exposição à Entrepay, com quase R$ 300 milhões de patrimônio líquido declarado. Em dezembro, o fundo aprovou, em AGE, a inclusão de uma série de novos fatores de risco relacionados aos créditos.
A lista inclui a possibilidade de os direitos creditórios “serem bloqueados ou redirecionados para pagamento de outras dívidas do Cedente/Endossante ou dos respectivos Devedores, inclusive em decorrência de pedidos de recuperação judicial, falência, planos de recuperação extrajudicial”.
Este FIDC teve a EntrePay como cedente de mais de 10% de seu patrimônio até agosto de 2025, segundo documentos obtidos pelo NeoFeed, e entre maio de 2024 e junho de 2025.
Segundo nota do Grupo Entre, a Entrepay não possui qualquer relação com as regras definidas no regulamento do FIDC Garson e que "quaisquer operações de cessão realizadas foram em estrita observância do regulamento vigente e sob crivo e seleção do respectivo gestor".
O Grupo também afirmou que possui uma "sólida posição financeira", não havendo qualquer evento de liquidez que justifique um pedido de recuperação judicial da EntrePay.
A empresa que atua como consultora especializada do fundo é a Garson Crédito, que ocupa a mesma função no FIDC Garson Card, que tem a EntrePay como única cedente da carteira.
O fundo tinha, em janeiro deste ano, patrimônio líquido de R$ 197 milhões e, em avaliação referente ao terceiro trimestre, suas cotas subordinadas receberam rating BB da Liberum Ratings.
Por ser monocedente, a solidez operacional da EntrePay é fundamental para o sucesso do FIDC, segundo os analistas da Liberum Ratings. Em relatório, no entanto, eles informaram que não tiveram acesso aos demonstrativos financeiros da companhia.
O Grupo Entre, no entanto, afirma não ter recebido "nenhuma solicitação referente à Liberium", mas que se põe à disposição.
Outro FIDC que financiou as operações da EntrePay foi o Rover, que, em junho, chegou a ter mais de 10% do patrimônio líquido formado por créditos cedidos pela companhia.
De acordo com documentos obtidos pelo NeoFeed, em agosto, o fundo concentrava em apenas três devedores cerca de 83% do patrimônio líquido, próximo de R$ 150 milhões. Cada um dos três respondia por mais de 20% do patrimônio líquido, o que feria o limite de 20% estabelecido em seu regulamento.
O fundo é administrado pela Reag, que está em liquidação extrajudicial e é investigada pela Polícia Federal. O FIDC, segundo reportagem do jornal Valor Econômico, recebeu R$ 90 milhões do Banpará, um dos parceiros do Grupo Entre, segundo o site da companhia.
Sobre a administração do FIDC Rover, o Grupo Entre afirma que a Reag "era uma empresa registrada na CVM e que fazia a gestão e administração de diversos fundos de investimento, não sendo conhecidos, à época, eventuais aspectos desabonadores em relação a sua conduta".
No momento da liquidação da Reag, de acordo com a Entrepay, o Fundo Rover "estava em fase de troca de prestadores de serviços de gestão e administração". Não estão disponíveis na CVM, no entanto, qualquer ata de assembleia que verse sobre a troca da administração e gestão do fundo.
Já o FIDC Moriah teve participação relevante concentrada em créditos cedidos pela EntrePay entre janeiro e maio de 2024. O fundo passou por uma série de reformulações depois que Fabiano Zettel, dono da Moriah Asset, foi preso em operação da Polícia Federal ligada a investigações do caso Master, de seu cunhado, Daniel Vorcaro.
O FIDC, que chegou a ser administrado pelo Master e gerido pela Acura, trocou de nome, administrador e gestor, mas não conseguiu impedir o aumento de sua inadimplência, que saiu de 9,5% da carteira, em setembro, para 60%, em janeiro.
