Brasília - O Brasil terá uma primeira janela para tentar reverter o novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos na semana passada, mas só haverá espaço, de fato, para negociar reduções ou até mesmo a anulação do novo impacto sobre produtos nacionais somente após as eleições presidenciais de outubro no Brasil.
Uma fonte que tem participado das negociações com autoridades do governo americano disse ao NeoFeed que representantes do Departamento de Estado norte-americano já têm sinalizado reservadamente que Washington não pretende negociar até o resultado das urnas eleitorais brasileiras.
Sobretudo a ala mais política do governo do presidente Donald Trump, ligada ao chamado MAGA (“Make America Great Again” - Torne a América Grande Novamente, em tradução livre) já faz cálculos políticos de chances eleitorais para o pré-candidato à Presidência no Brasil, Flávio Bolsonaro (PL), ganhar a disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em tese, Flávio contaria com o apoio do grupo de Trump.
Logo, o xadrez político deve influenciar, mais uma vez, a questão pelo menos até os brasileiros decidirem quem será seu presidente a partir de 2027 – ainda que Lula se reeleja pela segunda vez.
Na quinta-feira, 30 de julho, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que o governo brasileiro pretende retomar as conversas com a Casa Branca em agosto. “Se eles não nos procurarem, nós os procuraremos”, disse ele durante evento da Apex Brasil.
No entanto, ainda não há qualquer agenda bilateral marcada. O NeoFeed apurou que está prevista para setembro uma primeira reunião entre técnicos do MDIC e do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Contudo, sem a presença de altas autoridades dos dois governos, como o próprio Elias Rosa.
A tendência demonstrada reservadamente até agora por autoridades do governo Trump, diz a mesma fonte, é que o assunto deve se “arrastar” mais um pouco.
Enquanto isso, o Palácio do Planalto insiste com o enfrentamento – o governo Lula inclusive questionou hoje na Organização Mundial do Comércio (OMC) que o tarifaço dos EUA descumpre regras do comércio internacional. E deve esgotar as tentativas de negociação formais com Washington.
Até o momento, Brasília não cogita acionar a Lei de Reciprocidade que, no limite, permite ao Brasil retaliar guerras comerciais impostas por outros países, de acordo com determinados procedimentos técnicos previstos. O próprio vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) fez uma declaração recente nesse sentido: “A ideia não é retaliação. Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos.”
Contexto pré-eleitoral
Politicamente, no entanto, o discurso de que o governo americano “estica a corda” sem razões técnicas para ampliar o tarifaço ao Brasil é favorável num contexto pré-eleitoral, conforme têm relatado a interlocutores.
A estratégia de colar o tarifaço no campo político da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso, também favoreceria e reforçaria o discurso de soberania nacional de Lula na campanha, avaliam integrantes da campanha petista.
No fundo, o governo norte-americano gostaria que o Brasil tivesse assinado acordo semelhante ao firmado pela Argentina. Mas segundo negociadores que estiveram nas reuniões, o governo brasileiro se opôs por implicar em restrições ao mercado global - negociar o comércio de minerais críticos com os Estados Unidos, por exemplo, que excluísse a China.
O próprio governo do presidente argentino Javier Milei já teria pela frente dificuldades de cumprir o próprio acordo com Washington, por depender em parte de aprovar em seu Congresso medidas prometidas a Trump.
Porém, os argentinos também terão uma eleição presidencial pela frente, em 2027. Amarras como essa foram rechaçadas pelo Itamaraty, que continua firme na convicção de reverter futuramente a sequência de tarifaços de Trump.
Reação
Para Constanza Negri, gerente de comércio e integração internacional da Confederação Nacional de Indústria (CNI), existe atualmente um cenário grande de "incertezas" e "tensão" em relação ao futuro do tarifaço. Aproximadamente 29,4% das exportações brasileiras aos Estados Unidos (US$ 12,4 bilhões) foram submetidas à mais recente tarifa de 12,5%.
A maior parte desses embarques, porém, o equivalente a 80,4% desse volume, também vai sofrer com tarifas acumuladas e passará a pagar uma tarifa adicional de 37,5%.
Ela defende que o Brasil junto com o setor industrial siga o caminho do "diálogo" e tome cuidado com a adoção de medidas que podem eventualmente gerar um agravamento ainda maior da crise comercial.
"Diante desse cenário complexo, a indústria tem manifestado preocupação em relação a medidas que podem ser adotadas. É preciso calibrar com muita cautela como a gente pode desatar esses nós", diz Negri ao NeoFeed.
"Temos que evitar situações que levem a uma piora da situação. Temos uma relação de muita complementaridade com os Estados Unidos e não se troca um parceiro comercial como eles da noite para o dia."
A executiva da CNI ainda reforçou que o setor industrial tem defendido junto ao governo brasileiro que continue priorizando sua participação "pragmática" na mesa de negociação com Washington e se esforce para colocar em prática uma agenda de mitigação de impactos no curtíssimo prazo, como medidas de apoio financeiro, por exemplo.