Se, nos bastidores, a eleição presidencial e a guerra entre os EUA e o Irã dominam as conversas do South Summit Brazil, no palco o assunto é outro. A inteligência artificial domina praticamente todos os painéis.

Um exemplo é a IA visível e invisível na Renner, que trouxe ao South Summit Brazil os primeiros resultados no uso da tecnologia com os clientes e em seus processos. “Tem aquilo que é visível para os clientes e o invisível, no nosso backoffice”, disse o CEO da companhia, Fábio Faccio.

No lado visível, estão ganhos na assertividade da oferta de produtos para os consumidores. Segundo Faccio, a companhia conseguiu um aumento de 75% na conversão de produtos recomendados no site.

“A IA consegue customizar aquilo que era massificado, em que usávamos filtros e clusterização. Agora, a clusterização é mais granular, porque nossa IA vai entendendo a jornada dos clientes”, disse.

No “invisível”, a Renner usa IA em suas equipes de criação, com a tecnologia ajudando a pesquisar tendências no mundo inteiro.

A tecnologia também está ajudando a tornar a companhia mais assertiva na gestão do estoque. Com isso, consegue enviar os produtos certos, na quantidade certa, para as lojas. “Estamos gerando mais vendas, com mais margem e menos desperdício”, afirmou Faccio.

O concierge de IA da Vivo

A Vivo se prepara para lançar um concierge de IA em seu call center, disse Christian Gebara, CEO da empresa de telefonia, em um painel.

Quem ligar para a empresa de telefonia ou entrar via aplicativo vai ser atendido por um agente de IA, que vai direcionar o contato para três outros agentes especializados: um de fatura, outro de suporte técnico ou de mudança de plano.

Com esse modelo, a empresa busca resolver entre 60% e 70% das demandas logo na entrada, tornando o atendimento mais rápido e adequado à complexidade de cada caso.

A Vivo vem aplicando inteligência artificial de forma prática para transformar seus processos de atendimento e eficiência operacional. Segundo Gebara, a empresa utiliza IA para apoiar atendentes, reduzindo cerca de 12 mil consultas mensais que antes eram feitas manualmente e diminuindo em 10% o tempo das ligações com clientes.

Agentes no cardápio

O CEO do iFood, Diego Barreto, contou como a companhia conseguiu incorporar os agentes de IA no dia a dia. Segundo ele, a empresa conta atualmente com mais de 9 mil agentes atuando nas mais diversas frentes da companhia, no background, em atividades em que não há mais necessidade de contar com a participação humana.

“Atualmente, 32% das atividades do iFood foram redesenhadas de alguma forma com os agentes, com algum nível de atividade feito no background”, disse.

Para ele, atingir um alto grau de utilização exige que o tema esteja bem trabalhado entre os funcionários. Desde 2022, a companhia está com essa pauta na agenda, inicialmente implementando assistentes, o que ele considera fundamental para que a IA seja efetivamente implementada.

“Todas as vezes que há uma cultura não muito bem disseminada na companhia, é preciso ficar explicando, empurrando. Não tenho que ficar explicando isso no iFood. Nós temos uma plataforma de low-code integrada ao nosso sistema para as pessoas criarem agentes. Dado que há cultura e essa baixa exigência de conhecimento em código, as pessoas adotam os agentes”, afirmou.

Segurança jurídica

A general manager da Uber no Brasil, Silvia Penna, alertou que a proposta sendo discutida pelo Congresso de estabelecer valores mínimos para corridas pode acabar prejudicando os motoristas das plataformas, pelo risco de reduzir a quantidade de usuários.

"O mercado brasileiro é muito sensível a preço. Qualquer aumento no preço da corrida diminui a demanda", afirmou. "Às vezes a intenção da regulação tem o objetivo de proteger motoristas, mas acaba tendo um efeito de perda de renda para eles."

Destacando que é favorável a um projeto que enderece a questão da proteção previdenciária dos motoristas, Penna disse que o texto precisa ser equilibrado, sem prejudicar a flexibilidade da Uber precificar as corridas, porque é preciso garantir que a plataforma possa oferecer Uber a qualquer momento aos clientes. "Em algumas viagens, eu preciso oferecer vantagens para que ela ocorra", disse.

Mesmo se o texto seguir com essa proposta, a Uber não vai deixar o Brasil, país que é o maior mercado da Uber do mundo e onde está investindo R$ 2 bilhões em tecnologia. Mas Penna alerta "Precisamos trabalhar com segurança jurídica para continuar investindo no Brasil", afirmou.

Founder (rápido) first

Com a IA acelerando as disrupções, o papel e a capacidade dos empreendedores são ainda mais importantes para uma startup conseguir avançar e ser bem-sucedida.

“Não tem mais espaço para founder que é meio rápido”, disse Marcelo Ciampolini, partner da Antler. “Quem não está executando perdeu o bonde.”

A figura do founder é ainda mais relevante no early stage, segundo Larissa Bomfim, managing partner da Canastra Venture, considerando que as pessoas e as empresas ainda estão testando a IA e percebendo o valor dela para o dia a dia, gerando churn elevado. Dessa forma, os empreendedores precisam estar preparados para virar rápido seus negócios.

“O empreendedor se empolga muito, porque encontrou seu PMF [product market fit, estágio em que uma startup oferece um produto que atende às necessidades de um mercado específico], mas depois o negócio dá uma esvaziada”, afirmou. “Um dos moats que buscamos nas startups é a capacidade de se reinventar o tempo inteiro, porque o seu PMF hoje não será o mesmo na semana que vem.”

Capital paciente

Anita Fiori, diretora do Fundo Soros de Desenvolvimento Econômico, usou várias frases de impacto em um debate sobre investimento de impacto, no South Summit Brazil.

“O capital paciente é o único que resta. Ainda mais com essas taxas de juros”, disse Fiori, referindo-se à pressão por resultados dos investidores e também à falta de apetite em alocar recursos em novos fundos alternativos.

Ela explicou o que significa capital paciente, ilustrando o investimento que fez em vários fundos de uma mesma gestora, dos quais nem todos tiveram bons retornos, mas o resultado de uma safra superou todos os anos ruins. “Isso é capital paciente”, resumiu.

Fiori também foi enfática em diferenciar ESG e impacto. “ESG não é impacto. É compliance”, disse a diretora do Fundo Soros de Desenvolvimento Econômico.