Embora seja citada como cedente relevante do fundo em documentos de 2024, o Grupo Entre afirma que a Entrepay "não possui nenhuma relação comercial ou de crédito junto ao referido fundo, não sendo responsável e/ou correspondendo aos créditos investidos" pelo Moriah FIDC. "Desconhecemos qualquer evento da Moriah", diz a nota.
Outro veículo ligado ao Master que também investiu em negócios do Grupo Entre foi o fundo de crédito privado Revolution, que, conforme reportagem do NeoFeed, chegou a ter R$ 112 milhões em debêntures da Leads Securitizadora.
Entre e a família Vorcaro
As ligações da família Vorcaro com o Grupo Entre não são recentes. Daniel Vorcaro e Antonio Carlos Freixo Júnior respondem juntos a um processo aberto em 2020 na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para apurar eventuais fraudes ligadas à 3ª emissão de cotas do fundo Brazil Realty.
As cotas foram subscritas pelo Master e parcialmente pagas com ativos que, de acordo com apuração da Superintendência de Registros (SRE) da CVM, tiveram laudos de avaliação fraudados.
Entre os ativos está um terreno na cidade mineira de Contagem, em nome de empresa presidida por Natalia Bueno Vorcaro Zettel, irmã de Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel.
Segundo a CVM, a Entre Investimentos participou ativamente das negociações no mercado secundário, realizando 177 operações e atuando de forma a conferir liquidez às cotas envolvidas na operação questionada. A área técnica aponta que a empresa teria obtido R$ 418.426,54 nas transações.
Em dezembro, a Entre Investimentos e o CEO do Grupo, junto com Vorcaro e empresas a ele relacionadas no caso, propuseram um termo de compromisso no valor de R$ 21 milhões para encerrar o caso na CVM. A proposta não foi aceita pelo colegiado da autarquia.
Procurados pela reportagem, o Garson Crédito, o Banco Master e o Banco do Nordeste não se pronunciaram.
Como surgiu o Grupo Entre
Fundado em 2016, o grupo Entre cresceu por meio da aquisição de empresas de meios de pagamento e crédito, consolidando um ecossistema que afirma reunir cerca de 26 companhias e aproximadamente 700 funcionários - embora o LinkedIn da empresa tenha apenas uma dezena de pessoas diretamente relacionadas.
O Entre se apresenta como um conjunto de empresas de soluções financeiras, tecnológicas e de conteúdo digital, com foco em inovação e expansão no mercado latino-americano.
Entre suas marcas estão a Acqio, de adquirência e pagamentos; a Entrepay, de serviços de adquirência e soluções B2B de maquininhas; a Octa, de gestão e plataforma financeira; a Pmovil, de tecnologia e integração de apps; o Portal Istoé, um canal de conteúdo e publicidade online, entre outras.
O ponto de inflexão do negócio ocorreu em 2022, quando a holding adquiriu a operação brasileira da Global Payments. A transação deu origem à EntrePay, braço de adquirência que se tornaria o principal motor operacional do grupo. Desde então, a estratégia foi acelerar a consolidação.
Em agosto de 2025, o Banco Central aprovou a compra da Acqio, uma tradicional rede de franquias de maquininhas, pela Entre. A movimentação seguinte foi a aquisição da Credihome, uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) - que foi renomeada de Octa - para ampliar sua capacidade de oferecer serviços típicos de um banco digital, como contas, liquidação de Pix e concessão de crédito.
Segundo dados divulgados pela própria companhia, a EntrePay teria movimentado R$ 12,8 bilhões em 2024, com crescimento superior a 60% sobre o ano anterior. Mas os números públicos param por aí.
Diferentemente de concorrentes como Cielo, Rede e Stone, a Entre não divulga balanços auditados, receita líquida consolidada, margem ou nível de alavancagem. Como empresa fechada, não está sujeita ao mesmo grau de transparência que companhias listadas - algo que dificulta uma avaliação precisa do seu porte real e da sustentabilidade do crescimento.
Em 2024, o grupo emitiu R$ 200 milhões em debêntures para financiar a expansão. A operação marcou o acesso mais estruturado ao mercado de crédito.